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Representatividade, cooptação, mídias hegemônicas e a revolução brasileira, por Cesar Calejon

Representatividade, cooptação, mídias hegemônicas e a revolução brasileira, por Cesar Calejon

Representatividade, cooptação, mídias hegemônicas e a revolução brasileira

por Cesar Calejon

Recentemente, participei de um acalorado embate discursivo na maior universidade pública do país sobre representatividade, hegemonia e a participação de lideranças de movimentos sociais, que defendem o progresso legítimo, na grade de programação das grandes mídias hegemônicas de comunicação do país.

O que é representatividade? Seria esse parâmetro capaz de alterar, de alguma forma, a dinâmica estrutural do poder nesses veículos? Quais são os limites entre representatividade e cooptação? O que se entende por revolução, efetivamente, no Brasil durante o começo do século XXI?

Essas questões são extremamente complexas e é sobre essa complexidade que eu pretendo organizar a reflexão contida nesse artigo, evitando conclusões categóricas que acabariam por restringir o debate. O meu objetivo aqui é diametralmente oposto.

Representatividade, para os efeitos do debate circunscrito por esse artigo, significa a capacidade de se reconhecer e de se sentir representado por determinada figura pública (líderes sociais e políticos, atrizes e atores, artistas em geral, atletas etc.).

Nesse sentido, é evidente compreender porque as populações mais empobrecidas e que foram historicamente usurpadas pelas classes mais abastadas, ao se verem representadas nas telenovelas e nos maiores telejornais da nação, desenvolvem uma espécie de euforia natural decorrente da sensação de pertencimento ao se reconhecerem no veículo midiático. Esse reconhecimento, segundo o filósofo Alex Honneth, é “uma construção intersubjetiva, dialógica e histórica, por meio da qual os sujeitos buscam a sua realização em três domínios essenciais: o afeto, os direitos e a estima social, dos quais advém, respectivamente, a autoconfiança, o autorrespeito e a autoestima”.

Até aqui, sem problema. Essa representatividade parece algo absolutamente salutar para o desenvolvimento de um arranjo social mais diverso, tolerante e pluralista. Simples, certo? Errado. E é aqui que a reflexão se torna realmente complexa: ao longo dos últimos séculos, pelo menos, essa busca por reconhecimento vem sendo utilizada como uma das principais forças de manipulação para que os oprimidos, ao buscá-la de qualquer forma, tornem-se um instrumento nas mãos dos opressores para fazer a manutenção dos seus processos hegemônicos.

Por exemplo: apenas duas gerações humanas atrás (o que em termos sociológicos é um período relativamente curto), italianos, espanhóis e imigrantes de outras partes da Europa fugiram dos horrores da Segunda Guerra Mundial e chegaram ao Brasil na condição de campesinos. Fundamentalmente, para trabalharem nas lavouras de café, na colheita de uvas etc. Ou seja, eram proletários sendo brutalmente explorados pelos seus empregadores, os barões que controlavam os processos hegemônicos de comunicação e reconhecimento da época.

Apoiados por uma base epistemológica elitista, racista, misógina e homofóbica, o campesinato europeu, principalmente os homens heterossexuais e brancos, foram cooptados na busca por representatividade e reconhecimento (“trabalhar duro para vencer na vida”), ascenderam à “classe média” brasileira e, quase unanimemente, adotaram o mesmo discurso “meritocrático” que lhes era imposto quando eram eles os explorados.

Em seu artigo científico que visa avaliar a percepção dos presos sobre os escolhidos para liderarem a população prisional, como forma de avaliarmos ainda outro exemplo, a pesquisadora Renata da Silva Marques ressalta o seguinte:

“Dias (2011) explica que no início dos anos 2000, o PCC mudou suas formas de relações com os outros presos. Membros da facção perceberam que eles não conseguiriam manter o domínio apenas pela violência física. Era preciso construir uma confiança entre a facção e o restante da população carcerária, para que houvesse maior aceitação. Assim, o PCC iniciou uma nova forma de gestão, baseada na distribuição de funções que variam desde cuidar da faxina até tratar de assuntos esportivos. Eram escolhidos, entre seus membros, aqueles que pudessem
assumir lideranças dentro das prisões, com papéis a serem cumpridos junto à população encarcerada. As funções dos líderes consistem em ordens sobre maneiras de agir, comportar, gesticular e até mesmo o que conversar. (…) As relações de poder que dominam atualmente foram capazes, mesmo que com suas limitações, de causar rachaduras na ideologia que vigorava até pouco tempo, antes da dominação das organizações criminosas.”

Em conversa recente com o amigo Jones Manoel, um entre os intelectuais mais proeminentes e sagazes do campo marxista brasileiro, ele fez uma colocação extremamente pertinente sobre esse tema: “o que orienta a linha editorial dos grandes veículos de comunicação é o poder. Nesse sentido, esse tipo de representatividade, apesar de ser capaz de tensionar algumas práticas, não altera a dinâmica estrutural do poder. (…) O problema, de fato, é que a real noção de poder, enquanto força de comando e capacidade de decidir, foi perdida. Então, há um processo de compreensão como se a mudança da sociedade pudesse ocorrer por meio de representações estético-culturais e não por meio da capacidade de decisões macro-sociais, tais como nas searas econômicas, políticas, culturais, educativas, nas relações agrárias e assim por diante.”

Efetivamente, o fato das grandes emissoras adotarem quadros mais diversos no sentido de incluir os grupos que foram massacrados ao longo dos últimos séculos altera a sua busca hegemônica pelo poder para, de forma resiliente, conservar o atual estado de coisas? A resposta para essa questão caracteriza a diferença entre buscar representatividade ou ser meramente cooptado para evitar um processo de mudança estrutural e mais ampla no longo prazo.

Essa, aliás, é a definição de revolução nesse contexto: um processo social, cultural e histórico de longuíssimo termo para o câmbio estrutural que visa encerrar os processos de exploração do ser humano pelo ser humano, em última instância.

Para tanto, vale a reflexão sobre a complexidade de colaborar com a flexibilização e, consequente fortalecimento via métodos mais sutis e palatáveis atualmente, da estrutura que alegadamente afirma-se querer alterar.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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