Os jovens e a recuperação no pós-pandemia, por Rodrigo Medeiros

O Brasil precisa de reformas. No entanto, o viés ideológico hegemônico desde 2016 é o neoliberal, pró-capital e de caráter social darwinista.

Banksy

Os jovens e a recuperação no pós-pandemia

por Rodrigo Medeiros

Publicado no dia 11 de agosto, o estudo sobre a juventude e a Covid-19, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), traz muitas preocupações sobre os impactos no trabalho, na educação e na saúde mental desse público alvo. Segundo a OIT, mesmo antes da pandemia, a integração dos jovens ao mercado de trabalho era problemática. A abertura de vagas de trabalho decente já era um grande desafio mundial.

Não vencemos a pandemia ainda e as economias de diversos países encontram-se deterioradas. O Brasil, por sua vez, apresentava um desempenho ruim do ponto de vista econômico e, de acordo com o IBGE, as desigualdades sociais, historicamente extremas, cresceram desde 2016 no rastro da blitzkrieg “reformista”. A reforma trabalhista, por exemplo, não melhorou a qualidade dos empregos gerados na economia brasileira. Tampouco melhorou a renda do trabalho. A informalidade laboral cresceu antes da pandemia e as perspectivas “reformistas” ainda não são boas para a economia brasileira.

O Brasil precisa de reformas. No entanto, o viés ideológico hegemônico desde 2016 é o neoliberal, pró-capital e de caráter social darwinista. A discussão da reforma tributária reflete esse quadro. Afinal, quais são as resistências para a tributação brasileira ganhar um caráter mais progressivo sobre a renda e o patrimônio, algo próximo ao padrão dos países desenvolvidos da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE)? As volumosas renúncias fiscais para o capital, “os incentivos”, que carecem de transparência e avaliação criteriosa, deveriam ser submetidas a uma real discussão reformista no Brasil. Fechar os ralos da sonegação fiscal anual, algo da ordem de 9% do PIB no Brasil, também é importante para se buscar redistribuir efetivamente o peso da carga tributária.

Curioso é o fato de que o neoliberalismo brasileiro, no meio da pandemia, venha evocando uma suposta sacralidade do teto dos gastos primários, a emenda constitucional 95, para buscar embalar uma nova rodada de desmonte dos direitos trabalhistas e de redução da renda laboral. A proposta neoliberal de reforma do Estado, por sua vez, segue a lógica das reformas chilenas, sob a ditadura de Pinochet, para beneficiar grupos econômicos privados? A teoria da austeridade expansionista dos gastos públicos não se sustenta em contextos de recessão e degradação das estruturas econômicas. O que está em jogo no Brasil, assim como em outros países, é o projeto futuro de sociedade: a utopia reacionária (neoliberalismo com darwinismo social) versus a possibilidade de utopia progressista (socialdemocracia atualizada por conta dos avanços tecnológicos).

Leia também:  Saudade de tirar os sapatos, por Carol Proner

Para um país que se insere de forma passiva na globalização, a partir da exportação de bens básicos (e/ou semimanufaturados), não haveria muita necessidade de um mercado interno relevante. Vivemos esse tipo de situação na República Velha (1889-1930), oligárquica e antissocial, na qual as questões sociais eram tratadas como casos de polícia pela mentalidade hegemônica de então. A diferença de “ontem” para hoje é que somos uma sociedade urbana, relativamente mais educada e com expectativas sociais maiores em relação ao futuro. Ademais, muitos micro, pequenos e médios negócios dependem no presente da renda do trabalho no mercado doméstico.

De acordo com a OIT, há um impacto sistemático e profundo da pandemia sobre os jovens, sendo que tem sido particularmente difícil para mulheres jovens em países de baixa renda. Pessoas entre 18 e 29 anos sofrem ainda com as dificuldades de acesso ao ensino remoto, em substituição às aulas presenciais na pandemia. Segundo o estudo da OIT, “65 por cento dos jovens relataram ter aprendido menos desde o início da pandemia, 51 por cento acreditam que sua educação será atrasada”. Conforme consta no estudo, “a pandemia também está afetando os jovens trabalhadores, destruindo seus empregos e minando suas perspectivas de carreira”.

As perturbações na aprendizagem e no trabalho, agravadas pela crise da saúde, provocaram a deterioração no bem-estar mental dos jovens. O estudo apurou que 17 por cento dos jovens estão provavelmente afetados por ansiedade e depressão em 112 países. Em síntese, o estudo “apela a investimentos urgentes, direcionados e mais inteligentes em empregos decentes para os jovens, incluindo na proteção dos direitos humanos dos jovens, programas de garantia de emprego e treinamento, benefícios de proteção social e seguro-desemprego para jovens, maiores esforços para impulsionar a qualidade e oferta de ensino online e à distância, e maior complementaridade com serviços de saúde mental, apoio psicossocial e atividades esportivas”.

Leia também:  Informantes “bipartidários” de Washington revelam seu plano para o caos se Trump vencer a eleição, por Rogério Mattos

Os nossos jovens serão os adultos e os idosos do “amanhã”, assim como os adultos e os idosos de hoje foram os jovens de “ontem”. Portanto, jogá-los todos na vala da desesperança é desperdiçar energias produtivas, inovadoras e experiências capazes de ajudar o desenvolvimento do país. Ademais, a desesperança costuma ser um campo fértil para a proliferação de ideologias políticas extremistas e, nesse sentido, não devemos desconsiderar a ascensão da extrema direita no mundo e as consequências de revivermos alguns aspectos das experiências trágicas ocorridas na década de 1930. No Brasil, assim como em outros países, esse complexo xadrez está sendo jogado no presente.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome