Paulo Freire, um alfabeto de esperança, por Paolo Vittoria

Há cem anos nasceu o grande educador brasileiro que lutou por "uma pedagogia dos oprimidos" e foi perseguido pelo regime. Ainda hoje Bolsonaro insulta sua memória

Imagem de 'Um Cordel para Paulo Freire' (Instituto de Educação e Direitos Humanos Paulo Freire)

do Blog do Conde

Paulo Freire, um alfabeto de esperança, por Paolo Vittoria

Para o centenário do nascimento de Paulo Freire (Recife, 1921 – São Paulo, 1997), apesar das iniciativas que se multiplicam mundialmente, ou talvez precisamente por causa delas, o esporte preferido da família Bolsonaro parece ser ofender a memória do grande educador brasileiro, ostentando definições como “energúmeno” e, obviamente em sentido depreciativo, “ídolo de esquerda”. Na verdade, as expressões escandalosas do ex militar são indicativas de uma simplificação exagerada que tende a buscar em Paulo Freire o “bode expiatório” com o intuito de desviar a atenção do desastre de seu governo. Freire foi usado como o motivo de todos os “males”, principalmente no âmbito escolar e universitário.

Se por um lado, ridicularizar o setor de educação pública é útil para deixar espaço livre para a iniciativa privada mais agressiva, de outro apelar como “energúmeno” – obsessivo, até possuído por demônios, um educador humilde e profundamente sensível como Paulo Freire, atinge efetivamente a larga escala de setores – não propriamente moderados – que conduzem de forma inquietante para cenários de inquisição.

Freire, por sua vez, algumas décadas antes havia usado uma expressão que poderia ser adequada para descrever a mentalidade que emerge da narrativa de seus atuais acusadores: 

“A consciência ingênua que revela uma certa simplicidade, tende a ser superficial na interpretação dos problemas; aborda as questões com ingenuidade, não se aprofunda na causalidade do próprio fato”. 

Além disso, ele alertava sobre como a consciência ingênua poderia degenerar em dimensão massiva ou fanática, que hoje podemos encontrar no mundo das fake news, do sectarismo, do poder do falso, dominado pela extrema direita por meio de discursos em que a própria fragilidade do relacionamento causa-efeito, e sua consequente falta de sentido, acaba sendo persuasiva para quem não tem vontade ou intenção de compreender os fenômenos em profundidade.

Por outro lado, o apelo de Paulo Freire a uma necessidade existencial, mesmo ao imperativo da esperança, ressoa muito mais forte do que um simples apelo sentimental: porque a esperança não é uma atitude romântica, mas a raiz concreta de um método baseado na denúncia das condições de opressão e consequente organização política para superá-las.

Tais ações transformadoras e refletivas provocam interpretações de sentido, leituras de mundo, pontos de vista até então inéditos. Paulo Freire não teria sido exilado da ditadura militar se seu método de alfabetização, inserido em um sistema político-educacional mais amplo, não tivesse sido realmente gerador de transformações na história: “A esperança, como necessidade ontológica, deve ancorar-se na prática “

Não é por acaso que nas iniciativas do centenário (na Itália entre os promotores estão a Rete di Cooperazione Educativa, Fondazione Basso, Popoli in arte, Istituto Paulo Freire, Rete Freire-Boal,  Educazione Aperta, Società Italiana di Pedagogia) faz referência constante ao verbo Esperançar, cujo significado remete à prática da esperança, a uma ação. Seu pensamento é assustador para figuras como Bolsonaro e seus seguidores porque encontra correspondência real nas experiências dos movimentos populares, rurais e urbanos, das comunidades populares, camponesas e operárias que, por serem sujeitos de um processo político de educação popular, constroem o que ainda não existe, mas pode ser criado: um inédito possível.

Ao mesmo tempo, nos encontros, nos debates, nas publicações em ocasião do centenário, emerge com força que reencontrar Freire não significa apenas atravessar a linha do tempo. “Não quero ser seguido, quero ser reinventado”, dizia o educador pernambucano. Suas experiências marcam um caminho concreto de ação-reflexão como superação histórica de um modelo definido por ele como “educação depositária” que não só ainda é dominante, mas se fortaleceu com o avanço do capitalismo. Um sistema em que não tem prática do diálogo que acaba por perder a capacidade de perguntar, se surpreender, provocando uma aceitação passiva da realidade empobrecida pela falta de interesse por outros pontos de vista.

Hoje descreve-se a didática por meio de “créditos” e “dívidas”, expressão muito própria para o sistema financeiro, mas não tanto para um contexto educacional; definem-se escola ou universidade como “agências de formação”; palavras como “eficiência” são usadas com facilidade, assim “produtividade”, “recursos humanos”. No campo da pedagogia crítica, inspirada no pensamento de Freire, cresce a determinação de superar as tendências tecnicistas dos modelos de formação para abrir caminhos para uma cultura política e educacional capaz de ir além do capitalismo, de desmascará-lo em seus lados ocultos e destrutivos. Entende-se que não há esperança fora de uma luta política que crie modos de viver em claro contraste com o sistema dominante: agroecologia, abordagens cooperativas de trabalho, combate às contratações e máfias, políticas de acolhimento e solidariedade capazes de reinterpretar o fenômeno da migração, redes permanentes de informação, teatro do oprimido, ecofeminismo.

Experiências e práticas políticas que vão contravento, mas encontram seu centro de gravidade na mobilização política e no imaginário porque “quando não há mais espaço para a utopia, para os sonhos, para a escolha, para a decisão, para a luta, que ocorre somente quando há esperança, não há mais espaço para a educação, apenas para o adestramento.”

* Original em italiano https://ilmanifesto.it/paulo-freire-un-alfabeto-di-speranza/

Paolo Vittoria é professor de Pedagogia da Università Federico II di Napoli – Itália. De 2011 até 2017 foi professor de Filosofia da Educação na Faculdade de Educação e no Departamento de Fundamentos da Educação. É licenciado em Letras – Università degli Studi di Napoli Federico II UNINA (2002), Doutor em Pedagogia da Formação – Università degli Studi di Napoli Federico II – UNINA – (2008); Pós-Doutor em Políticas da Educação – Universidade Federal Fluminense – UFF – Rio de Janeiro (2010).

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