Um poema para Minas ou para o sol, por Maíra Vasconcelos

Mais uma vez nesse lugar de sol muito forte deram nome até para o escuro do coração

Foto Enio de Castro

Um poema para Minas ou para o sol

por Maíra Vasconcelos

Este poema que compõe *”O livro dos outros – poemas dedicados à leitura”, é como se quisesse também homenagear Minas Gerais, ou melhor, apenas o interior de Minas. E pode ser também apenas um poema para o sol no Brasil, por exemplo. Mas, ainda bem, essa decisão não pode ou não cabe ou nem sequer tem como estar apenas nas mãos de quem escreve.

Boa leitura.

*

Mais uma vez
nesse lugar de sol muito forte
deram nome até para o escuro do coração
dizem, se tem coração é de ouro
se não ilumina tem outro nome
como buscar nome para a cura dos escuros
no coração só o claro-escuro
parecido assim com a cor do sol
indo embora
esse sol muito forte mais uma vez
enquanto leio o que está grifado
nesse livro faço anotações
logo de manhã bem cedo
penso nesse lugar de sol muito forte
deram nome até para coisa ruim
Diabo tem mais de dez nomes
anotei todos os seus apelidos
isso faz parte da leitura atenta
escrever tudo o que não se sabe
como a vida
que nunca se sabe completamente
então preciso anotar as leituras
e falar o que não se sabe
até em poema se pode fazer isso
como agora mais uma vez
nesse lugar de sol muito forte
fazem fé que na morte nada vinga
queriam então morrer menos
não ficar no perdido para sempre
porque tudo se pode perder
até a saudade
então lutam pela saudade
a saudade na lida
lavrada junto ao sol
o sol sempre muito forte
a saudade bem no peito
para ter alguma coisa bonita no corpo
porque saudade é diferente
fica firme dá rubor na maçã
dizem, ter saudade é como rearranjo
para as coisas da alma
alma que não tem saudade
fica longe demais do discernimento do céu
e muito próxima do inferno, dizem
nesse lugar de sol muito forte
só não deram jeito de o sol bordar
porque com façanha de sol ninguém pode
dizem, é o instante
não dá tempo o sol é muito forte
vai embora todo dia
deixa gente bamba na labuta
deixa tudo meio confundido
até a gente mesmo na pele do outro
dos animais das plantas dá vertigem
é sol demais deixa tudo meio perdido
até esse poema reflexo da leitura
será poema
a palavra se pergunta me pergunto
nas anotações inteirinhas
que agora leio
quando ler dialoga demais
também sendo já outra palavra
talvez uma voz própria
que não é necessariamente a minha
mas é a voz que uso para viver
como estar apenas no próprio quarto
e escrever o sol que não sei completamente
pois em um território grande demais
o sol se divide em quantas partes
é importante falar o que não se sabe
para não abandonar a busca
a saudade a luz do sol indo embora
então pergunto
alguém sabe o que fica do outro
em nós mesmos
ou se é apenas o livro dos outros
agora em minhas mãos
onde começa onde termina
um e outro
sem saber pergunto
como agora
ao me vestir para falar
o sol o coração
a saudade que leio
no livro de um país
onde ainda nada esqueci.

*“O Livro dos outros – poemas dedicados à leitura” é a segunda publicação de poemas de Maíra Vasconcelos; a plaquete reúne oito poemas, editados pela Ofícios Terrestres, de Campinas (São Paulo). Para adquirir a plaquete e conhecer o catálogo da Ofícios: https://www.oficiosterrestres.com.br/produto/281000/o-livro-dos-outros-de-maira-vasconcelos

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