Resistências no Brasil hoje: ciclo de debates é realizado em Berlim com lideranças políticas brasileiras, por Luisa Barreto

Mônica Francisco, Douglas Belchior e Débora Nunes estiveram presentes em mais um debate da série “Brasil: atores sociais em resistência”, com mediação de Bárbara Santos, diretora artística do grupo de teatro KURINGA.

Resistências no Brasil hoje: ciclo de debates é realizado em Berlim com lideranças políticas brasileiras

por Luisa Barreto

Mônica Francisco, Douglas Belchior e Débora Nunes estiveram presentes em mais um debate da série “Brasil: atores sociais em resistência”, com mediação de Bárbara Santos, diretora artística do grupo de teatro KURINGA. O evento é organizado pelas fundações Rosa Luxemburg, Heinrich Böll, Friedrich Ebert, pelo Centro de Pesquisa e Documentação Chile e América Latina (FDCL) e pelo coletivo Brasil Iniciativa Berlim (BIB).

O ciclo de debates que já recebeu, desde 2018, ativistas políticos, lideranças de diversos movimentos organizados do Brasil, acadêmicos, escritores e jornalistas, promoveu em 15 de outubro de 2019, mais uma conferência com sede no Centro Cultural Refugio, em Berlim, casa compartilhada por pessoas de diversas nacionalidades que vivem e trabalham no local e que vem se estabelecendo como importante ponto de encontro para discussão de assuntos de interesse global.

Já passaram pelo Refugio, Jean Wyllys, em debate com Elizabet Cerqueira, ativista do MST; a jornalista e escritora Eliane Brum, em diálogo com Itamar Silva, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase); Vitor Guimarães, do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST) e a jornalista e ativista da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Juliana Gonçalves e, recentemente, representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Carmen Helena Ferreira Foro e Junéia Martins Batista.

Ontem foi a vez de Mônica Francisco, ex-assessora de Marielle Franco, Deputada Estadual eleita em 2018 com mais de 40 mil votos pelo PSOL, também cientista social e militante do movimento de favelas e pelos direitos humanos há mais de 30 anos no Rio de Janeiro. Douglas Belchior, professor, membro da Uneafro Brasil e da Coalizão Negra Por Direitos, candidato a Deputado Federal em São Paulo pelo PSOL nas eleições de 2018 e Débora Nunes Lino da Silva, membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Estado de Alagoas.

A noite começou com Mônica Francisco, que chamou atenção para o projeto de poder em marcha no Brasil, articulado nos púlpitos da Igreja Universal e da Assembleia de Deus. Um projeto de poder de uma falsa teocracia que não promove a defesa religiosa, a não ser para aquisição, ampliação e manutenção de seus poderes, disse a deputada.

Mônica também alertou para o aumento do feminicídio e dos casos de violência doméstica, a partir da eleição de Bolsonaro. Ressaltou a consolidação do Estado Narcomiliciano – em citação à antropóloga Alba Zaluar -, umbilicalmente ligado a família Bolsonaro e já muito semelhante a máfia italiana, como ficou visível no caso das mortes de Anderson Gomes e Marielle Franco.

Em números: “153 jovens morrem todos os dias, no Rio de Janeiro, são 6.058 tiroteios registrados, 2301 pessoas alvo de tiros, 1213 mortos de janeiro a setembro, 7% mais que em 2018”, alertou Mônica.

Douglas Belchior, fruto da organização da militância negra pós ditadura militar, um dos fundadores e também professor da Uneafro Brasil, rede de articulação e formação de jovens e adultos moradores das periferias, continua ativo na luta pelo acesso a universidade e formação política nos cursinhos populares, presentes hoje em 32 bairros na cidade de São Paulo e Baixada Fluminense.

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Douglas ressaltou que a resistência existe em cada bairro das periferias brasileiras e que o argumento de que a esquerda precisa voltar para a base é uma falácia, enfatizou que se os negros não se organizam, morrem: “ou atuam na base ou morrem, não é uma opção política trabalhar na base, é uma necessidade de sobrevivência”. É como faz o MST, há 35 anos, e os Movimentos Pró-Moradia, que têm base majoritariamente negra, conclui.

