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Treze de Maio e a herança que não se esquece, por Danilo Nunes

Protesto Vidas Negras - Foto: Felipe Ouverney/Revista Casper

Treze de Maio e a herança que não se esquece

por Danilo Nunes

No dia 13 de maio é para alguns dia de celebrar a abolição da escravatura, mas o que realmente acontece para a maioria dos povos que carregam a herança sanguinária da escravidão implantada por seus ancestrais e nossos colonizadores, é a luta interminável pela verdadeira liberdade, direitos sociais e de igualdade entre todos, todas e todes nós.

Não é nenhum mérito para a coroa assinar qualquer tipo de documento e/ou carta naquele 13 de maio de 1888 onde o mundo, sobre grande pressão das potências econômicas Inglaterra e França e em decorrência da Revolução Industrial (1760) e Revolução Francesa (1789) despertavam para novas formas de exploração e sucateamento da mão de obra e dos contratos de trabalho atraindo imigrantes de diversas partes do mundo para viver uma vida miserável e submissa às elites herdeiras da nobreza e detentoras da máquina de produção.

Não era mais cômodo nem lucrativo ser dono de escravos, portanto ao “libertá-los” estavam aprisionando aqueles (as) descendemtes dos negros e negras que atravessaram o Atlântico vindos (as) da África Ocidental para serem escravos (as) no Brasil e em toda a América, nos porões desumanos dos navios negreiros, assim como muitas obras e poemas retrataram a árdua travessia de africano (as). Aqui faço citação de trecho do poema Navio Negreiro de Castro Alves que já foi gravado na voz de artistas como Caetano Veloso e Maria Bethânia, entre outros.

“…Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura… se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?…

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa…

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus…

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe… bem longe vêm…

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N’alma — lágrimas e fel…

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis…

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus …

… Adeus, ó choça do monte,

… Adeus, palmeiras da fonte!…

… Adeus, amores… adeus!…”

No Brasil, já na transição do Império para República, muitas revoltas contra a escravidão, quilombos se levantando contra a coroa, diversos movimentos abolicionistas nos estados brasileiros, a forte influência iluminista, na europa a industrialização a todo o vapor, o surgimento dos operários urbanos esse foi o contexto para que no Brasil a Princesa Isabel assinasse a Abolição da Escravatura.

A liberdade que deram ao negro (a) foi e ainda é uma falsa liberdade. Aqueles (as) que foram escravizados (as) sairam da escravidão para serem aprisionados (as) por um sistema que os mata, sufoca, arrancando qualquer direito social e os esmagando em áreas, consideradas periféricas pela tal “democracia”, palavra que os homens brancos e detentores do poder pronunciam com orgulho.

As lutas da resistência negra se mantém viva através dos (as) militantes, da educação, da sobrevivência e da cultura que faz da arte, música e poesia suas armas mais potentes.

Aqui trago a letra de uma canção da banda Rappa para ilustrar parte dos temas e causas atuais:

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro

Tudo começou quando a gente conversava

Naquela esquina ali

De frente àquela praça

Veio os zomens e nos pararam

Documento por favor

Então a gente apresentou

Mas eles não paravam

Qual é negão? Qual é negão?

O que que tá pegando?

Qual é negão? Qual é negão? Então

Qual é negão? Qual é negão?

O que que tá pegando?

Qual é negão? Qual é negão?

Enquanto a polícia se torna a força opressora dentro do sistema, o slam, o rap e o funk surgem como vozes de levante e resistência das comunidades. Denunciam toda a violência e atentados que sofrem a população negra em nosso país e nos fazem lbrar da herança da escravidão e da dívida social que carregamos. Nascemos com sangue na mão. Sangue de cada negro que nossos antepassados mataram, torturaram e exploraram, além de carregar nas costas os crimes de estupro contra as negras que, muitos de nós ainda justificam como miscigenação com orgulho.

Um dia, não tão distante, um homem branco, assim como eu me disse:

Não, não existe mais essa desigualdade, muito menos preconceito. Eu mesmo deixo minha empregada negra sentar à mesa para almoçar. Nós a tratamos como se fosse da família.

Bom, a primeira questão que me veio foi:

Se a gente anda por bairros de classe média e alta, o número de moradores brancos é muito maior. Agora se entramos em qualquer favela tem mais negro do que branco. Se no Brasil o número da população negra é bem maior que a branca, já tem algo de errado aí. E sobre as frases Eu mesmo deixo minha empregada negra sentar à mesa para almoçar e Nós a tratamos como se fosse da família, não precisava falar nada, pois já vem carregada de preconceito e desigualdade, mostrando o quão superior e caridoso era aquele sujeito, acreditando estar em posição social bem acima da empregada (negra) que

semanalmente trabalhava em sua casa.

Lembro de terminar com a seguinte pergunta:

É mais fácil a polícia, às três da manhã numa rua qualquer, suspeitar e parar você para dar uma geral ou um homem negro?

Então todo camburão tem muito de navio negreiro e o sistema é desigual.

Aqui quero deixar a letra da canção Negro Drama do Racionais MC’s:

Nego drama

Entre o sucesso e a lama

Dinheiro, problemas, invejas, luxo, fama

Nego drama

Cabelo crespo e a pele escura

A ferida, a chaga, à procura da cura

Nego drama

Tenta ver e não vê nada

A não ser uma estrela

Longe, meio ofuscada

Sente o drama

O preço, a cobrança

No amor, no ódio, a insana vingança

Nego drama

Eu sei quem trama e quem tá comigo

O trauma que eu carrego

Pra não ser mais um preto fodido

O drama da cadeia e favela

Túmulo, sangue, sirene, choros e velas

Passageiro do Brasil, São Paulo, agonia

Que sobrevivem em meio às honras e covardias

Periferias, vielas, cortiços

Você deve tá pensando

O que você tem a ver com isso?

Desde o início, por ouro e prata

Olha quem morre, então

Veja você quem mata

Recebe o mérito a farda que pratica o mal

Me ver pobre, preso ou morto já é cultural

Histórias, registros e escritos

Não é conto nem fábula, lenda ou mito

Não foi sempre dito que preto não tem vez?

Então olha o castelo e não

Foi você quem fez, cuzão

Eu sou irmão do meus truta de batalha

Eu era a carne, agora sou a própria navalha

Tim-tim, um brinde pra mim

Sou exemplo de vitórias, trajetos e glórias

O dinheiro tira um homem da miséria

Mas não pode arrancar de dentro dele a favela

São poucos que entram em campo pra vencer

A alma guarda o que a mente tenta esquecer

Olho pra trás, vejo a estrada que eu trilhei, mó cota

Quem teve lado a lado e quem só ficou na bota

Entre as frases, fases e várias etapas

Do quem é quem, dos mano e das mina fraca

Hum, nego drama de estilo

Pra ser, se for tem que ser

Se temer é milho

Entre o gatilho e a tempestade

Sempre a provar

Que sou homem e não um covarde

Que Deus me guarde, pois eu sei que ele não é neutro

Vigia os rico, mas ama os que vem do gueto

Eu visto preto por dentro e por fora

Guerreiro, poeta, entre o tempo e a memória

Ora, nessa história vejo dólar e vários quilates

Falo pro mano que não morra e também não mate

O tic-tac não espera, veja o ponteiro

Essa estrada é venenosa e cheia de morteiro

Pesadelo, hum, é um elogio

Pra quem vive na guerra, a paz nunca existiu

No clima quente, a minha gente sua frio

Vi um pretinho, seu caderno era um fuzil, fuzil

Nego drama

Crime, futebol, música, carai’

