Com Bolsonaro, acabou a valentia das corporações públicas

No auge da conspiração midiática contra Dilma Rousseff, entrevistei o ex-primeiro ministro espanhol, Felipe Gonzales. Indaguei-lhe sobre como enfrentava o que parecia um poder invencível dos grupos de mídia. Sua resposta foi objetiva:

– Não há nada mais forte que a caneta do presidente da República. Desde que ele saiba utilizar.

O “republicanismo” ingênuo do PT permitiu abusos da Polícia Federal, do Ministério Público Federal, da Procuradoria Geral da República, o aval do Supremo aos ataques à Constituição. 

O modelo democrático, o sistema de freios e contrapesos, conferiu ao Executivo poderes para enfrentar as conspirações corporativas de agentes do Estado, partindo da premissa de que é o representante do povo, o único poder eleito. Nem isso os governos petistas utilizaram para combater a conspiração. Bastava um adjetivo da mídia – “venezuelização”, “boliviarismo”, “cubanização” – para o governo recuar em medidas que seriam corriqueiras em qualquer país de democracia avançada.

Ora, a carreira de um burocrata depende fundamentalmente da caneta dos superiores. Não existe ninguém mais temeroso que o burocrata, a pessoa que depende de sistemas inflexível de promoção, submetido à hierarquização do setor público.

Quando o Executivo mostrou fraqueza, os valentes saíram da toca. No Distrito Federal e em outras praças, procuradores, delegados, funcionários públicos participaram de passeatas, gritaram palavras de ordem, levantaram cartazes, mostrando uma valentia incomum. Era o homem comum, o burocrata comum, saindo dos trilhos devido aos estímulos da mídia. Era o Ministro do Supremo deixando de lado dois séculos de discrição para cair no samba. Bastava o tamborim da mídia falar dos poemas de um, das frases de outro, do Iluminismo de um terceiro, para sairem de porta-estandarte de um bacanal anti-democrático.

Com o impeachment, tudo volta ao normal. Com Temer e, principalmente com Bolsonaro, o bonde volta aos trilhos. Intimoratos procuradores se escondem dos holofotes, delegados da PF jogam fora quatro décadas de construção de uma imagem profissional. E o aparato repressivo, quando não é cooptado, não encontra forças sequer para impedir genocídios contra a população brasileira.

Bastou a real politik de Bolsonaro, para COAF, TCU, MPF, PGR, PF, todas as siglas do que se prenunciava uma ditadura das corporações ir para o espaço.

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3 comentários

  1. Os governos Lula e Dilma foram verdadeiras mães para esses órgãos burocráticos de repressão, segurança, justiça , fiscalização e vigilância equipando-os, dando-lhes salários dignos, planos de carreira, acomodações decentes, orçamentos próprios e até mesmo legislações específicas. Os beneficiários diretos, entretanto, como filhos ingratos que chegam à adolescência, não só envergonharam seus pais como se envergonharam deles traindo-os. Do advogado de sindicato que chegou a ministro do supremo ao procuradorinho que trabalhava por dois salários mínimos, todos os concursados e nomeados cuspiram nos pratos generosos que lhes foram servidos porque seus benfeitores se esqueceram do principal: de exigir lealdade ou, mais especificamente de aparelhar os seus órgãos de sustentação.
    FHC deixou o funcionalismo de carreira nos braços das baratas, fazendo-o amargar 11 longos anos sem reajuste de salários, sem planos de carreira, sem locais dignos para o exercício de suas atividades, sem manutenção, sem estrutura e sem material de trabalho, para ao fim de seu governo dar-lhe um generoso reajuste de 1%. Não vemos ninguém falar mal de FHC, tampouco o nobre ex-governante teve até hoje qualquer arranhão na sua longa trajetória política após a “redemocratização”.
    Que os governos de esquerda aprendam a se aproveitar de suas obras em vida, para que em vida permaneçam.

  2. Concordo com o artigo, por isso mesmo que não desejo o Partido dos Trabalhadores outra vez.
    Ainda mais com o Lula ainda sujeito a possibilidades de “chantagem” por parte do judiciário capturado pelo neoliberalismo mais escroto do planeta.

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