Cura de Deborah Colker: da ferida à alegria através do corpo poema, por Ana Laura Prates

Sabemos que a cura é uma noção antiga, tendo sido tratada por inúmeros filósofos desde a Grécia antiga, até chegar na concepção médica atual, que opera com uma oposição saúde-doença.

Cura de Deborah Colker: da ferida à alegria através do corpo poema

por Ana Laura Prates

(Dedico esse texto a André Luiz dos Santos, quem me emprestou sua religiosidade e me ensinou a firmeza mais linda para agradecer a Obaluaiê)

O Espetáculo Cura, concebido e dirigido por Deborah Colker estreou em setembro de 2021 pela Globoplay e em novembro deslocou-se das telas para os palcos. Após assisti-lo pela terceira vez, esse texto se impôs. Não sou uma pessoa religiosa. Meus pais são da geração que questionou os dogmas cristãos institucionalizados, e decidiram não batizar os filhos nem lhes dedicar uma educação religiosa formal, mesmo que ambos tenham, mais tarde, reconstruído, cada um a seu modo, uma relação com o sagrado. Talvez por não ter sofrido na carne a opressão explícita da Igreja, eu gostava quando minha avó nos visitava e me levava à missa. Do mesmo modo, sempre fiquei comovida com rituais das mais diversas crenças. Mas são algumas experiências artísticas que têm o poder de me provocar epifanias corporais curativas e produzir ligações inusitadas com a dimensão fora do sentido. O espetáculo Cura foi uma delas!

Temos acompanhado, através das entrevistas, Deborah contando que Cura foi produzido a partir de sua própria vivência em relação à condição genética de seu neto Theo, a epidermólise bolhosa, que provoca bolhas e feridas na pele ao menor contato. A busca pela cura e aceitação foi o que a moveu. Mas engana-se quem possa imaginar que se trate de um espetáculo autobiográfico ou, menos ainda, autocentrado. Ao contrário, eu diria que Cura foi criado a partir do descentramento e da expansão. A partir de sua origem judaica, Deborah foi além: “Busquei nos índios, nos africanos, em suas danças, cantos e rezas, em Leonard Cohen e sua poesia, nos Salmos e seus pedidos, nos cantos Sufis, as palavras que potencializam a Cura.” Além disso, ela convidou o rabino Nilton Bonder para fazer a dramaturgia do espetáculo. Bonder diz que “a ciência, a fé, a solidariedade e a ancestralidade são o coquetel de cura do que não tem cura. Concebido antes desta pandemia, o título não é um ‘conceito’, mas um grito!” (www.napontadope.com). Para a trilha sonora, Deborah convidou Carlinhos Brown, que revelou sua entrega para essa experiência, introduzindo na trilha o silêncio e a palavra cantada em português, ioruba e aramaico, convocando os bailarinos e até mesmo o público para cantar junto. O cenário do palco é dinâmico, sendo transformado pelos próprios bailarinos, como que dançando com eles e alterando nossas percepções do espaço e do tempo. O espetáculo também é composto por letras: as letras da ciência, como CRISPR – uma tecnologia de edição do DNA –, e as letras do Evangelho, dentre outras.

O mito que orienta a narrativa é o de Obaluaiê. Na mitologia dos Orixás, ele tinha chagas na pele quando criança e foi rejeitado pela mãe e adotado por Iemanjá. Suas cicatrizes são escondidas por palhas, que deixam apenas braços e pernas de fora. A representação de Obaluaiê no palco, em uma comunhão entre os bailarinos e o cenário é um dos pontos esteticamente mais altos do espetáculo. Sua história passa pela segregação devido a sua aparência, e a maldição dela advinda na forma da peste. Mas passa também pela vergonha e seu atravessamento. É Iansã quem manda uma ventania que desvela o brilho e a beleza de Obaluaiê, e depois dançam juntos para curar as doenças. Uma versão dessa história ganha corpo pela voz do próprio Theo, no início do espetáculo.

Para mim foi inevitável reconhecer em Cura muitos pontos em comum com a cura psicanalítica, chamado por Freud de talking cure, ou cura pela fala. Lacan retoma a ideia de cura como um longo processo dialético que implica em um atravessamento de medos, fantasias e mesmo esperanças vãs de remissão total ou exclusão do sofrimento. Um processo de separação e expansão do desejo. Não se trata, evidentemente, de um processo religioso no sentido hegemônico e institucional, mas pode encontrar pontos de articulação se lembrarmos que durante a Antiguidade, e mesmo em tradições não monoteístas, as experiências de re-ligação – poderíamos dizer, enlace – com o mistério – o fora do sentido –, seja pela via do saber (episteme), do cuidado ou dos ritos, não estavam separados em campos opostos (Ciência e Religião) como ocorre nas sociedades modernas.  

Sabemos que a cura é uma noção antiga, tendo sido tratada por inúmeros filósofos desde a Grécia antiga, até chegar na concepção médica atual, que opera com uma oposição saúde-doença. Aqui precisamos lembrar a crítica que Canguilhem faz à ideia de que a saúde seria a ausência da doença. Para ele, ao contrário, saúde é a possibilidade de transformar normas vigentes a partir de reformulações exigidas por condições limitantes em determinado contexto social. A ideia da cura como processo que se dá pela linguagem, e que implica uma travessia – e que, portanto, supõe um antes e um depois, ou seja, um corte na linearidade do tempo – não se dá sem a inclusão do corpo e, inclusive, tem consequências indeléveis sobre ele.

A encenação de Cura é a condensação desse longo processo, em 70 minutos ritualísticos durante o quais os corpos dos bailarinos nos levam a sentir na própria pele e nas vísceras os tempos da travessia: medo, angústia, dor, sofrimento, desespero, revolta, ausência de reconhecimento de membros, arrepios, palpitações, balanços, embalos, taquicardia, náusea, lágrimas, risos, êxtase, esperança, alegria. Da cura por meio de curativos repetitivos e inúteis, que procuram camuflar as chagas e feridas, passando pela aposta nas letras da ciência, pela fragmentação desesperada da imagem corporal, chega-se ao silêncio que precisa ser suportado pela plateia. Nas duas vezes em que assisti ao espetáculo ao vivo, a longa sequência sem som provocou angústia: tosse, incômodos nas cadeiras do teatro, revelando o deslocamento da comodidade e a necessidade de se reposicionar diante do vazio e da não resposta.

Trata-se do momento de virada, encenado no dramático pas de deux que alude ao mito bíblico do sacrifício de Isaac, dançado com a música de Leonardo Cohen You Want It Darker. O dilema indecidível de Abraão diante da exigência divina é tratado por Kierkegaard como aporia da angústia e seu atravessamento, mas a leitura de Lacan diverge da do filósofo para quem a resposta estaria na fé. Afinal, o holocausto não se realiza: um anjo segura a mão de Abraão! O mandamento insensato é barrado e ocorre uma substituição, e o sacrifício é transmutado, virando uma metáfora que nos humaniza. É preciso, portanto, atravessar o horror para poder declarar, como na canção de Cohen: Hineni – Eis-me! – e estar à disposição da morte e, portanto, na mesma medida, à disposição da vida.

Em Cura, o muro das lamentações é construído e desconstruído pelos bailarinos. A decomposição do muro desenha vazios que permitem uma nova aliança, um novo laço que inclui a alegria – a última palavra lida no espetáculo. No final, a sensação é de catarse e êxtase diante da cura promovida por Deborah Colker e sua Companhia: a transmutação da ferida em alegria através da escrita do corpo feito poema.

Ana Laura Prates – Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (1996), doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (2006) e Pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome