Bandeiras israelenses sob o céu de Viena?, por Yakov M. Rabkin

A preocupação internacional com os direitos humanos dos palestinos é pífia, apesar de décadas de opressão exposta aos olhos da comunidade internacional – que foi quem primeiramente criou esta situação.

Foto Sputnik Brasil

Bandeiras israelenses sob o céu de Viena?

por Yakov M. Rabkin

Tradução de Abel de Castro

O governo da Áustria hasteou bandeiras israelenses nos prédios oficiais de sua capital em sinal de solidariedade. Prima facie, isso parece refletir uma preocupação humanitária para com as vítimas civis da conflagração atual em Israel/Palestina. Surpreendentemente, o governo não hasteou bandeiras palestinas ao lado das israelenses, embora haja drasticamente menos mortes em Israel do que em Gaza, 10 contra 219 no momento da redação deste artigo.

As vítimas israelenses são aleatórias e não têm um perfil homogêneo. No entanto, a maioria dos palestinos em Gaza pertence a um grupo distinto: eles são refugiados e descendentes de refugiados. Alguns foram expulsos de suas casas em 1948, outros em 1967. Por que foram deslocados? Simplesmente porque são palestinos. Esta é a raiz da tragédia.

Quase 800 mil palestinos foram expulsos ou fugiram das hostilidades que levaram à declaração unilateral da independência de Israel em 1948. Alguns deles se estabeleceram em territórios palestinos controlados pela Jordânia, mas quando Israel os conquistou em 1967, eles se tornaram refugiados novamente. Não obstante a lei internacional e uma série de resoluções da ONU concernentes à esses refugiados, Israel os proíbe de voltar para suas casas. Mesmo os palestinos que fugiram de suas casas e se refugiaram em outra aldeia – ambas dentro das fronteiras de Israel de 1949 – foram proibidos de reclamar suas propriedades. As leis israelenses são muito claras sobre isso. Essa discriminação está na raiz da violência que assola a Terra Santa desde 1948.

O desequilíbrio entre as forças armadas de Israel e os heterogêneos grupos de resistência palestinos não é o único tipo de assimetria nesta situação. A preocupação internacional com os direitos humanos dos palestinos é pífia, apesar de décadas de opressão exposta aos olhos da comunidade internacional – que foi quem primeiramente criou esta situação. Em 1947, países fora da região[1] recomendaram na Assembleia Geral da ONU dividir a Palestina contra a vontade da maioria de seus habitantes e de todos os países vizinhos. Esta era uma receita para a violência crônica, como muitos, incluindo Hannah Arendt, haviam alertado.

Quando alguns dos foguetes primitivos não guiados made in Gaza” caíram em Tel Aviv (um deles a apenas um quarteirão de onde minha filha mora), os israelenses acordaram de um sono perigoso. Muitos deles viviam em uma bolha, desfrutando de praias, cafés e outras características de alto padrão de vida, enquanto a poucos minutos de carro 95% dos palestinos de Gaza, metade deles crianças, não têm acesso a água potável. A situação é semelhante a outros casos de colonialismo, como a África do Sul, e é lógico que as comparações do governo de Israel com o apartheid estão se tornando recorrentes tanto em Israel quanto em outros lugares.

Os pais fundadores sionistas foram claros ao chamar seu projeto de colonial. Eles declararam uma política chamada “hafrada”, separação. Quando aplicada, essa política privou os palestinos de trabalho pela primeira vez na década de 1920 e, mais tarde, quando os sionistas fundaram seu estado, privou centenas de milhares de palestinos de suas casas. A política de ganhar “um máximo de território com um mínimo de árabes” vem sendo seguida desde então. É essa política a raiz da conflagração atual.