Eu também não consegui fugir disso aí

Eu sou mais um

Forrest Gump é mato

Eu prefiro contar uma história real

Vou contar a minha

Daria um filme

Uma negra e uma criança nos braços

Solitária na floresta de concreto e aço

Veja, olha outra vez o rosto na multidão

A multidão é um monstro sem rosto e coração

Hei, São Paulo, terra de arranha-céu

A garoa rasga a carne, é a Torre de Babel

Família brasileira, dois contra o mundo

Mãe solteira de um promissor vagabundo

Luz, câmera e ação, gravando a cena vai

Um bastardo, mais um filho pardo sem pai

Hei, senhor de engenho, eu sei bem quem você é

Sozinho cê num guenta, sozinho cê num entra a pé

Cê disse que era bom e as favela ouviu

Lá também tem uísque, Red Bull, tênis Nike e fuzil

Admito, seus carro é bonito, é, e eu não sei fazer

Internet, videocassete, os carro loco

Atrasado, eu tô um pouco sim, tô, eu acho

Só que tem que

Seu jogo é sujo e eu não me encaixo

Eu sou problema de montão, de Carnaval a Carnaval

Eu vim da selva, sou leão, sou demais pro seu quintal

Problema com escola eu tenho mil, mil fita

Inacreditável, mas seu filho me imita

No meio de vocês ele é o mais esperto

Ginga e fala gíria; gíria não, dialeto

Esse não é mais seu, oh, subiu

Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu

Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia?

Seu filho quer ser preto, ah, que ironia

Cola o pôster do 2Pac aí, que tal? Que cê diz?

Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz

Ei bacana, quem te fez tão bom assim?

O que cê deu, o que cê faz, o que cê fez por mim?

Eu recebi seu ticket, quer dizer kit

De esgoto a céu aberto e parede madeirite

De vergonha eu não morri, to firmão, eis-me aqui

Você não, cê não passa quando o mar vermelho abrir

Eu sou o mano, homem duro, do gueto, Brown, oba

Aquele loco que não pode errar

Aquele que você odeia amar nesse instante

Pele parda e ouço funk

E de onde vem os diamante? Da lama

Valeu mãe, negro drama (drama, drama, drama)

Aí, na época dos barraco de pau lá na Pedreira

Onde cês tavam?

Que que cês deram por mim?

Que que cês fizeram por mim?

Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho?

Agora tá de olho no carro que eu dirijo?

Demorou, eu quero é mais, eu quero até sua alma

Aí, o rap fez eu ser o que sou

Ice Blue, Edy Rock e KL Jay

E toda a família, e toda geração que faz o rap

A geração que revolucionou, a geração que vai revolucionar

Anos 90, século 21, é desse jeito

Aí, você sai do gueto

Mas o gueto nunca sai de você, morô irmão?

Cê tá dirigindo um carro

O mundo todo tá de olho ‘ni você, morô?

Sabe por quê? Pela sua origem, morô irmão?

É desse jeito que você vive, é o negro drama

Eu num li, eu não assisti

Eu vivo o negro drama

Eu sou o negro drama

Eu sou o fruto do negro drama

Aí Dona Ana, sem palavra

A senhora é uma rainha, rainha

Mas aí, se tiver que voltar pra favela

Eu vou voltar de cabeça erguida

Porque assim é que é, renascendo das cinzas

Firme e forte, guerreiro de fé

Vagabundo nato!

Pois é, a luta de resistência continua e nós, brancos, precisamos estar como soldados e coadjuvantes, entendendo a herança que carregamos. Todas, todos e todes devem se empoderar. Não, não temos o que celebrar com a Princesa Isabel no dia 13 de maio, mas temos que lembrar que no dia 20 de novembro mataram Zumbi dos Palmares e não foi em vão que o guerreiro deu a vida pela causa. Se você nunca sentiu na pele a desigualdade, escute quem sente todos os dias antes de falar.

Danilo Nunes é músico, ator, historiador e pesquisador de Cultura Popular Brasileira e Latino-americana.

Instagram: @danilonunes013

Facebook: @danilonunesbr

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