Sobre desigualdade, discursos e a solidariedade entre os despossuídos, por Arnaldo Cardoso

É compreensível que após a presidência anômala do antecessor de Biden, que em vez de buscar união e cooperação apostou no confronto e na dissolução, hoje soe como música o discurso de Biden sobre os 100 dias de seu governo.

Belongings of the homeless crowd a downtown Los Angeles sidewalk in Skid Row on May 30, 2019. - The city of Los Angeles on May 29 agreed to allow homeless people on Skid Row to keep their property and not have it seized, providing the items are not bulky or hazardous. (Photo by Frederic J. BROWN / AFP) (Photo credit should read FREDERIC J. BROWN/AFP via Getty Images)

Sobre desigualdade, discursos e a solidariedade entre os despossuídos

por Arnaldo Cardoso

Na semana em que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, completa 100 dias de governo, a ainda poderosa indústria cinematográfica norte-americana realizou sua cerimônia de entrega do Oscar, desta vez numa estação de trem (Union Station) em Los Angeles, consagrando o emblemático Nomadland com os prêmios de melhor filme, direção (para uma diretora chinesa) e atriz.

A tradicional festa que anualmente representa o setor, já nas últimas edições vinha dando mostras de mudanças, sejam em resposta à reestruturação do setor face às tecnologias digitais e ascensão das empresas de streaming, sejam pela crescente pressão de diversas demandas sociais, nacionais e mundiais, como as por maior representatividade de raça e gênero no setor. Para uma indústria de alcance global é imperativo que seu produto também seja capaz de espelhar essa globalidade.

Vale lembrar que já na edição do Oscar de 2020, o principal premiado foi o filme Parasita, uma produção da Netflix dirigida pelo cineasta sul-coreano Bong Joon Ho, que com frieza e sarcasmo expôs feridas profundas de uma sociedade, a sul-coreana, que nas últimas décadas teve como principal meta ser um mercado competitivo e globalizado.

Se Parasita instalou um mal-estar ao escancarar a brutal desigualdade social na Coréia do Sul, desta vez a premiação de um filme expondo as vidas impactadas pelas crises habitacional e de emprego provocou mal-estar ainda maior pois retrata a realidade da rica Califórnia, berço da nova economia americana, das gigantes corporações de tecnologia e onde cresce sem parar a população de desempregados e moradores de rua, pondo a nu o desalento de um número crescente de cidadãos norte-americanos.

Como muito bem apontou o jornalista Guilherme Genestreti em artigo publicado na Folha de S. Paulo no dia seguinte à cerimônia do Oscar, o filme “destrincha os efeitos de um fenômeno histórico sobre o qual o cinema ainda tratou de maneira bastante tímida se considerarmos as suas proporções, que é a crise econômica de 2008. Esfacelamento das relações de trabalho e compressão da classe média são alguns dos assuntos muito bem tangenciados pelo filme”. Genestreti também comenta no referido artigo sobre a expressão houseless, utilizada no filme, e ouvida pelo jornalista em janeiro de 2017 em viagem a San Francisco.

Um recente relatório do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos (HUD, na sigla em inglês) mostrou que a população de sem-teto da Califórnia atingiu o montante de 161.548 pessoas, com crescimento de 7% em relação ao ano anterior devido à perda de empregos durante a pandemia. Analistas destacam que a população desabrigada do estado, cujos números ainda estão subestimados, aumentou em cinco dos últimos seis anos e cresceu 16,2% de 2007 a 2020. Os aumentos mais acentuados ocorreram nos últimos dois anos. 

Medidas paliativas como o oferecimento de quartos de motéis a dezenas de milhares de residentes desabrigados durante a pandemia tem efeitos pontuais, mas não são suficientes para o enfrentamento dos sérios problemas estruturais.

Já em 2017 o cientista político e professor de Harvard, Robert Putnam, apresentou em seção no Senado norte-americano relatório de pesquisa que demonstrou que o país vinha registrando seguidas quedas de seu capital social, conceito originalmente desenvolvido por Alexis de Tocqueville que propõe demonstrar o nível de envolvimento da sociedade com as questões públicas, fator decisivo para o fortalecimento da democracia. A queda desse nível revela perda de confiança dos cidadãos nas instituições, sentimento de alienação, enfraquecimento de expectativas positivas e infelicidade social.

Joe Biden tem comemorado a superação da meta de vacinação de 100 milhões de cidadãos que embalou sua campanha eleitoral e tem também exaltado o cumprimento de promessas como a retomada da cooperação com organismos internacionais multilaterais como a OMS e a volta dos Estados Unidos ao Acordo do Clima de Paris. No tocante a agenda ambiental, a recente Cúpula do Clima que reuniu 40 governantes sob a liderança do presidente norte-americano foi palco para a apresentação de vistosas metas e propostas de mudanças no modelo de desenvolvimento econômico mundial orientadas pelo conceito de Economia Verde.

É compreensível que após a presidência anômala do antecessor de Biden, que em vez de buscar união e cooperação apostou no confronto e na dissolução, hoje soe como música o discurso de Biden sobre os 100 dias de seu governo. De fato, a revalorização da política e dos instrumentos do Estado para a indução do desenvolvimento e promoção da justiça social vem mais do que em boa hora.

No discurso dos 100 dias a série de programas de socorro às famílias norte-americanas certamente trarão alento e emprestarão fôlego para a retomada no pós-pandemia, mas para problemas estruturais como o da crise habitacional nada foi apresentado. Sobre a endêmica violência armada no país o reconhecimento de sua gravidade é salutar, mas as medidas de combate anunciadas foram muito tímidas.

Em termos de política externa a afirmação da disposição ao diálogo repõe os Estados Unidos na cena internacional como um ator normal, mas sem significativas mudanças em relação ao padrão das últimas décadas. Nem uma palavra sobre a Guerra na Síria e outros flagelos da atualidade. O anúncio da retirada de tropas do Afeganistão se fez sem um balanço do fracasso da intervenção. Foi a disputa entre Estados Unidos e China pela liderança na economia e política internacionais que deu o tom para a política externa anunciada por Biden, mostrando apenas uma readequação de termos. Ainda sobre a Cúpula do Clima convocada por Biden, o que se viu foram os líderes das duas principais potências mundiais invocando para si a capacidade de induzir “processos virtuosos” que coloquem o mundo na rota do desenvolvimento sustentável. Enquanto isso, o cotidiano de uma imensa parcela de pessoas pelo mundo segue sob pesadas nuvens produzidas por grandes corporações drenando recursos naturais e energia humana das nações menos desenvolvidas, resultando em variadas formas de violência e destruição.

Voltando a mensagem transmitida pela premiação do filme Nomadland, em meio às paisagens geladas e áridas em que se passa o drama, é entre os despossuídos, os não alcançados pelos discursos e projetos grandiloquentes, que floresce a solidariedade, a semente de esperança. Em várias partes do mundo, como no Brasil, a pandemia do coronavírus tem revelado esse poder da solidariedade entre os que pouco ou nada tem.

Mas é preciso lembrar aos que detêm os meios para promover as urgentes mudanças estruturais que as sociedades reclamam, que é também em meio à decepção e descrença nas instituições que germinaram as lideranças e regimes mais nefastos da História, com consequências desastrosas sobre toda a humanidade.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político pela Pontifícia Universidade Católica. É professor universitário nas áreas de Economia, Relações Internacionais e Sociologia.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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