Frequentemente, quando se focaliza um episódio atual específico, por mais trágico que seja, perde-se de vista o quadro geral. É importante ver a floresta por detrás das árvores, para então enxergar o que está por trás da violência recente. O estado de Israel foi fundado na injustiça, na limpeza étnica sistêmica e nos deslocamentos forçados. Algumas das vítimas destes mesmos mecanismos foram os judeus, quando foram expulsos de suas casas na Europa. Pogroms na Polônia e na Ucrânia, o estado nacional-socialista na Alemanha e na Áustria e variedades locais de fascismo na Europa Oriental causaram seu deslocamento. A maioria desses refugiados judeus tiveram direito a indenizações, verbas rescisórias e pedidos de desculpas. Nada disso é oferecido aos palestinos que vêm perdendo suas casas por uma questão de política oficial e escancarada por parte do estado sionista. Pode-se até dizer que os palestinos foram obrigados a pagar pelos pecados dos europeus, muitos dos quais apoiaram entusiasticamente o nazismo.

Hoje em dia, muitos europeus têm boas intenções quando oferecem apoio incondicional a Israel. Mas eles confundem os judeus com o estado de Israel, cuja ideologia fundamental e prática diária é a discriminação étnica, deslocamentos e expropriação. A ideologia sionista de Israel postula que o anti-semitismo é eterno e que apenas uma etnocracia ofereceria aos judeus um verdadeiro refúgio. Muitos judeus não compartilham esta ideologia e alguns se opõem a ela.

Mas a ideia de pureza étnica atrai vários europeus. Os políticos de direita admiram Israel, um estado militarizado com fortes divisões socioeconômicas e étnicas e uma economia avançada aberta para investimentos estrangeiros. O know-how de Israel em controle populacional e “contra insurgência”, adquirido em um século de conflito com os palestinos e outros árabes, foi integrado, ao lado do equipamento israelense, na guerra ocidental no Afeganistão, Iraque, Líbia e Mali, bem como nas operações de segurança interna. Não é à toa que Israel se tornou uma das queridinhas dos políticos de direita, incluindo os que estão atualmente no poder em Viena.

As bandeiras israelenses hasteadas nos edifícios oficiais da Áustria não são um sinal de preocupação para com as vítimas da limpeza étnica. Eles são acima de tudo um sinal de solidariedade com um país que muitos europeus de direita consideram um baluarte contra a alegada expansão muçulmana. Se o governo austríaco estivesse realmente preocupado com pessoas inocentes despejadas de suas casas com base em sua origem, teria apoiado os palestinos. No passado, a Áustria os apoiou quando o chanceler Bruno Kreisky, um judeu, que por princípios expressou sua oposição ao sionismo e não apenas às políticas agressivas que incorporam essa ideologia. Os políticos europeus de hoje fariam bem em tomar emprestado um pouco de sua coragem e acabar com a impunidade de Israel.

Yakov M. Rabkin é Professor Emérito de História na Université de Montréal.  Suas recentes obras são What is Modern Israel? (Plutão) e Demodernisation – the Future in the past. (Columbia U Press). Seu livro Au nom de la Torah: une histoire de l’opposition juive au sionisme, foi publicado em português com o título: “Judeus contra judeus: a história da oposição judaica ao sionismo” (Editora Acatu, 2009).


[1] Nota do tradutor: o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha (1894-1960) é reconhecido ter tido um papel fundamental para a repartição da Palestina Britânica. Uma praça em Jerusalém traz seu nome.  

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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3 comentários

  1. É preciso colocar na equação os judeus expulsos e expropriados de países árabes após 1948 e que nada tinham de sionistas e acabaram chegando a Israel como apátridas e se constituem atualmente como força oposicionista a qualquer acordo com os palestinos. Nada resta dos antigos sionistas provenientes do Leste europeu, onde grupos preconizavam a existência de dois estados, proposta refutada pelos países árabes seduzidos pela hipótese de jogar os judeus no mar . No entanto, é possível chegar a um acordo com os palestinos sem jogar Israel no mar . Provavelmente sim , existem forças em Israel desejosas de construir uma pauta comum que corrija injustiças praticadas contra os palestinos e ao menos reconheça as injustiças praticadas contra judeus em países árabes.

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