João Saldanha: Cem anos, sem medo, por Cesar Oliveira

Cesar Oliveira estreia sua coluna Gol de Letras, com João Saldanha como primeiro personagem. Show de bola!

COLUNA GOL DE LETRAS

João Saldanha: Cem anos, sem medo, por Cesar Oliveira

“O presidente e eu temos muito em comum. Somos gaúchos, somos gremistas, gostamos de futebol. Mas eu não escalo o ministério, nem o presidente escala time”

João respondendo à proposta do ditador Garrastazu Médici, de convocar o centroavante Dario para a Seleção Brasileira.

“Meus amigos…” — era assim que João Saldanha começava os seus comentários, no rádio e na tevê, e nas crônicas que escreveu, durante décadas, com imenso sucesso.  

Garoto ainda, eu ia ao Maracanã assistir os jogos do Botafogo, ao lado do meu velho pai. Ele me ensinou a torcer pelo Botafogo mas, também, a ser “olímpico”, respeitando as vitórias do adversário, quando ele nos era superior.

Papai e eu vivemos bons momentos juntos, debaixo daquela marquise sensacional, internacionalmente incensada pelo estupendo balanço criado pelos arquitetos do outrora “Maior do Mundo”, que a corrupção e a safadeza destruíram. Não apenas a marquise, mas também o “Maior do Mundo”, hoje um triste espectro do que Mario Filho sonhou.

Naquele tempo, era comum o uso do radinho de pilha por muitos torcedores, que gostavam de ouvir as narrações de Waldir Amaral e Jorge Cury, e os comentários de João Saldanha.

Além da primeira e inesquecível entrada pelo túnel que dava acesso aos torcedores, dos anéis externos às arquibancadas (o céu aparecendo aos poucos, depois a marquise e, finalmente, aquele imenso gramado verde), ficou na minha memória ouvir os comentários do João no eco da marquise. Eram tantos os radinhos de pilha ouvindo o que Saldanha dizia sobre os jogos, que muitos não precisavam de radinhos.

Era ele preciso e muito inteligente. E, ao contrário do que Pelé vai dizer no documentário a ser brevemente lançado pela Amazon Prime, João entendia — e muito — de futebol. Tudo o que se sabe dele é amplamente divulgado e comentado por seus admiradores, entre os quais me incluo. Ele é, ainda hoje, o meu ídolo no futebol, fora dos gramados; dentro, é Gérson, o Canhotinha de Ouro (porque Mané Garrincha, obviamente, é hors-concours).

João suscitou sempre muita admiração e alguma inveja. Mas ele tomava como filosofia de vida uma expressão que se tornou sinônima dele: “Vida que segue”.

O que sempre me impressionou em Saldanha foi sua capacidade de enxergar longe, muito anos à frente de todos, o que o futebol brasileiro seria. A lista é grande e impressionante, principalmente para quem disse isso há mais de meio século. Vamos a ela:

  1. Limite máximo de 52 jogos por anos
  2. Um mês de férias para os jogadores
  3. Obrigatoriedade de os clubes terem um médico clínico geral na comissão técnica
  4. Dois check-ups anuais, obrigatórios, para cada atleta
  5. Exame antidoping em todos os jogos
  6. Controle científico para evitar a proliferação dos “gatos” nas divisões de base
  7. Medidas para evitar o assédio sexual de treinadores sobre jovens atletas
  8. Revisão do Lei do Passe
  9. Proibição de “contratos de gaveta” (feitos pelos clubes com os jovens atletas na base)
  10. Regulamentação de tributação do atleta profissional
  11. Proibição de patrocínio na Seleção Brasileira
  12. Criação de mais espaços e campos para a prática do futebol nas grandes cidades
  13. Regulamentação da prática esportiva e alimentação nas escolas
  14. Seguro de acidentes no trabalho para todos os jogadores
  15. Estimular tetos para evitar multas abusivas sobre os atletas (era comum que atletas supostamente infratores recebessem altas multas sobre o salário)
  16. Proibir a gratificação (“bicho”) para jogadores e funcionários dos clubes
  17. Criação de uma comissão médica federal para supervisionar os departamentos dos clubes profissionais

Fico pasmo que algumas pessoas ainda contestem João, dizendo-o um “viajandão”, um mentiroso que ele nunca foi. Na verdade, era um sujeito viajado, que ia a qualquer lugar do mundo onde houvesse um jogo importante para ver, um time jogando diferente para observar. Pega-se o jeitão gaúcho dele, de não aturar desaforo, para tentar desmerecê-lo. Sem sucesso, porque João é eterno. E seus detratores somem na poeira da História.

