“Todos os anos passas, indiferente, pela data de aniversário de tua morte”, por Sebastião Nunes

Enquanto o genocida Jair Messias continua vomitando os mortos que ajudou a assassinar, nossos amigos relembram os dias de suas próprias mortes.

“Todos os anos passas, indiferente, pela data de aniversário de tua morte”

por Sebastião Nunes

O genocida Jair Messias continuava vomitando. Pela sua boca escancarada fluía pastosa mistura de carne, osso, vísceras, pelos e sangue de 500.000 mortos, vítimas de seus atributos essenciais: crueldade, egoísmo e ódio.

Quantos anos, séculos, talvez milênios, duraria a horrível descomilança, o cruel desfile de restos de mortos indiferenciados? Mesmo na eternidade sem tempo, qualquer duração dessa pavorosa regurgitação se mostrava intolerável para os olhos e estômagos de Adão Ventura, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Luís Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Otávio Ramos, Sancho Pança e Sérgio Sant’Anna. O que antes fora pasto verdejante de Brachiaria, não passava agora de lama podre, pegajosa, pontilhada de pedaços esbranquiçados de ossos humanos. Desviaram os olhos, nauseados, os amigos.

TODOS OS ANOS PASSAS…

Sentados de costas para o genocida Bolsonaro, distanciados o suficiente para evitar os ruídos dos nojentos refluxos do amaldiçoado, ouviram que Otávio, morto aos 56 anos, dizia com lentidão o que parecia ser um verso:

– Todos os anos passei, entediado, pela data de aniversário de minha morte.

Ouviram. Assuntaram. Longamente meditaram sobre o complexo significado do estranho enunciado.

O segundo a se pronunciar foi Adão:

– Morri no dia 12 de junho de 2004. Para mim, o verso ficaria melhor assim:

Todos os anos passei, poeticamente, pela data de aniversário de minha morte.

Disse e calou-se, como se exigisse continuação.

Janis solfejou breve canção. Jimi dedilhou, vagamente, a guitarra. Por ordem alfabética a vez era de Vieira:

– Morri em 17 de maio de 2020, aos 82 anos. Parkinson. Exatamente uma semana depois de Sérgio. Acaso? Coincidência? Não sei. Minha versão seria:

Todos os anos passei, inconsciente, pela data de aniversário de minha morte.

Lobato, o mais velho de todos (morto aos 94 anos), tinha opinião diferente:

– Velhice. Digam o que digam, morri de velhice, em cinco do julho de 2020. Meu verso-epitáfio seria assim:

Todos os anos passei, esperançoso, pela data de aniversário de minha morte.

Era a vez de Sérgio, a primeira vítima, entre meus amigos, da Covid. No início, aviso, tosse; depois, falta de ar. Seguiu-se a internação. Fragilizado por remendos no coração, suportou poucos dias.

– Morri no dia 10 de maio de 2020, um domingo, uma semana exata antes de puxar a perna de Vieira e levá-lo comigo. Eu escreveria assim o verso:

Todos os anos passei, escrevendo, pela data de aniversário de minha morte.

Calaram-se os amigos, pois ali perto, muito perto, viram as parcas.

FIAM AS PARCAS SEUS INFINITOS FIOS

O genocida Bolsonaro continuava vomitando. Chegaria a vomitar as próprias tripas depois de vomitar 500.000 mortos? Vomitaria o cérebro de escasso valor, os ralos neurônios desperdiçados em ódio, autodefesa e ignorância? A natureza nada perderia, a Terra ganharia muito.

Cloto tecia o fio da vida; Láquesis enrolava e sorteava; Átropos cortava.

Eternamente fiavam, sorteavam e cortavam.

– Tenho a visão tão aguda quanto uma águia – disse Cloto.

– Mal vejo e nada escuto – disse Láquesis.

– Sou cega como um morcego – disse Átropos.

Os amigos se aproximaram.

– Não dá pra escolher, Átropos, que fio cortar? – perguntou Sancho, assumindo o papel de guia linguarudo.

– Por quê? – indagou a parca, desconfiada.

– Ora, por quê – ripostou o gorducho, olhando de banda o genocida Jair Messias, que vomitava para valer. – Tem tanta gente ruim no mundo, que uma limpeza geral viria em boa hora.

– Nunca pensei nisso – ponderou Átropos, pensativa. – Nosso trabalho, definido desde a criação dos viventes, é tecer, sortear e cortar. Simples assim.

– Ah, mas é muito aleatório, minha senhora – retrucou Sancho. – Já pensou em como o mundo poderia ser melhor, se cortasse os fios dos piores antes dos melhores?

– Não sei, ripostou a gorducha – para mudar os planos, preciso consultar Plutão, o deus do Inferno. Esperem alguns milênios enquanto vamos e voltamos.

– Desse mato não sai coelho – disse Sancho, olhando enviesado para os amigos. Melhor se a gente resolver o destino do mundo entre nós mesmos. Ou, se faltar ânimo, destemor e valentia, deixar como está pra ver como é que fica.

Fez-se o silêncio dos espaços infinitos enquanto Bolsonaro, suando sangue, continuava a vomitar.

(O verso do título é de Otávio Ramos)

(No próximo capítulo: Voltando ao anúncio para vender o Rio de Janeiro.)

Sebastião Nunes é um escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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