Bolsonaro pasta, seus cupinchas babam, invejando o delicioso capim, e nossos amigos planejam vender o Rio, por Sebastião Nunes

Continuo, pois, a saga de meus amigos mortos. Agora possuidores de um meio moderníssimo, em que podem acompanhar o que se passa nesta terra infeliz, começam a botar mais lenha na fogueira contra a estupidez.

Bolsonaro pasta, seus cupinchas babam, invejando o delicioso capim, e nossos amigos planejam vender o Rio de Janeiro

por Sebastião Nunes

Jair Messias se deliciava, havia mais de um mês, com deliciosa Brachiaria decumbens, forrageira de alto teor nutricional e ricamente palatável. Não queria outra vida. Abanava o rabo, espantava carapanãs (sim, tem carapanã no Paraíso), sacudia as orelhas expulsando micuins (também tem) e pouco ligava se o pau comia na República das Milícias-e-Afins. Queria mesmo era pastar em paz.

Durante tenebroso (embora curto) período, estive ausente do GGN, não por falta de assunto, mas exatamente pelo contrário: tinha assunto demais. Continua existindo assunto demais, mas ainda assim retorno, para colocar meus grãos de areia dominicais na montanha que, em breve, soterrará Bolsonaro e seus cúmplices, deixando o país livre da tragédia que nos rebaixa, humilha e envergonha diante do mundo e de nós mesmos.

Nesse entretempo, meus amigos conseguiram – não imagino como – um belo telão futurista, no qual passaram a acompanhar os acontecimentos. Mas um telão para lá de moderníssimo, pois bastava pensar e imediatamente acessar qualquer coisa. Ou seja: se você pensava numa ocorrência, atual ou antiga, lá estava ela, vivíssima, diante de seus olhos. Se pensava numa cidade grande ou numa bela praia-antes-do-lixo-que-veio-não-se-sabe-de-onde, ei-las diante de você, com a algazarra das metrópoles ou a calma das praias impolutas. Com a vantagem de que a captação audiovisual era instantânea e, embora o telão fosse apenas um, cada telãovidente via e ouvia independentemente dos outros. Sim, era uma coisa de louco.

– Não consigo entender porque o povo brasileiro se deixa massacrar desse jeito – disse Otávio Ramos, revendo no telão o mais recente massacre policial no Rio. No meu tempo…

– Esquece o seu tempo – interrompeu Sérgio Sant’Anna, que estava captando um hospital de campanha carioca. – Estamos diante de um tremendo genocídio e temos de fazer alguma coisa.

– Fazer o quê? – indagou Luís Gonzaga Vieira, acompanhando um velho debate em Paris, entre Sartre, Camus e Arthur Koestler a respeito do genocídio estalinista. – Isolados aqui em cima, junto a este maravilhoso Pomar-biblioteca-de-livros-frutas, tudo o que podemos fazer é pensar, discutir e acompanhar a matança.

ADÃO VENTURA PROPÕE UM ABSURDO

– Que tal vender o Rio de Janeiro? – sugeriu o poeta Adão, metendo sua colher de pau na conversa, como se propusesse uma viagem à Lua. – Se o estado fosse vendido inteirinho, não seria uma boa solução?

– Não entendi – confessou Manoel Lobato. – Vender o quê e como?

– Calma com o andor – interpôs Sérgio. – Nasci no Rio, gosto da cidade, acho que é a região mais bonita do país inteiro e uma das mais bonitas do mundo…

– Mas você foi dos primeiros a morrer de Covid – dessa vez quem interrompeu foi Sancho Pança, que era gordo, mas não era bobo. – Morreu num domingo, poucos dias depois de ser internado.

– Lembro como se fosse hoje – meteu o bico Vieira. – Lembro tão bem porque morri no domingo seguinte. Complicações de Parkinson.

– Foi um mês trágico para nós – acrescentou Lobato. – Morri no mesmo mês, de Alzheimer, ou coisa parecida. Minha memória estava zerada. Ou quase.

– Tá bom, tá bom – irritou-se Sérgio. – A ideia idiota do Adão é vender o estado do Rio. É uma ideia maluca, mas não custa imaginar. Por que, para quem e por quanto vender, hein, seu sabichão?

– Sei lá – resmungou Adão. – Só imaginei como seria maravilhoso o Brasil ficar livre de tanto canalha. Talvez até a gente se tornasse um país sério.

APROFUNDANDO A QUESTÃO

– Se é questão de imaginação, imaginemos – alavancou Sérgio, que era fanático por qualquer boa proposta patafísica. – Aqui, diante do Portão do Paraíso, sentados em poltronas de nuvens, longe do tempo e do espaço (que não existem), será bem divertido discutir, como, quando, por que e – objetivamente – o que ganharemos com isso.

O que perturbava um pouco a tranquilidade dos amigos e, em consequência, seu aprofundamento no assunto, era a presença nefasta do genocida Bolsonaro que, embora transformado em quadrúpede ruminante, não deixava de ser um estorvo.

Como também se comunicavam telepaticamente, todos se voltaram para Jair Messias, que pastava, abanava o rabo e sacudia as compridas orelhas. Estaria ouvindo o que conversavam os amigos?

– Tenho uma solução – disse Lobato, com um sorriso maroto. – É só cortar as orelhas dele, entupir os buracos com capim…

– Deixa de ser ruim, Lobato – recriminou Otávio, o defunto mais antigo da turma e, hierarquicamente falando, o espírito superior. – Não podemos ser tão ruins quanto Bolsonaro. Deixa a besta pra lá e vamos ao que interessa.

(No próximo capítulo, a proposta avança.)

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