Agora, sim: começa a produção do anúncio para vender o Rio de Janeiro, por Sebastião Nunes

Continua a luta de meus amigos mortos para se livrarem dos canalhas do Rio de Janeiro, enquanto o burro-asno-jegue Bolsonaro-genocida pasta pendurado pelo rabo. A dificuldade é terminar o anúncio de venda, permuta ou arrendamento, mas um dia eles vão conseguir.

Agora, sim: começa a produção do anúncio para vender o Rio de Janeiro

por Sebastião Nunes

Antes de mais nada, nossos amigos penduraram de novo o quadrúpede genocida Jair Messias (agora transformado em jegue) pelo rabo. Alguém aventou a hipótese de pendurar o estúpido pelo pescoço, que é duro que nem pau, mas a ideia for descartada: vai que o burro-jumento se enforca. Como gente ou bicho, de nada valia. Ainda assim, tornara-se importante para o desenvolvimento da história. Também servia para o autor se vingar de tanto malfeito, arrogância, burrice, ignorância e insensibilidade.

Voltando a sentar nas poltronas de nuvens sobre tapetes de nada, Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos, Sancho Pança e Sérgio Sant’Anna continuaram a admirar a faixa que Gabriel Arcanjo exibia nas alturas e que continha a seguinte verdade eterna:

PUBLICIDADE É A TÉCNICA QUE OS ESPERTOS USAM PARA ENGANAR OS TROUXAS.

Como inspiração era excelente. E agora que tinham chegado à conclusão de que deviam vender, permutar ou arrendar (por no mínimo 500 anos) o estado inteiro do Rio, de porteira fechada, dedicaram-se a pensar.

(Parêntese: ninguém usou a expressão porteira fechada, mas era óbvio que, se a ideia era se livrar dos bandidos que infestam o Rio, tinha de ser com todos os pertences, sem tirar um único grão de areia ou uma única bota fedorenta de miliciano. Tudinho.)

Excelente publicitário da velha guarda, Adão sapecou o primeiro título:

VENDE-SE A MAIS BELA CIDADE DO MUNDO!

Assuntaram os amigos. Poliram os árduos neurônios. Desenterraram de velhos armários o rol de lembranças. Regurgitaram. Até que Sérgio, em voz baixa, opinou:

– Não gostei. A frase é mentirosa, pelo menos meio-verdadeira. Tem gente que acha Istambul a mais bela. Ou Nápoles. Ver Nápoles e depois morrer, dizem. Ou Praga, que eu mesmo adoro. Ou Nova Iorque. Ou Lagos. Ou Tombuctu. Ou Paris etc. Melhor pensar nossa coisa. Vamos deixar de ufanismo neste momento trágico.

– Além disso, não vende o estado todo – meteu-se Otávio. – Cadê os cafundós, o podre, o nojento, a decadência galopante, a miséria a céu aberto?

– Ora, porra! – desencadeou Adão, que jamais falava palavrão. – Publicidade é assim mesmo e sempre foi: fala-se da bela sem mostrar a fera. Exibe-se o grã-fino e esconde-se o esfarrapado. Não esqueçam a faixa do Arcanjo Gabriel.

– Sugiro simplificar o título – sugeriu Lobato, ignorando a explosão castiço-pornô do poeta. – Como farmacêutico, aprendi a dourar a pílula sem dizer que o gosto é amargo. Por exemplo, que tal esse título, de duplo sentido:

VENDE-SE O RIO DE JANEIRO!

– Voltamos ao princípio – sentenciou o argutíssimo Vieira. – Mordemos nosso próprio rabo. A primeira proposta foi exatamente igual.

– Não, senhor – retornou Sérgio. – Chegamos até a subdividir a cidade do Rio, pra vender em pedaços. Agora, não. Rio de Janeiro é a cidade e é o estado. Se alguém for trouxa o suficiente pra comprar, leva o gato junto com a lebre.

– Ainda não gosto – voltou à carga Otávio. – Concordo com a tese de Gabriel, mas um pouco de verdade não faz mal nenhum. Proponho um anúncio mais amplo:

VENDE-SE O RIO DE JANEIRO!

COMPRE O ESTADO E LEVE DE GRAÇA PRAIAS E MONUMENTOS!

– Admito que melhorou – concedeu Adão. – Mas, se é para ser explícito, acho melhor dar o recado completo, botando um subtítulo em caixa baixa:

VENDE-SE, PERMUTA-SE OU ARRENDA-SE, POR NO MÍNIMO 500 ANOS, O RIO DE JANEIRO!

No pacote, inteiramente grátis, lindas praias (incluindo Copacabana e Ipanema), monumentos, belezas naturais e dezenas de cidades modernas, ricas e progressistas!

– Essa de cidades modernas, ricas e progressistas tá de lascar – ironizou Sérgio. – Minha terra não tem palmeiras nem sabiás. Tem urubus e carniça. Além disso, a praia de Copacabana caiu do galho. Que tal trocar por Barra da Tijuca ou Leblon?

– Não, senhor – finalizou definitivo Adão. – Copacabana e Ipanema são famosas no mundo inteiro. Vamos fechar o anúncio desse jeito. Claro que falta o corpo do texto. Mas isso pode ficar pra semana que vem. Cadê o Sancho? Tô de goela seca.

Enquanto Sancho abria o embornal inesgotável, nossos amigos miravam ora o título, que tremulava no ar, ora o asno-jumento-jegue-burro Bolsonaro que, pendurado pelo rabo, pastava mui tranquilo, sem atentar no castigo que galopava na sua direção.

(No próximo capítulo: continuando o anúncio para vender o Rio de Janeiro.)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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