Congresso em Praga, por Walnice Nogueira Galvão

Os temas principais foram, naturalmente, aqueles relativos à literatura e à história do Brasil, bem como à sociologia, à economia, à demografia, e muitos outros nesse nível de generalidade. Mas também aqueles ligados à atualidade ou a desvãos menos ventilados desses estudos.

Congresso em Praga

por Walnice Nogueira Galvão

Realizou-se no mês de setembro passado em Praga o congresso da Associação de Brasilianistas da Europa (ABRE- http://abre.eu/abre-iii/). A novel associação, que fazia falta, foi fundada em 2017 em Paris, sendo a França o país europeu em cujas universidades há mais departamentos de estudos brasileiros. Os Estados Unidos já tinham na BRASA há perto de meio século uma vigorosa e atuante agremiação. Realizando congressos frequentes, cresceu tanto que obrigou ao fracionamento em várias subdivisões regionais.  

Inicialmente, a ABRE,nos quadros da Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), que ademais publica a revista Brésil(s), só agrupava os da Europa Ocidental. Mas aos poucos foram-se achegando os da Europa do Leste, com ótimos resultados. Pouco se sabe, mas há brasilianistas, e sérios, embora escassos, na Rússia, na Polônia, na Hungria – e muitos mais na República Checa, onde se estuda o Brasil em nada menos que três universidades: a Carolus em Praga, a de Brno e a de Olomuc. A integração dos europeus orientais foi benéfica e atraiu mais gente ainda. O fato é que se tratou logo de planejar o congresso bienal não mais em Paris mas em Praga, sob a presidência de Sarka Graouvá que, mal entrada na associação, fora eleita vice-presidente, e isso há apenas dois anos.

Incansável na promoção da literatura brasileira, Sarka já cometeu a temeridade de traduzir Macunaíma, que leva qualquer aventureiro ou profissional à loucura. Também dirige o Centro de Estudos Brasileiros na Universidade Carolus de Praga, num belíssimo palácio barroco no bairro histórico, perto da ponte Carolus com todas as suas estátuas.  Coordena uma coleção de livros de literatura brasileira e portuguesa com nossos clássicos, traduzidos sob sua supervisão. E já realizou congressos, convocando os do Leste.

A reunião de setembro foi um sucesso e as inscrições ultrapassaram as 500. Primando pela organização, os checos prepararam um catálogo de 163 páginas contendo apenas os resumos de todas as comunicações, resumos muito bem feitos e classificados por campo temático.

Os temas principais foram, naturalmente, aqueles relativos à literatura e à história do Brasil, bem como à sociologia, à economia, à demografia, e muitos outros nesse nível de generalidade. Mas também aqueles ligados à atualidade ou a desvãos menos ventilados  desses estudos.  

Quanto à atualidade, evidentemente nada pode se comparar ao impacto da pandemia de covid 19. Mas competiam, no panorama de sua catastrófica incidência em nosso país, com o bolsonarismo, os evangélicos, os militares, o desmantelamento do Estado democrático, os incêndios da floresta amazônica e do Pantanal.

Outros tiveram como alvo a cultura e seus arredores: mundo do trabalho, livros e editoras, samba-carnaval-choro- forró, imperialismo e colonialismo, América Latina, Brasil colônia, África, o café, patrimônio histórico-cultural, educação e ensino, imprensa e mídia eletrônica, modernidade.

Não foram esquecidos os movimentos sociais: feminismo, direitos humanos, trans e travestis, migrações e refugiados, religiões e religiosidades, candomblé na Europa, raça e etnia.

No plano das artes, fotografia, artes visuais, Bienais de São Paulo, arquitetura e urbanismo, cidades, arte popular, cinema.

O excelente catálogo pode ser acessado em: [email protected]

A conferência de abertura versou sobre um viajante checo, pouco conhecido entre nós, que defendeu os índios brasileiros contra aqueles que ameaçavam, e ameaçam, sua existência, seus territórios e seus recursos naturais.

Entre outras iniciativas de mérito, o congresso incluiu a premiação da melhor tese de doutoramento europeia sobre assunto brasileiro.

Em tempo: em perspectiva democrática, todos podem participar da ABRE, não sendo necessário ser docente brasilianista praticante na Europa.

É pena que, devido à pandemia, o congresso tenha-se contentado em ser virtual, pois seus membros perderam a oportunidade da vilegiatura numa das mais belas cidades do mundo, berço de Kafka.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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