Quadro sobre quadro – ou como pelejar à altura com esse governo, por Letícia Sallorenzo

Quadro sobre quadro

Ou como pelejar à altura com esse governo

por Letícia Sallorenzo, a Madrasta do Texto Ruim

Olá a todos. Não vou desejar Feliz ano Novo porque hipocrisia comigo não se cria. O ano se anuncia uma bosta (com direito a bolsinha), complicado, difícil e de perdas para todos. Mas temos que encarar a bosta.

Achei por bem metralhar meu teclado (metáforas bélicas estão em voga, me deixem) para trazer alguma contribuição para o debate e a estratégia de enfrentamento a esse governo de bosta não, não apaga o de bosta, não, deixa o de bosta. Trago algumas ideias da Linguística Cognitiva (quem me acompanha aqui sabe muito bem que meu lema é “Lakoff rainha, pro resto, nadinha!”).

Daí que a ministra Damares está dando a linha na comunicação desse governo – ainda que não seja essa a função dela. Entendo que, com o caso de Jesus na goiabeira, no qual ela revelou ter sido abusada e se refugiou na goiabeira em busca de abrigo e proteção, há duas hipóteses: ela está falando a verdade, e portanto precisa de acompanhamento psicológico para lidar com o terrível trauma do abuso infantil; ou ela está mentindo, e portanto precisa de acompanhamento psicológico para lidar com a mitomania. Em ambos os casos, vida pública é algo contraindicado a ela.

Mas ela está lá e, para o bem ou para o mal, aprendeu a sobreviver usando princípios que a Linguística Cognitiva reconhece e descreve na teoria dos frames. Vamos acompanhar o que ela fez:

“Há uma nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa”

Esse é o frame que a ministra estabeleceu: há papeis biologicamente predeterminados para homens e mulheres. O resto está fora desse quadro.

A essa frase, seguiu-se uma enxurrada de memes e manifestações, muito excelentes, mas a grande maioria equivocadíssimos. Explico: a pior coisa que você pode fazer com um frame é negativá-lo. O advérbio de negação pouco modifica a ideia original, e ainda te obriga a repetir a ideia dentro da forma original apresentada: “Menino não veste só azul e menina não veste só rosa” repete a ideia de Damares, repercute e reforça, e nenhum conteúdo novo é introduzido. Homem vestindo rosa e mulher vestindo azul é reforçar o frame original, pois usa os mesmos elementos cognitivos do frame original. Vamos trabalhar outro exemplo mais cuticuti, pra que eu possa me explicar sem arroubos passionais:

Diante do frame “A Terra é fúcsia”, por exemplo, a pior coisa que você pode fazer é responder “A Terra não é fúcsia”. Melhor é responder com “Onde você vê fúcsia, eu vejo o azul do mar; onde você vê fúcsia, eu vejo o verde das plantas; onde você vê fúcsia eu vejo o colorido das gentes e dos bichos”.

Observe o que eu fiz aí em cima: eu peguei o frame original (A Terra é fúcsia) e introduzi outro frame sobre ele: “existem outras cores muito importantes que não podem ser ignoradas”. Com isso, eu remodelei o raciocínio do outro conforme a minha forma ideológica.

O frame original trabalha metaforicamente cores de forma a associá-las a ideias rigidamente determinadas, segundo a ideologia deles. Isto posto, trabalhar esse frame com memes é simplesmente um sarro. Há algumas frentes de atuação contrária. A mais óbvia é:

 

 

Completar a metáfora de cores. Três metáforas explicando uma coisa (meninas, meninos, motorista) em termos de outra coisa – no caso, uma cor (rosa, azul, laranja). A última das cores ainda traz a inferência de lavagem de dinheiro praticada pela quadrilha  por membros do governo.

 

Outras formas de contra-atacar:

 

Ou: “O seu frame dá importância a X, mas Y, que eu apresento aqui, é infinitamente mais importante que o seu X”. um pouco na linha do meu exemplo da Terra fúcsia.

 

 

Eles são assim, nós somos assado. Contraste semântico. Teun van Dijk de raiz. E o contraste ideologia X igualdade é pra bater palmas de pé, ir cumprimentar e ainda oferecer café com bolinho, porque é muito genial! Depois que eles transformaram ideologia, um troço que deveria ser neutro, em algo extremamente negativo, nós substituímos esse verbete por outros inquestionavelmente positivos. André Sapanos, eu te amo!! <3 <3 <3

 

 

Deixei este por último porque segue o raciocínio do meu exemplo da Terra fúcsia. Temos no centro o frame da ministra cercado (releia essa palavrinha bem devagar, por favor: ceeeerrr caaaaaa doooo. Obrigada!) de outros frames muito mais relevantes. Faz pensar. Faz ponderar.

Deixo meu recado final pra galera LGB e, principalmente, T: escolham seus frames e contrastem com os frames da ministra. Não usem a estratégia “eu não sou assim”. Usem “A ministra quer que eu seja assim mas eu sou assado. Lide com isso.” Peguem o frame original dela, enfraqueçam e façam pouca coisa da ideia dela. A seguir, apresentem a ideia de vocês, muito mais forte, mais importante e imponente. (algo como pegar uma maquiagem nude e transformar em drag baphônica, coisa que vocês fazem com tanta maestria).

Mais uma vez: só apresentei algumas ideias aí. Como diria Chico Buarque a Vinícius de Moraes, “Veja aí e, se for o caso, enfie-as no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão” (inclusive, leiam essas cartas. É um alento e a gente acompanha o raciocínio de gênios da Língua Portuguesa).

 

 

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6 comentários

  1. e isso aí…é preciso

    e isso aí…é preciso derrotar o diversionismo infame da dona damares

    com cercados com mnúmeros sobre a realidade brasileira e a

    necessidade do respeito à política de inclusão social que tanto benefícioo trouxe à maioria do povo brasileiro.

  2. Muito bom, Leticia, assim a

    Muito bom, Leticia, assim a gente aprende a argumentar melhor. E valeu pelas deliciosas trocas de cartas entre Vinicius e Chico. Esse ultimo da um baile de argumentação. E era novinho… 🙂

  3. Obrigado Madrasta, descobri.

    Obrigado Madrasta, descobri. A pasta dessa ministra não é de diretos humanos, da família, ou coisa que o valha. É ministérios dos memes, factóides e fakenews. É para isso que ela tá lá. O filho do Bozo era só para a campanha

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