Lava Jato: a embriaguez acabou ou foi renovada no início da ressaca?, por Fábio de O. Ribeiro

A Lava Jato tem também o demérito de ter exposto linhas de tensão e fraturas regionais que podem comprometer a própria existência da federação brasileira.

Lava Jato: a embriaguez acabou ou foi renovada no início da ressaca?

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem o STF formou ampla maioria acerca da impossibilidade do pleno não ter poder para revogar a decisão da turma que decretou a nulidade dos processos criminais de Lula conduzidos por Sérgio Moro. O efeito da consolidação da suspeição do juiz que julgou o ex-presidente petista é processualmente devastador. Tudo que Moro fez terá que ser refeito.

Juristas como Lenio Streck comemoraram a restauração do Estado Democrático de Direito. A verdade é que ninguém pode dizer que o copo está meio cheio quando ele foi estraçalhado e dificilmente poderá ser remendado.

O efeito do método lavajateiro apoiado pela imprensa não foi apenas juridicamente devastador. Ele desorganizou e destruiu a economia brasileira, fazendo nosso país regredir da posição de 6ª à de 14ª maior economia do planeta. A Lava Jato tem também o demérito de ter exposto linhas de tensão e fraturas regionais que podem comprometer a própria existência da federação brasileira.

Derrotado pela maioria, o maior defensor da Lava Jato (ele mesmo suspeito de ser um “caneta” do clã Marinho na Suprema Corte em razão de ser dono do escritório de advocacia que defende a Rede Globo) usou o julgamento para embriagar o “respeitável público” com uma versão positiva da operação que destroçou nossa economia e comprometeu o futuro da federação brasileira. 

Barroso é um garçom. O absinto que ele serviu aos ouvintes é poderoso, pois reforça o poder tóxico do discurso inebriante destilado nas redações dos principais veículos de comunicação do país. 

Nas asas da “fada verde” é possível esquecer a realidade. O absinto era a bebida predileta dos escritores europeus que desejavam esquecer a opressão cotidiana para emergir num mundo idealizado em que seria possível reconstruir a sociedade através da poesia e do romance. O mundo artificial que eles criaram foi estilhaçado e estraçalhado pela I Guerra Mundial.

Em razão do fanatismo político desencadeado pela Lava Jato (e reforçado pelo Ministro Luis Barroso no seu voto em 22/04/2021) , os Estados da região sul mergulharam profundamente na retórica bolsonarista e voltaram a sonhar com o separatismo. Privados de uma grande parcela da renda do petróleo, Rio de Janeiro e Espírito Santo afundam na criminalidade. 

A região Amazônica foi invadida por saqueadores com mentalidade do século XVI usando equipamentos sofisticados do século XXI. Agredido retórica e orçamentariamente  por Bolsonaro, o nordeste optou por fortalecer sua unidade regional. Mas essa união é interpretada como uma espécie de consolidação da independência em relação à Federação. 

São Paulo e Minas Gerais parecem condenados a reeditar a república do café com leite. Todavia, me parece evidente que esses dois estados não estão mais em condições de se tornar um centro gravitacional em torno do qual as outras regiões irão gravitar como se fossem satélites.  O aprofundamento das fraturas regionais deixará os estados graneleiros expostos às chantagens das unidades federativas litorâneas, algo que pode levar os gananciosos ruralistas a imaginar se não seria melhor escoar sua produção através do Oceano Pacífico.

O português é uma fonte de coesão cultural, mas é evidente que os brasileiros já não falam a mesma língua. Isso fica evidente se levarmos em conta o longo e melancólico voto do Ministro Luís Barroso. Ele usou o STF como um palanque da Lava Jato tentando restabelecer a imagem heroica do juiz que devastou a economia brasileira. Nada do que ele disse tinha relevância para o julgamento do processo. 

A restauração do Estado Democrático de Direito é um sonho. Mas a verdade é que os juristas não podem reconstruir sozinhos um Estado que parece estar mais prestes a explodir do que a recuperar sua coesão política e coerência econômica. 

Não importa o que a imprensa diga hoje, Sérgio Moro finalmente recuperou o tamanho que realmente tinha. Todavia, ele não teria conseguido devastar o país inteiro se não tivesse sido ajudado pelo TRF-4, pelo STF e por uma maioria transitória no STF. Os jornalistas o elevaram à condição de herói, mas a verdade é que ele foi o coveiro do sistema constitucional criado em 1988. 

O que restou da Constituição Cidadã após 7 anos de retórica lavajateira, 2 anos de bestialidade bolsonarista e 1 de genocídio pandêmico será suficiente para impedir a fragmentação territorial do Brasil? É simplesmente impossível responder essa pergunta sem cometer algum equívoco.  

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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