Mais e mais bolsonaristas ganharão sepulturas, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Mais e mais bolsonaristas ganharão sepulturas

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Em seu livro Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, Sigmund Freud fornece uma valiosa ferramenta para a interpretação dos discursos em geral e dos discursos políticos em particular. Diz o mestre vienense:

“Também os determinantes mais sutis do modo de se exprimirem os pensamentos na conversa ou na escrita são dignos de cuidadosa observação. Frequentemente acreditamos que podemos escolher em que palavras queremos vestir nossos pensamentos ou através de que composição gostaríamos de os transmitir. Uma investigação mais detalhada  demonstra que há outras considerações que decidem sobre essa escolha e que existe um sentido mais profundo ou não intencional e que se imiscui na forma do pensamento. As composições e as maneiras de falar das quais uma pessoa preferencialmente se utiliza, segundo seu julgamento na maioria das vezes não são equivalentes, e outros frequentemente fazem referência a algum tema que se mantém em segundo plano no momento, mas que produziu poderoso efeito sobre o falante.” (Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, Sigmund Freud, Lafonte, São Paulo, 2014, p. 225)

Ao tomar conhecimento da decisão do STF impondo ao presidente do Senado o cumprimento de sua obrigação de instalar a CPI requerida pelo número adequado de senadores, o presidente Bolsonaro atacou o Ministro Luís Barroso: “falta-lhe coragem moral e sobra-lhe imprópria militância política”.

As escolhas feitas por Bolsonaro são evidentes. Ele fez um ataque à pessoa do Ministro Luís Barroso. Acusando-o de ter proferido uma decisão política e imoral, Bolsonaro sugere que a decisão não tem valor jurídico em virtude de ter sido proferida por um juiz suspeito.

O tema da suspeição foi deixado em segundo plano. Outra coisa deixada em segundo plano é uma suposta obrigação do Ministro de proferir apenas decisões que agradem o presidente da república (caso em que, a suspeição seria evidente e também comprometeria a validade jurídica do que foi decidido).

Em outra oportunidade, Bolsonaro disse “Eu sou a constituição”. O ataque que ele fez ao Ministro Luís Barroso parece ser uma reiteração dessa mesma ideia com palavras diferentes. 

O STF é o guardião da constituição e a interpreta em última instância. Se a constituição é a vontade de Bolsonaro, segue-se que nenhuma decisão rejeitada por ele não tem qualquer valor jurídico.

Há aqui uma pista do universo psicológico em que o presidente habita. Aquele em que ele pretende confinar os Ministros do STF e, por consequência, todos os cidadãos brasileiros. Ele só acredita numa coisa: na sujeição. Quem se recusar a fazer parte de seu culto de personalidade é automaticamente taxado de covarde ou de militante político.

Não há qualquer espaço para a existência da democracia na consciência de Bolsonaro. Ele projeta seu desejo de exercitar um poder absoluto sempre que enuncia qualquer coisa. Nesse sentido, podemos dizer que o presidente brasileiro tem um perfil psicológico semelhante ao de Adolf Hitler. 

A diferença fica por conta da incapacidade de Bolsonaro de desencadear o espetáculo de crescimento econômico e de inclusão social que ocorreu na Alemanha nos anos 1930. O sucesso do nazismo desviou a atenção da população e a domesticou até o ponto em que a maioria dos alemães se tornou incapaz de ver os sinais macabros do regime que estava sendo construído.

O bolsonarismo fez o Brasil regredir à posição de 15a. economia mundial. Não há nenhum sinal consistente de recuperação à vista. O isolamento diplomático do nosso país, causado pela destruição da floresta amazônica estimulada pela presidência, não será rompido enquanto Bolsonaro for presidente. Ele já causou a morte de 350 mil brasileiros. Se o genocídio não for freado, em breve milhões de pessoas estarão mortas.

Acuado como uma fera em seu bunker, Hitler cometeu suicídio para não ser exibido como um troféu em Moscou. Isolado no Palácio do Planalto e contando apenas com o apoio de um pequeno bando de fanáticos, Bolsonaro pode acabar fazendo a mesma coisa ao perceber que será deposto e/ou preso em virtude das investigações e conclusões da CPI do genocídio. 
As Forças Armadas decidiram não escolher um lado nessa disputa entre Bolsonaro e o STF. O silêncio dos militares funciona como uma aquiescência respeitosa à liminar que foi proferida pelo Ministro Luís Barroso e que provavelmente será confirmada na próxima quarta-feira.

No corpo da decisão está a prova da coragem moral do Ministro Luís Barroso. Ele apenas e tão somente se curvou à jurisprudência dominante no STF acerca da matéria. Isso obviamente não interessa ao presidente da república, pois diante de si mesmo ele é a única pessoa capaz de decidir o que é ou não constitucionalmente aceitável.

O carnaval que os militantes bolsonaristas fizeram nas ruas de algumas cidades hoje era previsível. O único resultado plausível desta marcha da família em favor da ditadura, da tortura e dos assassinatos políticos será a propagação da pandemia entre os seguidores fanáticos do presidente. 

Em duas semanas alguns deles estarão mortos. Os corpos deles serão enterrados sem qualquer cerimônia. Bolsonaro provavelmente nem mesmo tomará conhecimento das vidas que sacrificou para tentar intimidar o STF. Isso também é um fato relevante que merece ser investigado pela CPI do genocídio. 

Muitos dos militantes que foram às ruas hoje dizem que estão dispostos a morrer por Bolsonaro. O que eles não dizem é que a morte deles será absolutamente irrelevante. Um fato banal incapaz de modificar a realidade política brasileira.

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