Usando verbo impessoal no plural, Witzel faz delação premiada na CPI, por Ricardo Mezavila

A CPI foi o palanque perfeito para que pudesse fazer uma espécie de 'delação premiada' com a história, apesar de não ter nenhuma credibilidade diante da opinião pública.

Ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Usando verbo impessoal no plural, Witzel faz delação premiada na CPI

por Ricardo Mezavila

O ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, afastado depois de passar por um processo de impeachment, foi convidado a depor no Senado, na CPI da pandemia, com vistas a colaborar na investigação sobre o destino das verbas federais enviadas aos estados e municípios. 

Witzel foi aliado de Bolsonaro de primeira hora, saiu do anonimato da magistratura onde atuava como juiz federal e se elegeu governador do Estado do Rio de Janeiro na onda do bolsonarismo. Estava no mesmo palanque em que o candidato a deputado, o extremista Daniel Silveira, quebrou uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco. 

Wilson Witzel criou o ‘mantra’ tiro na cabecinha, como estratégia de segurança pública no combate ao tráfico de drogas. Levou pânico quando sobrevoava uma favela em Angra dos Reis e disparos de fuzil foram feitos de dentro do helicóptero onde ele estava. Em suas redes sociais o governador publicou um vídeo de dentro da aeronave onde bradava, “vamos botar fim na bandidagem”. 

Apresentando-se como vítima de um estado de exceção que, segundo o ex-governador, teve início quando a polícia estabeleceu uma linha de investigação entre o assassinato de Marielle e pessoas próximas ao presidente da república, Witzel prometeu detalhar relações do clã Bolsonaro com a milícia se houver sessão secreta na CPI. 

Wilson Witzel perdeu o mandato e seus direitos políticos em agosto do ano passado. Desde então não conseguiu espaço na mídia para apresentar sua defesa. A CPI foi o palanque perfeito para que pudesse fazer uma espécie de ‘delação premiada’ com a história, apesar de não ter nenhuma credibilidade diante da opinião pública. 

O ex-governador escorregou no português ao tentar colocar o verbo haver, impessoal no sentido de existir, no plural; Depois tentou se escorar no caso Marielle para desviar seus crimes de corrupção durante sua gestão no governo, e cometeu blasfêmia ao comparar a sua suposta perseguição com o lawfare sofrido pelo ex-presidente Lula. 

Após afirmar que hospitais federais têm ‘dono’, de ter discutido com o senador Flávio Bolsonaro que foi ao plenário para intimidá-lo, de ter dito que Bolsonaro tem de ser julgado pelo Tribunal de Haia, Witzel deixou a CPI sem concluir o depoimento amparado por decisão do STF, e partiu com o peito estufado como um polichinelo de uma obra bufa de Mario Monicelli. 

Ricardo Mezavila, cientista político

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