400.000 mortos pedem nossa voz emprestada!, por Eduardo Ramos

Eu gostaria de saber que resposta os militares teriam a dar

400.000 mortos pedem nossa voz emprestada!

por Eduardo Ramos

Um dos desabafos que mais leio dos amigos nas redes sociais é, na verdade, uma pergunta sem resposta – ou de resposta tão incômoda, que optamos por fingir que não a temos dentro de nós.

“porque não reagimos furiosos contra esse genocídio no nosso país, perpetrado por um presidente não só bestial, como incompetente?” – essa, a pergunta-desabafo.

Me lembra um pouco a mesma situação sofrida, que nos pôs em uma certa catatonia, na época do impeachment da presidente Dilma, quando invocávamos mês a mês, em 2015 e depois em 2016, novas esperanças, a última delas, “que o Supremo não vai deixar passar essa excrescência jurídica!” – e não só deixou, como foi um cúmplice acovardado, omisso, alguns dos ministros bem ativos até, a favor de todos os crimes da Lava jato e do impeachiment em si.

Mas uma parte da sociedade esteve ativa naquele tempo: nossa elite e classe média, banhados em nojos e ódios de Lula e do PT, Moro, Janot e os procuradores, heróis nacionais. A mídia os incensava dia e noite, enquanto demonizava para uma plateia histérica os “crimes e a corrupção da maior quadrilha do Brasil de todos os tempos” (sic…). E um rebanho humano, tosco, raso e fanatizado era tangido no mar de esgoto do ódio e do fascismo. Hoje, os frutos daquele processo social perverso estão aí: nossas instituições falidas, desacreditadas, a mídia em estado de dormência, mesmo quando critica Bolsonaro é com uma candura que chega a dar sono em quem assiste os programas televisivos, nada dos paroxismos, das bombas semióticas, dos discursos que fomentavam indignação e revolta. Por irônico que seja, num paradoxo digno de um livro de ficção, um pouco de alento vem do mesmo Supremo Tribunal que permitiu em sua omissão torpe o caos, o horror, o pântano em que chafurdamos e morremos alguns de nós, à ordem de algo em torno de 4.000 seres humanos, todo santo dia… Algumas guerras sangrentas no passado não produziram tantos cadáveres e famílias enlutadas…

Voltando à pergunta que fingimos não ter a resposta, imaginei se não poderíamos despertar do nosso torpor catatônico, todos nós, população civil e instituições, se viessem nos assombrar e nos pedir a VOZ emprestada, os 400.000 mortos até o dia de hoje.

Imaginei seu João, 65 anos, morador de Natal, perguntando aos militares: “Vocês falam tanto na honra “verde-oliva”, porque permitiram que um capitão dado como demente se tornasse o presidente da República apoiado por um golpe de Estado? Pior, senhores militares: porque o apoiam até hoje, diante de todos os descalabros, corrupção na família, negação da ciência, ministros bizarros e desprezíveis, e o show de loucura e arrogância bestial de seus filhos? Porque os senhores aceitaram milhares de cargos nesse governo, se vendendo por migalhas, em vez de dignamente se afastarem e afirmando categoricamente não quererem ser cúmplices dessa coisa degradante e vergonhosa, o governo de Jair Bolsonaro?

Eu gostaria de saber que resposta os militares teriam a dar ao seu João.

Imaginei dona Sebastiana, 45 anos, de São Gonçalo, perguntando aos juízes que afrontaram prefeitos, cancelando por ordem judicial decretos municipais que estabeleciam a quarentena, com a desculpa esfarrapada do “direito de ir e vir do cidadão” (sic…) – como fez recentemente, uma juíza no Rio de Janeiro. Quantas mortes sua Excelência não provocará com seu gesto estúpido, quer saber dona Sebastiana.

Imaginei todos os mortos de uma só vez vindo nos ver em uma última visita, nos cercando nas ruas, e nos perguntando:

“Muitos de nós morremos sem necessidade! Morremos por falta de lockdown, de oxigênio, das vacinas da Pfizer não compradas pelo ser bestial, morremos por fanatismo nosso, acreditando em médicos imbecis e/ou fanáticos que nos recomendaram a cloroquina, o tratamento precoce, não podemos mais ser salvos, já fomos enterrados e pranteados por nossos familiares. Mas vocês estão aqui, estão vivos! Quando vão se erguer e lutar por suas vidas?…”

400.000 mortos querem nossa VOZ emprestada. Querem justiça, querem que não sejamos os próximos, querem que nossas autoridades, em um assomo de coragem e dignidade façam a sua parte.

Querem que façamos o que ainda não tivemos a dignidade de fazer: LUTAR POR NOSSAS VIDAS, DE CADA UM DE NÓS!

Está na hora de ouvirmos a voz

dos 400.000 mortos.

(eduardo ramos)

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