Para Bolsonaro e Moro hoje é o primeiro dia do fim do mundo, por Ion de Andrade

A direita tradicional pensava talvez na repetição das eleições do Rio de Janeiro onde a defesa da civilidade levou o voto da esquerda para ela. Mas isso não ocorrerá nas presidenciais.

Reprodução TV Globo

Para Bolsonaro e Moro hoje é o primeiro dia do fim do mundo

por Ion de Andrade

Parece que vivemos um cenário de realidade aumentada, Matrix. Vereditos que na história costumam condenar autoridades postumamente, décadas depois de falecidas, estão vindo à tona numa velocidade surpreendente.

É o caso de Sérgio Moro, tornado oficialmente suspeito apenas um par de anos depois de condenar e prender Lula, dias de glória bem fugazes… Essa rapidez entre causas e consequências talvez se deva à velocidade com que as opiniões e os consenso são formados em tempos de Redes Sociais capilarizadas.

Moro

A confirmação da suspeição de Sérgio Moro é para ele e para os demais da Lava Jato aquela má notícia que anuncia outras muito piores.

Ilustram esse primeiro dia do fim do mundo de Sérgio Moro as palavras do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Diz ele:

“É necessário agora que sejam investigados os motivos de tamanho ataque à Justiça, à democracia, ações que parecem revelar toda uma faceta criminosa que merece investigação por parte da PGR e, possivelmente, uma necessária condenação, mas a ser proferida por um juiz imparcial, correto e justo. A Constituição da República é o nosso norte. E serve a todos. Vamos ser rigorosos e garantir ao bando de Curitiba todos os direitos que eles sempre desprezaram. Inclusive a prisão só após o trânsito em julgado.”

Penso que as noites dessa gente serão preenchidas de um sono bem agitado e por muito tempo.

Bolsonaro

A suspeição de Moro põe em definitivo Lula na disputa presidencial, de certeza no segundo turno, se não se eleger no primeiro.

O que significa isso?

Que só haverá um candidato de direita no segundo turno, e não dois, como a direita tradicional e o próprio Bolsonaro talvez tenham imaginado no cenário idílico sem Lula.

A direita tradicional pensava talvez na repetição das eleições do Rio de Janeiro onde a defesa da civilidade levou o voto da esquerda para ela. Mas isso não ocorrerá nas presidenciais.

E o que resta então à direita tradicional? Bater em Lula? Requentar escândalos midiáticos passados? Lula sobreviveu (e heroicamente) a uma prova de fogo que tem magnitude para ser comparada aos doze trabalhos de Hércules.

Essa gente sabe e muito bem que agora, quanto mais batam em Lula; num Brasil desolado pelo trio Bolsonaro/Guedes/Salles, empobrecido, cheio de pedintes e miseráveis nas ruas, cheio de famílias infelicitadas pela morte, cheio de desempregados e de novos pobres; mais ele crescerá.

O mais provável é que a estratégia da direita em relação a Lula venha a ser a do silêncio. Não citá-lo, não repercutir o que diga, minimizar o quanto possível os ecos da sua atuação política. Difícil, mas é a única estratégia possível.

Se a direita tradicional tem pouco o que fazer com Lula, sua única chance de sobrevivência é a de ocupar o lugar da extrema direita como força hegemônica do campo conservador. Se não fizer isso terá que enfrentar a mesma situação da esquerda na eleição do Rio, tendo talvez que trocar seu apoio político a Lula contra civilidade…

Se a direita tradicional pretende estar no segundo turno para incorporar os votos da extrema direita e ter alguma chance no enfrentamento a Lula, terá que enfrentar e vencer a extrema direita antes das eleições, tornando-a politicamente inviável.

É onde entra a CPI do genocídio.

Ontem a Carta Capital (clique aqui para ler o artigo completo) ecoou uma entrevista de Kassab ao Valor Econômico na qual o que estou chamando de “primeiro dia do fim do mundo” para Bolsonaro se ilustra da seguinte forma:

“O presidente do PSD, Gilberto Kassab, considera a empresária Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza, e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), “bons nomes” para a disputa presidencial em 2022. “São os dois nomes, as grandes novidades que estão sendo levadas em consideração”, afirmou Kassab em entrevista ao jornal Valor Econômico. “Dos nomes que estão sendo ventilados como novidades do centro, eu os vejo como bons nomes que devem ser observados”. O ex-prefeito de São Paulo também avalia que o ex-presidente Lula, possível candidato pelo PT, já está virtualmente no segundo turno. O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, pode não chegar lá. “O governo federal vai ter de se esforçar para mudar essa visão majoritária do País em relação ao seu desempenho, que será, inquestionavelmente, junto com a perspectiva de novos empregos, o principal fator de observação do eleitor”, disse Kassab. ““E aí poderemos ter um segundo turno que tenha um candidato que não seja ele [Bolsonaro] contra o Lula. Acho mais fácil ter um candidato de centro contra o Lula do que ter um candidato de centro contra o Bolsonaro”. Segundo Kassab, “o antipetismo é menor em relação a 2018” e a tendência é de que apareça no pleito “um antibolsonarismo, uma disposição antigoverno que não existiu na eleição passada, porque o Bolsonaro ainda não era presidente”

Ninguém precisa dizer o que isso significa.

A suspeição de Moro, desafeto de Bolsonaro foi uma notícia tão ruim para um quanto para o outro.

Ela abre a porteira para notícias ainda piores para os dois.

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