Esquenta a discussão: não é fácil se livrar do Rio de Janeiro!, por Sebastião Nunes

Continuam meus amigos mortos as tratativas para vender, trocar ou arrendar (por no mínimo 500 anos) o Rio de Janeiro, porém estão empacados no valor do Pão de Açúcar, uma das joias da paisagem carioca. Enquanto isso, Jair Messias continua pastando, dependurado pelo rabo.

Esquenta a discussão: não é fácil se livrar do Rio de Janeiro!

por Sebastião Nunes

– Parem com isso! Deixem de ser idiotas! Vocês não entenderam nada! – esbravejou Sérgio Sant’Anna, um cara até que tranquilo, com certa tendência natural para evitar atritos, exceto os inevitáveis. Mas, desta vez, perdeu as estribeiras.

Assustados, meus amigos mortos ficaram em silêncio, a maneira humana de empacar, atitude reservada a quadrúpedes ruminantes tipo Jair Messias que, pendurado de cabeça para baixo, continuava a sacudir as orelhas, abanar o rabo e, placidamente, mascar tufos de capim. Como se genocídio não fosse com ele.

– Vamos começar de novo – disse Sérgio, didaticamente. – A ideia é vender, permutar ou arrendar o Pão de açúcar, mas nunca, jamais, devemos esquecer o objetivo principal: nos libertar dos canalhas que infestam cada canto do Brasil.

– Muito bem. E daí? – atreveu-se a murmurar Otávio Ramos.

– Daí que ao oferecer o Pão de Açúcar temos de fazer o que os publicitários chamam de oferta casada, ou seja: compra 1, leva 2.

– Acho que pesquei – disse Adão Ventura. – Compra uma coisa boa e leva junto alguma coisa ruim.

– Exa-ta-men-te! – alegrou-se Sérgio. – Agora vamos pensar juntos. Oferecemos o Pão de Açúcar… e o quê mais no pacote?

– Ainda tenho uma dúvida – reverteu Manoel Lobato. – Vamos supor que a França decida comprar o Pão de Açúcar, mas não queira nenhum penduricalho. O que faremos nesse caso?

– A resposta é óbvia – rebateu Sérgio. – Nesse caso não faremos a venda. Sem a contrapartida da coisa ruim, nada feito.

AVANÇANDO ÀS APALPADELAS

Era como se estivessem no escuro. O pontapé inicial estava dado. Vender o Pão de Açúcar, ok. Mas, como argumentara Sérgio, faltava o penduricalho ruim.

– Que acham de casar o Pão de Açúcar com o ex-governador Sérgio Cabral? – sugeriu Luís Gonzaga Vieira, o ex-seminarista e filósofo neoexistencialista.

– Ah, ah, ah, ah, ah, ah – riram desbragadamente Sancho Pança, Jimi Hendrix e Janis Joplin, que não tinham a menor ideia de quem fosse esse tal Cabral. Mesmo assim, achavam um penduricalho desprezível.

– Nem se fosse o Pedro Álvares Cabral redivivo – discordou Sérgio, com ênfase e empáfia. – Uma montanha imortal, modelada pela natureza durante milhões de anos, numa venda casada com um sujeitinho escroto que nem esse? Pensa grande, cara!

Bem acomodados em poltronas de nada, os amigos mortos enfiaram o cotovelo na coxa e a mão no queixo, pensando grande, tal e qual O Pensador, de Rodin.

Nesse grandioso pensar escoaram séculos da eternidade, menos de um segundo na terra. Até que, sofrendo de repentino e portentoso insight, Otávio Ramos altissonou (à maneira de Joyce e Rosa):

– Que tal agregar todos os presídios do Rio, incluindo presos, carcereiros, policiais de serviço e/ou licença, armas e munições, além de toda a maconha, cocaína e crack usadas e por usar durante os últimos 100 anos?

– Nem pensar – nem piscou Sérgio. – Que é que você tem contra os presos, ali amontoados como, desculpem, sardinha em lata? Em que são eles piores do que os soltos, aqueles que deambulam diuturnamente para lá e para cá, fazendo nada, furtando na mão-boba, roubando às escondidas, traficando nas coberturas, estrangulando pais e mães por heranças, assassinando mulheres e/ou maridos por ciúme? Hein, em quê?

AVANÇANDO COMO LESMAS

– Tive uma ideia – avançou destemido Lobato, coçando a alva calva. – E se, em vez de presos, fossem agregados todos os juízes de todos os tribunais e instâncias, desde a cidade do Rio até a Ilha das Cobras, a Ilha solteira, a Baixada Fluminense, as cidades da região dos lagos, as cidades das regiões de desova, as cidades sob controle da polícia, das milícias, do tráfico de influência, enfim, todos os juízes, inclusive os aposentados?

– Não é má ideia – aprovou Sérgio. – Mas ainda me parece pouco. Nosso Pão de açúcar vale mais que um bando de juízes venais, com perdão dos raros, dos raríssimos, que porventura fizeram do cumprimento das leis sua virtude.

– E se – atreveu-se a acrescentar o renitente Lobato –, aos juízes atuantes atuais fossem incorporados todos os magistrados desde que Dão João VI no Rio se homiziou, fugido da fúria napoleônica, transformando a catita e modorrenta cidadezinha num antro de canalhas, ladrões, rufiões, canastrões, proxenetas, usurários e trambiqueiros?

 – Ainda parece pouco – insistiu Sérgio. – Reparem no Pão de Açúcar. Reparem na altivez com que se perpetua à beira-mar, amarelo de vergonha, vermelho de raiva, azul de desesperança, violeta de tristeza e multicolorido de raiva. Como vender, permutar ou arrendar, ainda que por 500 anos, joia tão catita e tão altaneira, mesmo que desanimada pelo mais profundo desânimo?

Quedaram silentes, e pensativos, meus grandes e íntimos amigos mortos.

(No próximo capítulo: tropeçando na canalhice.)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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