Seminário na Espanha discute o humanismo, por Gustavo Conde

Foto: Francisco Proner

Seminário na Espanha discute o humanismo

Por Gustavo Conde

O filósofo camaronês Achille Mbembe materializou a questão que tem tomado conta das angústias existenciais da contemporaneidade: “a era do Humanismo está chegando ao seu fim?”. Diante de tantos retrocessos pelo mundo todo – com destaque para o Brasil, que choca a opinião pública internacional com uma espécie de ‘império da boçalidade política’ –, há de se perguntar, realmente, o que houve com nossa vocação civilizatória, se é que ela existiu, de fato, um dia.

A dúvida é retórica e, na verdade, pulsa na dor humanista que é ver personagens como Bolsonaro e Trump alçados a posições de liderança. Será necessário voltar um passo atrás para avançar dois? Será esse o movimento que a história nos reserva? Um retrocesso intelectual necessário para acordar o pensamento humanista, adormecido pela certeza da conquista civilizatória?

Jamais poder-se-ia pensar que depois de Lula e Obama, o mundo mergulhasse em tamanha pistolagem política. Há 10 anos, tínhamos um líder global admirado pelo mundo inteiro, devastadoramente popular e delicadamente afetuoso com todos os povos do mundo. Lula foi uma explosão de amor que o mundo levará tempo para testemunhar mais uma vez.

Sua inteligência, origem, humanidade e disposição levou uma mensagem de esperança ao mundo todo, contagiando de chefes de Estado a cidadãos comuns de todos os cantos da Terra. Lula transitava em todos os bastidores diplomáticos do mundo – até nos mais hostis como China e Oriente Médio – com proficiência política inédita.

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Foi essa força política misturada a afeto e admiração que chamou a atenção de Obama, a ponto do ex-presidente americano se desmanchar em elogios públicos a Lula, quebrando protocolos, em cena inédita do mundo político. Obama não chamou Lula de ‘o cara’, apenas. Ele abraçou de maneira descontraída e com imenso orgulho de estar ali, ao lado do “político mais popular da Terra” (palavras de Obama). Sorrisos escancarados dos mais importantes chefes de Estado do mundo diante de um brasileiro que assombrou esse mesmo mundo com sua inteligência e espírito democrático.

Obama, por sua vez, fazia parte desse sonho. Apesar de alguns senões da política de Estado americana, mais forte que seus presidentes, ele levou esperança ao mundo com uma agenda menos belicista. Não é por acaso que Obama era recebido em toda Europa – com destaque para Alemanha – com imensa admiração.

O mundo era outro. Ao se contrastar Obama e Lula com Trump e Bolsonaro, fica evidente que a civilização passa por uma crise moral e intelectual sem precedentes.

Não há momento mais oportuno, no entanto, para se discutir a civilização. Se é verdade que os momentos de crise são favoráveis a avanços sociais, façamos deste fosso civilizatório uma razão para restaurar as utopias em toda a sua complexidade semântica – e não no simplismo habitual dos dicionários conservadores.  

Estamos no ano 70 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração esta que deve ser reiterada, mas também repensada à luz das inovações tecnológicas. Há gerações de direitos humanos: há os básicos, civis e políticos, e há os mais difusos – fortemente intoxicados por simulacros ideológicos –, econômicos e sociais.

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Mas há um direito humano que deve começar a ser posto em questão, que é o direito ao “sentido”, ou à “produção soberana de sentido”. Não se trata apenas do direito fundamental à educação, mas a um direito político de efetivamente participar das decisões no que diz respeito aos destinos de uma sociedade.

Assim como a riqueza, os protocolos de distribuição e compartilhamento de sentidos sociais não são equânimes. Embora, nas democracias consolidadas, o voto de um trabalhador braçal seja tão importante e valioso como o voto de um executivo de uma grande empresa, a diferença entre os protocolos de formulação e soberania desses votos é significante.

