Além da atual luta contra o SARS-Cov 2 temos de vencer os parasitas que nos roubam o direito ao futuro, por Arnaldo Cardoso

Nos últimos anos temos sofrido com a escalada de uma política destrutiva do meio ambiente, de ataque a comunidades indígenas, quilombolas e de ribeirinhos e de perseguição a ativistas ambientais

Reprodução Twitter

Além da atual luta contra o SARS-Cov 2 temos de vencer os parasitas que nos roubam o direito ao futuro

por Arnaldo Cardoso

Desde 1972, no contexto da realização em Estocolmo da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente o dia 5 de junho é celebrado como o Dia do Meio Ambiente (WED – sigla de World Environment Day) e o tema de 2021 é a Restauração de Ecossistemas. Esses temas anualmente escolhidos estão sempre ligados aos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) e acredita-se que a promoção de discussões e conscientização são instrumentos para o atingimento dos referidos objetivos.

Para além dos simbolismos, o Dia do Meio Ambiente, que na prática deve ser todos os dias, se tornou uma plataforma global “para sensibilizar pessoas, organizações e países para a importância de proteger a natureza”.

Entre as várias formas que a restauração de ecossistemas pode assumir destacam-se a plantação de árvores, a limpeza de rios e costas e a mudança alimentar.

No Brasil de 2021 o Dia do Meio Ambiente foi acompanhado por novas revelações de graves processos envolvendo agentes públicos em diversos crimes contra o meio ambiente, tendo o Ministro do Meio Ambiente no centro das investigações. Isso causa na maior parte da sociedade indignação e vergonha.

Nos últimos anos temos sofrido com a escalada de uma política destrutiva do meio ambiente, de ataque a comunidades indígenas, quilombolas e de ribeirinhos e de perseguição a ativistas ambientais, o que nos impõem um ritmo e desafios que transcendem aqueles enunciados pela agenda de organismos internacionais como a ONU.

Inúmeros estudiosos nacionais e internacionais têm argumentado e demonstrado inclusive por meio de consistentes dados, o erro e consequências danosas para países em particular e para o globo como um todo, da persistência em atividades econômicas orientadas por uma visão de curto prazo, voraz e muitas vezes criminosa na exploração de recursos naturais finitos e negacionista em relação ao que a ciência alerta sobre as gravíssimas consequências sobre o futuro da vida no planeta.

O caso do agronegócio no Brasil é eloquente disto. O estado do Mato Grosso, terceiro estado do país em extensão territorial (903.357 km²) que faz fronteira com Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Amazonas, Rondônia, Tocantins e com a Bolívia e cuja área corresponde a quase três vezes a da Itália, dez a de Portugal e o dobro da Espanha, é o maior produtor nacional de soja (35 milhões de toneladas) correspondendo a 26% da produção nacional, além de ser detentor do maior rebanho de gado do país (32 milhões de animais) e líder nacional na produção de milho, com 33 milhões de toneladas (dados da safra de 2020). Mas a esses números se associam outros que revelam graves desequilíbrios e destruição ambiental e social. Desmatamento, incêndios, alterações nos períodos de estiagem e de chuvas provocando secas e inundações se tornaram constantes na realidade do estado do Mato Grosso, e outros. Poderíamos também demonstrar indicadores sociais que evidenciam a vergonhosa desigualdade social num estado de riqueza afluente. Até o insuspeito jornal britânico Financial Times, em recente matéria, expôs a ideologia política que campeia nessas paragens e as contradições desse estado como exemplo de algo que ocorre em todo o Brasil.

Não é aceitável que as inúmeras e crescentes agressões ao meio ambiente sejam tratadas como “externalidades negativas necessárias”. Suas consequências no longo prazo, dada a sua insustentabilidade ambiental, econômica e social comprometerão as condições de vida das próximas gerações de brasileiros e de toda a humanidade.

Em oposição ao modelo predominantemente praticado pelo agronegócio brasileiro, há inúmeras pesquisas e demonstrações de viabilidade de outros modelos de agricultura, sustentáveis tanto no aspecto ambiental quanto econômico e social.

Um recente e inovador estudo desenvolvido por pesquisadores da Aalto University da Finlândia avaliou como a produção global de alimentos será afetada se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas.

No artigo “Climate change threatens one-third of global food production” publicado no último dia 14 de maio na prestigiosa revista One Earth e disponível no site da universidade são destacados aspectos do estudo que mostram que “as mudanças nas chuvas e na aridez, bem como no aquecimento do clima, são especialmente ameaçadoras para a produção de alimentos”, com variações da intensidade dos riscos sobre cada região do globo. A partir do conceito de “espaço climático seguro” o estudo estima que sem a interrupção do processo de aquecimento global um número significativo de países, majoritariamente do Hemisfério Sul sairão totalmente ou terão significativas extensões excluídas do chamado “espaço climático seguro” (Safe Climatic Space).

O pesquisador Matias Heino, um dos autores do mencionado estudo avalia que “o crescimento contínuo das emissões de gases de efeito estufa pode criar novas condições nas quais as atividades agrícola e pecuária simplesmente não terão tempo de se adaptar”. Heino também alerta que “Precisamos mitigar as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência de nossos sistemas alimentares e sociedades – não podemos deixar os vulneráveis para trás. A produção de alimentos deve ser sustentável”.

Com a recente mudança do governo norte-americano a volta do gigante do norte ao Acordo do Clima e a ênfase do discurso de Biden numa agenda ambiental sensível às mudanças climáticas e aos princípios de sustentabilidade recupera um espaço de negociações multilaterais internacionais que havia sido seriamente ameaçado pelo anômalo período ulterior.

No Brasil vivemos em estado de guerra, onde além do sofrimento causado pela pandemia do SARS-Cov 2 sofremos a ação de parasitas que em associação extraem as energias dos organismos que os hospedam, a natureza, a sociedade e o Estado brasileiros.

Estamos diante de uma situação que requer de todos os atores da sociedade civil ações que diuturnamente façam frente às investidas governamentais características de uma necropolítica que semeia morte e destruição. É necessário que, em oposição a essa política, multipliquem-se iniciativas e esforços para a integração do país entre aqueles que agem no presente com uma ética responsável em relação ao futuro.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pesquisador, escritor e professor universitário.

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