Golpes e contragolpes, por Aracy P. S. Balbani

A execução do golpe corre bem, até que o impostor dá o contragolpe na família gananciosa. Ele dita ao tabelião que a parte mais valiosa da herança vai ficar para... o próprio trapaceiro, Gianni Schicchi. A fraude se consuma. Com cartório, com tudo

Golpes e contragolpes

por Aracy P. S. Balbani

A ressaca cívica do Sete de Setembro continua amarga. O tríduo fascista, que acabou na quinta-feira 09/09 sob a missiva “Declaração à Nação”, resultou num cadáver (o da República), numa ressurreição (a do Período Mesoclítico da política nacional, personificado pelo escriba Michel Temer) e numa obsessão (viabilizar, a qualquer custo, uma terceira via para a eleição presidencial).

Em meio às lutas intestinas pelo poder no país, segue a resistência dos brasileiros que defendem a vida e a verdade. A oitiva de Marconny Albernaz de Faria, apontado como pessoa de laços fortes com a família Bolsonaro e lobista junto ao Ministério da Saúde, está agendada na CPI da COVID-19 para o próximo dia 15. Esse depoimento aos parlamentares é muito aguardado pela sociedade, enlutada diante das cerca de 600.000 vítimas fatais da pandemia no Brasil.

Também a ópera bufa Gianni Schicchi, de Giacomo Puccini e Giovacchino Forzano, está para ser encenada em São Paulo no dia 15. Numa incrível coincidência, a ópera estreou em 1918, ano de outra pandemia de gripe.

Inspirado num canto do Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri, o libreto (enredo da ópera) se passa na Florença medieval. O defunto fresco de Buoso Donati, magnata da farinha de trigo, é pranteado com lágrimas de crocodilo pelos parentes, todos de olho na herança. Porém, o testamento é encontrado, e a família descobre que o finado havia deixado sua fortuna para os frades. Na língua do povo: os religiosos herdaram; os parentes micaram. Então, o pranto se torna sincero.

Mais que depressa, a família firma um pacto de silêncio, para que a notícia do falecimento não saia daquela casa. Arma um esquema com o forasteiro espertalhão Gianni Schicchi, sósia do morto. Esconde o cadáver e pede que Schicchi se passe pelo falecido para registrar no cartório um testamento falso que divida a herança entre os parentes. A operação é arriscada, pois a pena para o criminoso e os cúmplices por falsificação de documentos na Florença da época era a amputação da mão direita e o banimento perpétuo da cidade.

A execução do golpe corre bem, até que o impostor dá o contragolpe na família gananciosa. Ele dita ao tabelião que a parte mais valiosa da herança vai ficar para… o próprio trapaceiro, Gianni Schicchi. A fraude se consuma. Com cartório, com tudo.

Revoltados, mas de rabo preso, portanto impossibilitados de denunciar o golpista às autoridades para não serem punidos também, os parentes do ricaço saqueiam os bens do impostor para se vingarem. Afinal, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Ou o poeta Dante estava certo já há mais de 700 anos, e ladrões e embusteiros vão mesmo todos para o inferno?

 Evidentemente, qualquer semelhança entre o enredo da ópera cômica e a disputa desleal, na vida real, pelo espólio do poder – político ou econômico – seria pura coincidência.

Mas ninguém duvide que fascistas supersticiosos, acostumados a aprontar traquinagens milionárias nada republicanas em família, interpretem a história fictícia sobre os herdeiros do magnata florentino como um alerta do Além sobre o destino que os espera. No fundo, eles sabem que a esperteza costuma engolir os espertos. A ocasião faz o espertalhão. Sempre há um Gianni Schicchi, o venerável amigo da onça, à espreita em cada esquina. Depois do contragolpe, não adianta querer reclamar para o bispo.

Por maior que seja a superstição, pelo menos não estamos na Florença medieval. Em tese, ninguém que entrou de cabeça no inacreditável Sete de Setembro golpista seria delatado e ficaria maneta. Supondo a unanimidade entre as facções das milícias, bem entendido.

Na realidade, é como se diz: vida que segue.

Aracy P. S. Balbani é médica, brasileira, paulistana, solteira, heterossexual, cristã com profundo respeito por todas as crenças, defensora do Estado laico, não filiada a nenhum partido político ou sindicato, nem integrante de entidade feminista, empresarial ou organização não governamental.

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