TV GGN 20h: A guerra das CPIs e as dúvidas sobre o pós-Bolsonaro

Confira o comentário diário de Luis Nassif sobre os últimos acontecimentos na política brasileira nesta segunda-feira, 12 de abril

Ao comentar os dados de covid-19 no Brasil, Nassif diz: “O general Pazuello deve ter deixado algum assistente na área de estatística do Ministério da Saúde e veio uma estatística totalmente degringolada do Distrito Federal, o que comprometeu os dados de todo o país”

“Bolsonaro traz a selvageria no país (…) Nós tivemos um fenômeno que ocorre quando Luiz Edson Fachin resolve tirar o caso triplex de Curitiba – não foi uma intenção nobre, foi livrar a cara do Sergio Moro”, explica Nassif.

“A ideia é que, tirando o caso do triplex de Curitiba, não haveria o julgamento da isenção do Sergio Moro, que é um julgamento muito mais grave do que poderia comprometer todos os casos ligados ao Lula”.

Contudo, no momento em que Fachin isso, uma caixa de Pandora se abre – “Com a decisão dele, o Lula fica habilitado a se candidatar em 2022. E o que o Lula faz imediatamente? Ele faz um discurso de estadista“, lembra Nassif.

“Você tem toda essa resistência contra o Bolsonaro, com suas 350 mil mortes e com essa destruição do país em todos os níveis, um sociopata em todos os níveis. Uma oposição perdida, sem saber como atuar, uma mídia perdida, e de repente vem o Lula e faz a síntese”, afirma Nassif.

A volta de Lula ao cenário político “provocou um furacão, porque reorganizou a discussão a ponto de você ver alguns dos mais irados antilulistas fazerem loas ao Lula – O Jornal Nacional e a mídia acabarem com essa invisibilização deletéria em relação ao Lula”.

“O Lula é, talvez, o político brasileiro de maior expressão da história em termos globais. E invisibilizado pela mídia brasileira”, ressalta Nassif

“O Lula vem à tona, e quando fica claro que seria o único em condições de bater o Bolsonaro, começa um processo de aceitação do Lula (…) Você começa a ter, digamos, uma reorganização da democracia e da diversidade que se espera de regimes democráticos. De repente, surge a possibilidade do Bolsonaro cair, com todos esses abusos dele e com a CPI (…) Se você pensar em Supremo, em mídia, eles não são a bússola – o que é a bússola: eu tenho os princípios, os valores, e eu não mudo”

“No período pré-Bolsonaro, o que eles fizeram foi uma manipulação de mercado de opinião vergonhoso. Não tinha princípio. Criou-se o discurso de ódio, deu espaço para os novos cronistas do ódio, criaram a figura do inimigo na política. Tudo isso que levou ao Bolsonaro”, lembra Nassif.

“Enquanto o Bolsonaro está aí como essa ameaça ao país – é um louco no comando do país – eles olham para o Lula de um jeito: o Lula como a única esperança de salvar o país, de promover aquele grande congraçamento nacional – que pode ser no segundo turno das eleições”, diz Nassif, lembrando que, como a perspectiva de Bolsonaro cair, o estado de exceção pré-Bolsonaro volta a ganhar força – “aí a ameaça é o Lula e você tem condição de levantar os fantasminhas que eles levantam a toda hora. Quando você não tem um país com caráter institucional você entra nessa”.

Humberto Costa e o cenário político

Nassif entrevista o senador Humberto Costa (PT-PE) para discutir o jogo político formado em torno da CPI e seus desdobramentos, além da cena política como um todo. “Acho que o Bolsonaro entrou em parafuso. Entrou já em parafuso no momento em que Lula readquiriu os seus direitos políticos”, diz o senador. “(Bolsonaro) Tentou fazer um movimento para se recolocar diante de muitas coisas, inclusive da pandemia, mas ele é uma pessoa absolutamente tosca, que não consegue ter uma visão mais ampla da realidade”, diz Costa, ressaltando que Bolsonaro “poderia estar, agora, sendo ovacionado se tivesse mudado essa visão sobre a pandemia, especialmente sobre as vacinas”

“Não tendo essa condição de mudar a sua visão, a sua postura, então parte para o que ele sabe fazer unicamente, que é estabelecer um processo de disputa política violento, acirrado, radicalizado”, explica o senador. “Com esse processo de possibilidade de abertura de uma CPI aí o parafuso parece que soltou de vez”, diz Humberto Costa. “Ele tentou, em um determinado momento, com a ajuda do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, retirar assinaturas daquele pedido de CPI. Não deu certo”.

Para Humberto Costa, Bolsonaro não contava que algo que já aconteceu várias vezes no Brasil: “quando se tem um pedido de CPI que atende aos pré-requisitos e o presidente da Câmara ou do Senado não o instala, cabe sim um recurso ao Supremo“, ressalta.

“Quando ele viu agora que a CPI ia ser instalada mesmo, aí ele partiu para o tudo ou nada, querendo incluir os governadores dentro da investigação da CPI, dando ordem para outros senadores abrirem uma outra CPI para investigar governadores”, diz o senador petista . “Isso é muito polêmico porque, a rigor, quem investiga governador é a Assembleia Legislativa e quem investiga prefeitos é a Câmara Municipal”.

“Quando você está em uma CPI que identifica alguma coisa relacionada a um governador, normalmente você para aquela investigação específica, manda para o Ministério Público ou para a Assembleia Legislativa (…)”.

Quanto a influência da bancada governista para atrapalhar a CPI, Humberto Costa diz que “é preciso aguardar se vai ter uma CPI para investigar os procedimentos de Bolsonaro e do governo, e a outra – como eles querem – para investigar governadores e prefeitos. Essa é a primeira questão”.

