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A ninguendade de Darcy Ribeiro, por Henrique Matthiesen

A ninguendade de Darcy Ribeiro, por Henrique Matthiesen
Foto Acervo PDT

A ninguendade de Darcy Ribeiro

por Henrique Matthiesen

Decifrar e compreender o Brasil talvez seja uma das tarefas mais intrincadas que os sociólogos, antropólogos e cientistas  tenham como desafio, pois a identidade brasileira possui nuances distintas de outras construções civilizacionais.

Darcy Ribeiro mergulhou fundo nesta tarefa de arquitetar uma teoria plausível sobre o Brasil, com os estudos e análises que o consumiram por 30 anos em sua vastíssima obra antropológica.

Destas experiências e observações, Darcy defendeu em sua obra O povo brasileiro, que aqui se constituiu a ninguendade – fruto da desconstrução étnica de nossas matrizes formadoras –  ou seja: indígena, europeia e africana.

Sua teoria obedece a conceituação de que aqui não se formou precisamente uma identidade nacional, mas uma maneira inventiva de se colocar no mundo, que nasce do desfazimento dos moinhos de gastar gente e da quebra brutal de suas etnias.

Marca indelével desta ninguendade é a mestiçagem. Essa argamassa de elementos de diversas etnias, religiões e culturas fundidos e lavados em sangue indígena, negro e europeu que enseja o povo brasileiro.

Segundo o antropólogo em sua investigação na construção da teoria que explica o Brasil pondera:

Nós, brasileiros (…) somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi um crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ninguendade.

Fator capital para a mestiçagem um velho costume indígena foi a oportunidade que nossos colonizadores encontram para seu processo sutil em princípio de escravização indígena, por meio da tradição do cunhadíssimo.”

Esta antiga prática indígena para incorporar estranhos à sua comunidade, consistia em lhes dar uma moça índia como mulher. Assim, estabeleciam-se laços que o aparentavam a todos os membros do grupo.

A partir de então, o estranho (europeu) estabelecia uma relação de parentesco com os índios da família. Oportunamente, o colonizador viu nesta tradição a oportunidade para o processo de pilhagem, pois contava com um enorme contingente de “cunhados” que seguindo a tradição do sistema de parentesco deveriam se pôr a serviço do parente.

Consequentemente surge a primeira geração de mamelucos fecundados nos ventres das mulheres indígenas, e que posteriormente seriam também a primeira geração da ninguendade.

Esses mamelucos ou brasilíndios, um povo que não era índio e nem português, mas, falava tupi, sofria os efeitos de sua quebra étnica, de sua desindinização e a busca de uma identidade, que por meio dessa fusão biológica e cultural gestaria o que configuraria o brasileiro.

Este processo de surgimento de uma etnia brasileira é obra da anulação violenta das identidades étnicas de índios, dos africanos e dos europeus, como pela indiferenciação entre as várias formas de mestiçagem como os mulatos (negros com brancos), caboclos (brancos com índios) ou curibocas (negros com índios). Todos eles na ninguendade.

Henrique Matthiesen – Formado em Direito. Pós-graduado em Sociologia.

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