Ricardo Carvalho: vai-se mais um bom repórter, por Marcelo Auler

Na Folha, coube a Ricardão divulgar, em 30 de março de 1978, a primeira lista de desaparecidos políticos.

Ricardo Carvalho completaria 73 anos dia 7 de julho (Foto: reprodução da TV)

Ricardo Carvalho: vai-se mais um bom repórter

por Marcelo Auler

em seu blog

Na memória não guardo a época e as circunstâncias em que conheci pessoalmente Ricardo Carvalho. Não sei se foi apenas no início dos anos 80, quando me mudei para São Paulo e por ali fiquei até 1986. Pode ter sido antes, pois tenho nítida lembrança que, ainda em meados dos anos 70, quando a sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB se alojava no prédio denominado Vila Venturosa, no bairro da Glória, Rio de Janeiro, eu passei a acompanhar suas reportagens na Folha de S.Paulo.

Ele e Fernando Fosch, então repórter da sucursal do Rio (hoje desembargador do Tribunal de Justiça do Rio), faziam a cobertura da igreja católica e dos direitos humanos. Sim, houve época em que os meios de comunicação destacavam setoristas para isso e Ricardão (forma como os amigos o tratavam, distinguindo-o do Ricardo Kotscho) se especializara nos dois temas.

Eram assuntos que me interessavam. À época, mesmo contratado da Editora Bloch, escrevia – escondido dos editores da revista Manchete – para os jornais Movimento e Pasquim, e com frequência tratava estes temas.

Primeira Lista de desaparecidos – Na Folha, coube a Ricardão divulgar, em 30 de março de 1978, a primeira lista de desaparecidos políticos. Anteriormente (26/03), ele informara, também com exclusividade, o pedido do presidente norte-americano para um encontro com dom Paulo, na viagem que faria ao Brasil no final daquele mês.

O encontro surgiu a partir de uma carta encaminhada pelo cardeal relacionando 23 presos políticos que foram dados como desaparecidos. Na verdade, assassinados nos porões da ditadura sem que seus corpos jamais tenham sido entregues a familiares. Tratava-se da primeira lista pública de presos assassinados pelo regime militar. Era uma lista ainda incompleta, mas foi a primeira elaborada por dom Paulo e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright, um defensor dos direitos humanos ao lado do cardeal católico de São Paulo.

Entre os desaparecidos estavam dois cidadãos com dupla nacionalidade: Paulo Stuart Wright, irmão do pastor e Stuart Edgart Angel Jones, um estudante universitário filho do norte-americano Norman Jones com a estilista Zuzu Angel.

Carona de Carter impediu a viagem de Ricardão com dom Paulo

A notícia da carta do cardeal ao presidente com a relação dos 23 nomes de desaparecidos Ricardão estampou nas páginas da Folha no dia em que Carter, após passar por Brasília, desembarcaria no Rio de Janeiro. Ali encontraria dom Paulo e mais representantes da chamada sociedade civil, na manhã de seu último dia no país.

Foi nesse 31 de março de 1978 que tive a sorte de dar carona para dom Paulo, logo após ele deixar a limusine do presidente dos EUA. Em sua passagem pelo Rio, Carter hospedou-se na residência oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, a Casa da Gávea Pequena, no Alto da Boa Vista. Ali, na manhã daquela sexta-feira, ele recebeu os representantes da sociedade civil brasileira (*), irritando profundamente o então presidente general Ernesto Geisel. Certamente a irritação era pela presença de dois fortes opositores ao regime militar: dom Paulo e Raymundo Faoro, então presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ao final do encontro, Carter, em uma deferência especial, convidou o cardeal de São Paulo a acompanha-lo no caminho da Base Aérea, na Ilha do Governador.

Ricardão orgulhava-se, merecidamente, dos livros que escreveu sobre dom Paulo

Criou uma oportunidade para conversarem apenas na presença da primeira dama, Rosalyn. Oportunidade em que, como o próprio Ricardão relatou em seus livros, dom Paulo fez uma inesperada consulta ao presidente:

É verdade o que aqui se conta, que os Estados Unidos, ou melhor, a CIA, ensinou os nossos militares a torturarem os presos sem neles deixarem marcas?

Transcrevendo o que o próprio cardeal relatou em um de seus livros, Ricardão registrou a resposta, pela versão de dom Paulo:

Carter se voltou para a esposa Rosalyn e lhe perguntou numa altura que me permitisse ouvir: o que posso responder a uma pergunta tão justa quanto incômoda? Rosalyn então sugeriu ao presidente Carter: diga ao senhor cardeal de São Paulo que isso pode ter acontecido”.

Já na Base Aérea, ao deixar o carro do presidente, dom Paulo confessou-se perdido e preocupado em chegar ao aeroporto do Galeão, onde embarcaria para São Paulo. O convite feito pelo presidente dos Estados Unidos acabou prejudicando o próprio Ricardão, que estava no aeroporto com o talão de embarque ao lado de dom Paulo. Mas o passeio na limusine presidencial fez o cardeal perder o voo e o repórter perdeu a viagem com a fonte. Dom Paulo embarcou em outra aeronave.

Opção preferencial pelo Fusca – Na Base Aérea, ao se dizer perdido, dom Paulo recebeu minha oferta de carona. A ela se sobrepôs a de uma colega, de O Estado de S.Paulo, que se deslocava junto à comitiva americana em um luxuoso Ford Galaxie com motorista. O cardeal, diante das ofertas de carona em um Fusca e em um Galaxie, optou pela minha oferta. Foi, como Ricardão classificou ironicamente mais tarde, uma “confirmação da opção preferencial pelos pobres”.

Nos anos 80, ao mudar-me para São Paulo, encontrei Ricardão como diretor da seção da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no estado. Eu já era sócio da entidade e lembro de ir algumas vezes na sede paulista, localizada na Rua Augusta. Foi um período em que nos tornamos amigos. Jamais trabalhamos em uma mesma redação, nas em alguns momentos convivemos.

Depois, afastei-me de São Paulo (1986) retornando ao Rio e poucas vezes o encontrava. Mas, em 2009, sabendo da carona ao cardeal no meu Fusca, procurou-me para registrá-la para a posteridade no primeiro de seus livros sobre dom Paulo – “O Cardeal e o Repórter – histórias que fazem História” (Global Editora, 2010).

Anos após, ao escrever o segundo livro – “O Cardeal da Resistência – As muitas vidas de dom Paulo Evaristo Arns” (Editora Instituto Vladimir Herzog – 2013) – encomendou-me o texto relatando o fato com mais detalhes do que no primeiro livro.

Continue lendo no blog de Marcelo Auler.

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