A Apple, o custo humano dos nossos eletrônicos e o consumismo

Enviado por Dê

da Revista Fórum

A Apple e o custo humano dos nossos eletrônicos

Além da Apple, todas as empresas de eletroeletrônicos devem assumir a responsabilidade pelas condições de trabalho e impactos ambientais na fabricação de seus produtos – assim como todos os consumidores devem exigir que elas o façam

por Vinicius Gomes

“Queridos pai e mãe, como vocês estão? Me desculpem por não estar aí para cuidar de vocês. Vocês me perdoam? Eu pensei em cometer suicídio, eu pensei em pular do alto de um prédio, mas eu não tinha nem forças para subir até o topo”.

O texto acima está presente no documentário “Quem paga o preço? O Custo humano dos eletrônicos”, sendo uma parte do diário da jovem Long, uma chinesa de 18 anos que desenvoveu câncer ao ser diariamente exposta à neurotoxina N-Hexano, enquanto trabalhava em uma fábrica fornecedora de chips para empresas de eletroeletrônicos, smartphones e computadores.

Em 28 de dezembro de 2013, apesar dos maiores esforços de sua família para continuar pagando seu tratamento e medicação, Ming Kunpeng cometeu suicídio pulando do alto do prédio. Seu caso foi simbólico, mas não é raro (greenamerica.org)

Em 28 de dezembro de 2013, apesar dos maiores esforços de sua família para continuar pagando seu tratamento e medicação, Ming Kunpeng cometeu suicídio pulando do alto de um prédio. Seu caso foi simbólico, mas não é raro (greenamerica.org)

O curta de 10 minutos foi realizado pelos cineastas Heather White e Lynn Zhang a respeito dos perigos ocupacionais aos quais chineses encaram todos os dias trabalhando para a indústria dos eletrônicos na China – principalmente o envenenamento por compostos químicos tóxicos, sendo a benzina, a mais perigosa deles.

Os cineastas focam nos efeitos que esses compostos químicos têm sobre os milhões de trabalhadores a eles expostos enquanto atuam na fabricação de iPhones, iPads e diversos outros aparelhos eletrônicos que consumidores ao redor do planeta vieram a ser dependentes.

Diferente da jovem Long – que decidiu não por fim à própria vida -, Ming Kunpeng, 22, contraiu leucemia por trabalhar todos os dias com a cancerígena benzina, sem qualquer equipamento de proteção, na ASM Pacific Technology – uma fornecedora de chips para a norte-americana Apple. Após meses batalhando judicialmente para conseguir dinheiro para o tratamento, Ming pulou do topo do hospital, por conta da compensação ter sido insuficiente.

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Mais da metade da população mundial já tem acesso a um celular, por exemplo, e em sua grande maioria, são fabricados na China – assim como também são outros aparelhos eletrônicos. Considerando isso e, que a demanda por aparelhos cada vez mais baratos cresce, o custo humano para sua produção é um problema gigantesco que não pode ser ignorado, pois enquanto na maioria dos países consumidores a benzina é banida, na China ela não é proibida.  Além da benzina e do n-hexano, o tolueno – tóxico à reprodução – também é permitido.

O vergonhoso histórico da Apple

Em meados de 2013, a norte-americana Apple lançou um comercial chamado “Nossa Assinatura”, onde se vê pessoas usando produtos da empresa; seja ouvindo música, tirando fotos, enviando mensagens – enquanto ao fundo, junto de uma melodia suave, ouve-se “Isso é o que importa: a experiência de um produto […] Ele irá tornar a vida melhor?”.

O contraste das cenas de felizes consumidores da Apple no comercial de 1 minuto com as declarações dos trabalhadores chineses no curta de 09h31min é tão claro que, se não fosse pelo histórico da empresa norte-americana em suas relações sociais, econômicas e ambientais – que muito lembram as do século 19 -, poderia até ser argumentado que ela não tem culpa.

Criança trabalhando em uma mina de estanho na ilha de Bangka, Indonéisa (Reprodução)

Criança trabalhando em uma mina de estanho na ilha de Bangka, Indonésia (Reprodução)

No final do ano passado, o jornalista britânico George Monbiot descreveu o impactoda Apple e de outras empresas do setor, na ilha de Bangka, na Indonésia, onde o estanho – metal indispensável para a soldagem interna de smartphones – era extraído como se ali fosse “uma orgia de mineração sem regras”; devastando não apenas o frágil ecossistema local, como também utilizando crianças no trabalho, além de contabilizar a morte de um ao menos um mineiro a cada semana por acidente de trabalho.