O sentido das palavras – que afiançam o debate público – são produzidos pelas sociedades humanas tal como as riquezas materiais. Trata-se, ademais, de uma riqueza muito mais sutil e muito mais poderosa, porque os sentidos da linguagem é que embasam e subscrevem a produção posterior de riqueza econômica.

É dessa guerra de sentidos que estamos falando quando constatamos o retrocesso civilizatório que nos acometeu nesses últimos anos. É a guerra híbrida, a pós-verdade, as fraudes eleitorais via fake news, a distorção exacerbada e deliberada dos enunciados políticos.

O embate contemporâneo da civilização se tornou majoritariamente simbólico. O discurso – o fenômeno da produção de sentido social – foi sequestrado e descolado da realidade empírica, numa nova configuração do termo pejorativo ‘ideologia’.

As conquistas da civilização têm deixado espaço para fundamentalismos que, igualmente, consagram a seus usuários de turno um doce sentimento de sedução. Paradoxalmente, agentes individualistas de extrema-direita sentem força política ao fazerem parte de um “todo” social, o que, a rigor, acaba por produzir uma nova espiral de sentimentos contraditórios que atiram o sujeito histórico em um protocolo de vale-tudo semântico.

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É em função dessa angústia fundamental – e de muitas outras – que um Seminário histórico será realizado na Espanha com a presença de intelectuais e ativistas de grande expressão internacional, cujas atenções estarão voltadas para o impasse histórico que nos assalta o presente.

O evento replica a pergunta de Achille Mbembe: “a era do Humanismo está chegando ao seu fim?”. Palestrantes como a ex-presidenta Dilma Rousseff, o jurista Baltazar Garzón, a escritora Pilar Del Rio, os juristas Wilson Ramos Filho e Carol Proner farão debates acerca da nossa memória humanista, com as projeções urgentes para um futuro que deixou de ser minimamente previsível.

Será importante acompanharmos as discussões de modo a participar e multiplicar esse protocolo de pensamento necessário para reorganizações sociais, políticas e, evidentemente, de sentidos. O embate se dá no campo das palavras. Esse é um valor do qual não podemos esquecer jamais.

Confira aqui a programação do Seminário.

 

 

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1 comentário

  1. Quem não odiava Lula, como

    Quem não odiava Lula, como eu, tinha um orgulho danado de vê-lo como Presidente do Brasil expondo suas ideias em dicursos longos, mas nunca enfadonhos, nos diversos países, inclusive nos mais destacados, como Alemanha, França e Inglaterra, quando, até de brincadeira ele deixava de lado as laudas escreitas para falar solto o que lhe viesse em mente. ao término de seus discrusos, invariavelmente, as pessoas se punham a aplaudi-lo de pé.

    As passagens de Lula pelo mundo sempre nos deram orgulho, mesmo ele sendo quem é, tendo sua origem, e ainda que tantos ainda hoje tentarem reduzi-lo a um retirante analfabeto e cachaceiro.

    Nunca vimos imagens de Lula confortável com muitos luxos. Pelo contrário: ele aparecia muito mais como um ser anônio, como naquela imagem simbólica seguindo com a esposa para um descanso dos mortais, de short e bermuda, ccarregando um isopor na cabeça. 

    Moro por não ter como atingi-lo como ladrão, inventou, por convicção que inventou, tudo que ele não fez para denegrir sua imagem. E até aquilo que Sarney, FHC e outros sempre fizeram, que foram as palestras como ex-presidente, Moro e seus comparsas tentam usá-las como uma farsa, ou lavagem de dinheiro. Como se Lula fosse um homem qualquer, sem merecimento algum.

    Não é Lula o desqualificado. Desqualificados, desfigurados, são a imprensa brasileira e as instituições brasileiras. Foram imprensa e judiciário que promoveram essa destruição de Lula, e a construção desse novo país, que fede a mofo de tão velho e pobre. 

     

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