Quando foi indicado para técnico da Seleção Brasileira, em 1969 (ele nunca entendeu o motivo de a Ditadura permitir que um comunista, confesso e militante, fosse técnico da Seleção Brasileira), João pegou seu amigo Adolfo Millman, o Russo (argentino naturalizado brasileiro, ex-atacante do Fluminense e um dos únicos cinco jogadores estrangeiros a jogar no escrete canarinho) e viajou para a Europa, para adquirir material esportivo de qualidade para a Seleção jogar a Copa do México. Ao invés de camisas e chuteiras pesadas, material leve e arejado; ao invés de meias que se prendiam com cadarços, abaixo dos joelhos, prendendo a circulação das pernas, meias elásticas. Tudo o que ele comprou lá, foi usado pela Seleção tricampeã na Copa de 1970.

Foi dele também a ideia de utilizar os estudos do Professor Lamartine Pereira da Costa[1], que desenvolvia estudos de preparação física para esporte na altitude, colaborando de maneira fundamental e decisiva para que a equipe brasileira “voasse” nos campos mexicanos, amassando os rivais que desmoronavam de calor e pelas consequências da altitude. Mesmo substituído levianamente na condução do escrete, as ideias de João foram tricampeãs, com sobras, no México.

Como editor de livros de futebol e admirador do João Sem Medo, tive a oportunidade e o prazer de homenageá-lo com a edição de dois livros:

  1. “Quem derrubou João Saldanha”, de Carlos Ferreira Vilarinho (2010)[2], colocando em pratos limpos todos os detalhes da campanha de fritura e demissão, depois que ele classificou a Seleção para a Copa de 1970.
  2. “As 100 melhores crônicas comentadas de João Saldanha” (2017)[3], com pesquisa e seleção das crônicas por Alexandre Mesquita, e comentários de Alexandre, Marcelo Guimarães e deste editor. O livro foi lançado em comemoração ao centenário de nascimento do João. E mereceu um evento na ABI — Associação Brasileira de Imprensa (“Um dia com João Saldanha”[4]), dentro da semana “Cem anos, sem medo”, organizado por mim junto com os queridos parceiros Victor Andrade de Melo (professor e historiador, coordenador do Sport — Laboratório de História do Esporte e do Lazer[5]) e Eraldo Leite (radialista das rádios Globo/CBN e presidente da ACERJ — Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro).

Há muitos outros livros do João e sobre o João, que vale a pena ler (uma pesquisa rápida no Google resolve isso, facilmente).

Conhecer o pensamento dele sobre o futebol em geral, e sobre o futebol brasileiro, em particular, é fundamental para entender como a bola rola aqui e lá fora.

E vida que segue…

Cesar Oliveira

Cesar Oliveira, quase 70, carioca, botafoguense e mangueirense. Editor de livros, preferencialmente de futebol, desde 2008. Saiba mais nas redes sociais: @livrosdefutebol

[1] Para saber mais sobre o Prof. Lamartine Pereira da Costa: https://bit.ly/3E3PaAu

[2] Para comprar este livro: (21)988-592-908 (com a editora, últimos exemplares disponíveis)

[3] Para comprar este livro: https://bit.ly/3B7EleG

[4] Para saber mais sobre o evento: https://bit.ly/2Z9Mbr2

[5] Conheça em: https://historiasport.wordpress.com/

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6 Comentários

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Jacob Binsztok

- 2021-10-23 22:49:09

Concordo plenamente.

Jacob Binsztok

- 2021-10-23 22:46:35

Concordo plenamente , se macumba ganhasse campeonato,campeonato baiano terminava empatado. Uma das máximas de João Saldanha.

Cesar

- 2021-10-23 20:12:43

Valeu. Cacá! Abração e saudades!

Cesar

- 2021-10-23 20:12:07

Com certeza, Odonir! Foram momentos muito bons! No Brasil e no futebol. E esses tempos vão voltar quando o obscurantismo for debelado. Fica com Deus!

ODONIR ARAUJO DE OLIVEIRA

- 2021-10-23 10:59:44

Temos quase a mesma idade. Sou menina, filha de pai botafoguense e cresci acompanhando o João. Eu e a Elis, que em 1970 escolheu dar o nome de JOÃO, ao seu primogênito João Marcelo, em homenagem ao Saldanha. Que bom ter vivido esse tempo!

peixoto Carlos Alberto Rangel

- 2021-10-23 10:49:15

Muito boa coluna. Parabéns. Vc sabe se é de autoria do João a máxima que diz que “ uma feijoada só é completa quando tem uma ambulância de plantão “?

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