Débora Nunes Lino da Silva, assentada da reformaria agrária no Estado do Alagoas, falou sobre a crise estrutural do capital, em todos os seus aspectos, econômico, político, social e ambiental, a partir dos que estão no campo, na roça. O novo capítulo desta crise, no Brasil, “o grande laboratório da América Latina”, segundo Débora, tem dois alvos principais: a retirada de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, que envolve a redução do custo do trabalho, os cortes nos investimentos em saúde e educação, e a exploração total da natureza.

Ela, que vem de uma região que também tem sido alvo de grande intervenção econômica, seja pela transposição do Rio São Francisco, ou pela construção de canais que levam água para abastecer a mineração, em extensões de terra que chegam a 200 quilômetros, desde o sertão de Alagoas. Débora fala da região do Matopiba, composta pelas iniciais dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que tem sido a maior área de expansão de fronteira agrícola.

Débora chamou atenção para o fato de que as queimadas na Amazônia, agora com grande visibilidade no mundo, não é algo novo e que é preciso pensar o projeto de agricultura que queremos, discutir os bens da natureza, a construção do novo e a superação do modelo capitalista, convocando todos a “esperançar”.

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Chamando atenção para o movimento global de avanço da ultradireita no mundo, da qual o Brasil é uma parte, a direita “fascista, violenta, reacionária, extrativista e predatória”, inicia o debate, Mônica Francisco, saudando os grupos de brasileiros no exterior e sua atuação como peça-chave para a união necessária de forças, dentro e fora do Brasil.

“Resistir é uma palavra que acompanha a população negra em diáspora desde o seu sequestro em África”. Esses corpos insubmissos, considerados abjetos, estão sendo alvo de uma ofensiva cada vez mais direta e explícita, tanto no Brasil como no Mundo, diz Mônica, e fazem parte de um contexto de avanço do que ela vem chamando de “retórica dos absurdos”.

“o que antes era só um discurso se torna política de Estado, o que era somente dito às escondidas hoje é de larga veiculação, tornou-se a forma de fazer política no Brasil”.

É urgente, hoje, voltar na história para entender o racismo, o patriarcado e a exploração no Brasil, diz Mônica, pois o “projeto bolsonarista” não está somente ligado a figura do presidente, mas ao “capital de barbárie que, àqueles a quem ele não encarcera, mata”.

A brutalização dos corpos negros foi invisibilizada na sociedade brasileira hipnotizada pelo mito da democracia racial, mas a resistência nunca deixou de existir assim como os processos incessantes de ressignificação da existência através da arte, na religião, nas lutas e na dança, disse Mônica.

O fortalecimento da candidatura de Bolsonaro, que seu deu em grande parte por apoio do campo religioso, a “cristandade brasileira”, na linha dos Ministros de Deus, de Donald Trump, pela ligação da Igreja católica com o lobby palaciano é um processo que acontece às escondidas. “A expertise da Igreja Católica não é afeita a uma ação estridente”, ela atua nos bastidores. Já, os evangélicos, completa Mônica: “não são todos uma coisa só, são campos completamente diversos, é preciso tomar cuidado com isso”.

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Jair Bolsonaro flerta com esse campo mais poderoso que detém o poder e os conglomerados de mídia e que, por esse motivo, homogenizam o campo evangélico que passa a ser entendido como uma coisa só, alerta Mônica.

Segundo Mônica, é preciso entender que a população que compõe os bancos das igrejas evangélicas são mulheres e jovens negras e negros que trabalham informalmente e de forma precarizada. Eles são a classe trabalhadora do Brasil. “Nós estamos falando de uma luta de classes, de preconceito de classe, para além do preconceito religioso”.

Também se referindo a luta de classes no Brasil, Douglas Belchior falou da dívida histórica da esquerda branca brasileira com os negros, que foram taxados de reacionários quando buscaram integrar a classe operária e se tornar assalariados. Douglas explica, que eles não estavam preocupados com a libertação do proletariado, nem podiam pensar dessa forma. A percepção da realidade, tão distinta entre negros e a esquerda branca, é um abismo que não se revolveu, complementa.

O movimento negro, nos 130 anos após a abolição da escravatura, continuou se organizando, como o fez antes, nos primeiros 480 anos. A Frente Negra Brasileira, que surgiu 40 anos depois do fim da escravidão, foi o primeiro movimento organizado. Eles não pediam o rompimento com o sistema, pelo contrário, eles queriam participar da sociedade capitalista de classes – “essa mesmo, que tem dono, patrão, empregado, burguesia e proletariado”. Eles queriam ser operários.

“Mas os negros não eram uma classe na sociedade de classes que surgia, não eram operários e não eram sindicalizados”

Disse Douglas: “nós não conseguimos, pessoas negras organizadas politicamente, construir fortes organizações políticas negras a ponto de, por exemplo, ter voz pública no debate político brasileiro. Não temos isso hoje, ainda”. Isso se deu por dois motivos, pela perpetuação da elite branca oligárquica que invadiu o Brasil e pela própria esquerda, complementa.

“São 25 gerações de pessoas negras sequestradas de África que, após o fim da escravidão mercantil, quando as pessoas deixaram de ser coisas, na prática, após a abolição da escravatura, nunca tiveram um espaço de cidadania plena ou de usufruto disso que se chama democracia”.

Os governos de Lula e Dilma foram o melhor período da história da Brasil, disse Douglas. “Mas o que isso significa para o povo negro? Pouco”.

Apesar dos índices positivos destes governos, a população negra foi desproporcionalmente atingida pela política liberal destes mesmos governos, assim como pela política de segurança pública que “cravou deliberadamente e publicamente no peito de pessoas negras o seu alvo”. Contraditoriamente ao momento de avanço econômico, de ampliação do acesso a universidade e aos bens de consumo, o índice de pessoas negras presas e mortas explodiu, disse Douglas. Lembrou que a população carcerária brasileira está em terceiro lugar no ranking mundial.

40% dessas pessoas estão presas sem julgamento como efeito da lei de combate às drogas, aprovada pelo governo Dilma, que criminaliza o porte e que autoriza o policial militar, “praticante das ordens de um Estado historicamente racista e genocida”, a decidir quem é ou não traficante.

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“É preciso desenhar isso pra falar do governo Bolsonaro. Eu preciso olhar pro Bolsonaro e não me assustar tanto, porque, de fato, não há novidade histórica no que estamos vivendo no Brasil. Não há”. O que muda é o nível de sinceridade com que se fala e se promove a violência no campo discursivo, complementa Douglas.

Trazendo a perspectiva da resistência no campo, Débora Nunes Lino da Silva, falou da crise ambiental e social que afeta principalmente a população negra, indígenas e quilombolas, como resultado de uma combinação perversa do latifúndio atrasado, grandes extensões de terra que não se modernizaram, e o capital financeiro internacional, que deu resultado ao que chamamos hoje de agronegócio.

“O agronegócio é o principal responsável pela crise ambiental que estamos vivendo no mundo, é um projeto conflitante com aqueles que estão no campo e que entendem que a terra é um elemento de produção de vida”. Outro grande exemplo é Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), base para o lançamento de foguetes da Força Aérea Brasileira –  localizada no Estado do Maranhão – que vem “desterritorializando as famílias que vivem ali secularmente”, nas palavras de Débora.

Ela complementa:

“O projeto de Alcântara tem o aparato do Estado a seu serviço, temos um executivo que garante o financiamento, um legislativo, que garante as leis, e o poder judiciário que garante, sobretudo, os processos de criminalização, ou seja, de retirar do caminho qualquer organização ou povo disposto a confrontar e que possa ser um empecilho”.

Destacou que 70% do congresso nacional foi financiado por empresas do agronegócio, como a Monsanto, Syngenta, Basf, Bayer, entre outras.

“o território é o lugar nosso da segurança, é o lugar onde garantimos a nossa resistência, se temos o território, temos a capacidade de resistir, produzir o alimento e a vida. É por isso que somos atacados, os sem terra, quilombolas e índios”.

Vale para o campo, os assentamentos da reforma agrária, para a periferia e favela: “os bens da natureza são patrimônio dos povos e têm que estar a serviço da humanidade. Precisamos fazer esse debate, quem está na cidade também precisa de água e precisa respirar”, conclui Débora.

Ao final, os participantes pediram por mobilização internacional e para que os países europeus envolvidos se disponham a agir, principalmente no que tange a ocupação e exploração de suas empresas no território brasileiro.

Ao fundo, reluzia a placa “Platz Marielle Franco”, confeccionada pelos coletivos atuantes em Berlim para que se preserve a memória, e para pedir que a praça em frente a Embaixada do Brasil, em Berlim, seja renomeada para “Praça Marielle Franco”.

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