“A segunda questão é como eles vão se colocar diante dessa CPMI se ficar apenas uma, a primeira. Eu creio que ainda haverá alguma tentativa de melar o jogo, vamos dizer vulgarmente”, diz o senador, afirmando que “vão tentar adiar o funcionamento da CPI alegando que, por conta da pandemia e do funcionamento remoto, não seria possível fazer CPI”

“E vão alegar, como argumento paralelo importante, o fato de que no presente momento não há nenhuma comissão, nem permanente nem provisória, temporária, a não ser aquelas que tratam de covid, funcionando”, ressalta o senador.  “E tem uma outra possibilidade: na Câmara, o presidente da Câmara (Arthur Lira) está falando em uma CPMI (ou seja, uma CPI que junta Câmara e Senado) e eles vão, obviamente, colocar todos os cães raivosos da Câmara em uma larga maioria para tentar impedir o funcionamento da CPMI”

“Apesar de não haver nada que não seja de conhecimento público que vá para a investigação, eu acho que ele (Bolsonaro) está muito preocupado que, nesse momento de grande desgaste, vai se somar um desgaste ainda maior e que torne, talvez, irreversível, a possibilidade de ele se manter – quer dizer, torne irreversível a possibilidade dele sair”

“Eu acredito que a tentativa deles, se for irreversível uma única CPI e uma única CPI lá no Senado, eles vão tentar construir uma maioria para inviabilizar a investigação”, diz Humberto Costa.

“O PSDB, que não tem um número muito grande de senadores mas tem alguns senadores, aparentemente tem interesse na investigação. O MDB tem interesse na investigação – inclusive, estava circulando a ideia de que o senador Renan Calheiros fosse indicado para ser o relator da CPMI e ele, hoje, está em uma rota de colisão com Bolsonaro, certamente não vai fazer nenhum esforço para agradá-lo”, diz Costa.

“O PSD é um tanto dividido, mas é um partido mais independente, e eu creio que ele também pode fazer uma coisa mais equilibrada”, diz o senador.

“Onde eu acho que a gente não vai encontrar muita guarida vai ser no pessoal do PP, no pessoal do Republicanos e no pessoal, eu acredito, que PSC, esses que são mais bolsonaristas”, pontua. “Mas a chamada ‘centro-direita’, talvez nós possamos contar com ela para algumas ações importantes na CPMI. Vamos ver o que vai acontecer. De todo jeito, está ficando ruim para ele o fato de ficar impedindo que a CPI se estruture, de ameaçar bater em um senador

“Essa conversa por telefone com o senador Kajuru – a informação que eu tenho é que o mal estar gerado no STF é gigantesco”, diz Costa. “Quer dizer, o presidente da República tentando convencer um senador a adotar uma política para minimizar um processo de investigação que é a CPI e, ao mesmo tempo, instigar uma investigação e um processo de impedimento de um ministro do STF. É muita confusão”.

Sobre a decisão de Fachin retirar o triplex de Curitiba, Costa diz que “ele (Fachin) pensou, principalmente, em preservar o Moro e a Lava-Jato. Ele é um dos que receia que essa decisão de declaração da suspeição do Moro possa prejudicar outras decisões que foram tomadas pelo Moro, e pelo próprio Supremo, e por ele próprio como relator”, diz o senador.

“Como no julgamento para a suspeição houve um voto que ninguém esperava, que era o da ministra Cármem Lúcia, ficou uma situação difícil para ele e para os demais integrantes da Corte que vão ter que se posicionar”, diz Costa. “Eu acho pouco provável que essa decisão que o Supremo vai tomar agora derrube a suspeição de Moro. “Então, ele vai ficar no pior dos infernos, ou dos mundos”, afirma o senador

“De um lado, todos os processos contra Lula suspensos por conta dessa questão do foro inadequado e, por outro lado, com a suspeição de Moro que dá um conteúdo importante na garantia de inocência de Lula”, afirma Costa.

“Qualquer pedido de impeachment de ministro do Supremo e Procurador-Geral da República tem que passar pelo presidente do Senado. Ao que me consta, nenhum presidente do Senado – pelo menos desde quando estou lá – acatou qualquer pedido de impeachment de qualquer ministro”.

“Eu acho que o bolsonarismo conseguiu se infiltrar em vários setores importantes do Estado brasileiro”, diz o senador. “(O bolsonarismo) também tem perdido algum espaço – está presente fortemente nas Forças Armadas, mas essa crise que aconteceu recentemente mostra que não é mais uma questão consensual o apoio a Bolsonaro”

Sobre a reunião dos militares para dizer que não admitiam o impeachment de Bolsonaro, Costa diz que teve essa informação muito depois, “em uma entrevista que o (ministro) Dias Toffoli deu a uma revista, onde ele contava esse episódio – houve um momento em que existiu uma ameaça concreta de impeachment de Bolsonaro, por volta de abril, e que os generais que estavam no governo, comandantes das Forças Armadas, mandaram um recado muito claro que não aceitariam isso”.

“Essa ameaça, em si, já foi capaz de demover muita gente de decisões que precisavam ser tomadas em diversas instâncias do Poder Judiciário”, ressalta Humberto Costa.

“Hoje, o bolsonarismo está dentro da Justiça, perdeu espaço no Ministério Público e em parte do Judiciário, perdeu espaço na Polícia Federal, perdeu espaços na Polícia Civil – uma pesquisa mostrou que ele (Bolsonaro) ainda é muito forte nas Polícias Militares, e tem esse apoio dos grupos paramilitares, dessas milícias que existem por aí. E dentro do Executivo, ainda tem uma base importante. Eles (bolsonaristas) realmente conseguiram uma entrada importante no Estado brasileiro, o que é muito preocupante, sem dúvidas”, pontua Humberto Costa.

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