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Outro caso notável de desprezo das empresas pelas condições na linha de produção de seus produtos, foi na ultra-exploração  do trabalho humano da Foxconn, sediada em Taiwan, onde trabalhadores cumpriam jornadas excessivas, de pelo menos 10 horas diárias, que se transformam facilmente em 15 ou 16 devido às horas-extras que acabam cumprindo. No expediente, era proibido conversar e os trabalhadores tinham direito a pausa de 10 minutos para ir ao banheiro a cada duas horas.

Quando a Foxconn teve, por exemplo, de responder aos exíguos prazos impostos pelo departamento comercial da Apple, as jornadas se estenderam, até compulsoriamente. “A demanda pelo primeiro iPad foi tão intensa que os trabalhadores afirmam que tiveram que trabalhar 7 dias por semana durante o pico de produção”, publicou o jornal britânico The Guardian.

Um outro caminho é possível

Nem os cineastas do documentário, nem George Monbiot, nem qualquer outra pessoa que tenha denunciado o desprezo pelas condições de trabalho e impactos ambientais na produção de eletroeletrônicos ao redor do planeta, querem dizer que tais aparelhos devam ser banidos e não mais utilizados.

As denúncias servem para informar aos consumidores sobre as condições desumanas e exploratórias às quais uma ponta da cadeia produtiva está submetida para que todos gozem dessas inovações tecnológicas e que, os consumidores – como a outra ponta da cadeia – exijam uma maior responsabilidade das empresas em suas produções.

Trabalhadores chineses descansando por cinco minutos na Foxconn, fornecedora da Apple

Trabalhadores chineses descansando por cinco minutos na Foxconn, fornecedora da Apple

O Secretariado Químico Internacional, uma organização sem fins lucrativos, baseada na Suécia, fornece às companhias, substitutos para químicos tóxicos em sua lista “Substitua Agora” – como o ciclohexano e o heptano, no lugar da benzina. Além de enumerar 626 compostos químicos perigosos para a saúde humana. Especialistas toxicológicos estimaram que as empresas de smartphones poderiam trocar a benzina com solventes mais seguros ao custo de 1 dólar por telefone. Um número extremamente irrisório para a proteção da vida de trabalhadores perto dos 37 bilhões em lucro da Apple, apenas em 2013.

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Outras alternativas poderiam ser naquele que foi chamado um “smartphone sem culpa”, o Fairphone – no qual um instituto holandês lançou um smartphone cuja produção não envolve não envolveria a extração predatória de materiais essenciais para os aparelhos em diversas partes do mundo, seja na ilha de Bangka, seja em Taiwan, seja no leste da República Democrática do Congo – região conflituosa clássica na mineração, onde a atuação de milícias armadas e exércitos estrangeiros controlam a retirada desses minérios.

Por fim, as empresas de eletrônicos devem assumir a responsabilidade pelas suas fábricas fornecedoras – não importa onde estejam no mundo – e cabe aos consumidores exigir que elas o façam.

Assine aqui a petição para a Apple acabar com o envenenamento de seus trabalhadores.

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6 comentários

  1. Muito bom o artigo ! Seria
    Muito bom o artigo ! Seria bom um dialogo sobre o agronegócio , pois moro no Piauí , e por esse estado ser uma das ultimas fronteira do agronegócio no pais ,vejo muita poluição e descaso com a preservação de mananciais , tudo em nome do agronegócio .

  2. Mas só eletro eletrônicas?

    Peraí, só as indústrias eletroeletrônicas? Dê só um motivo por que apenas elas? Se é para assumir estragos, que sejam tôdas, ou achas que tem umas mais boazinhas? Que tal ver os estragos das indústrias siderúrgicas e metalúrgicas – atenção, não sou contra elas, aliás, minha vida depende delas.

    • Evandro, o artigo não é meu,

      Evandro, o artigo não é meu, apenas trouxe para cá.  Mas concordo com vc…..não é só a Apple e bem sabemos disso.  

      Claro que devem haver denúncias…o ruim das mesmas é que, em grande parte,   são sempre usadas de forma a conspirar contra concorrentes diretos e até indiretos.  Só acho que precisamos entender que esse consumismo anda junto com o aumento do lixo e tantas outras sequelas, que vão ficando para trás.  Ao mesmo tempo, não sei como o mundo se “seguraria” dentro deste círculo, sem o consumo, que afinal gera empregos e faz a roda girar.  Teríamos que ter uma visão mais macro de tudo isso, se é que realmente queremos alguma mudança.  E, não pode ficar de fora, um olhar diferente para China. Afinal, estamos falando de um país beirando os 2bi…..e toda a complexidade que é gerir um país desta magnitude.   O problema é rever tudo isso nessa altura do campeonato.  

       

  3. Somos culpados principais

    Os culpados principais são os “ÁVIDOS CONSUMIDORES” pelos prudutos eletrônicos, maioria dos quais totalmente desnecessários. Vejo nos metrôs de SP, quase todos “enfiando a cara” nos seus telefones celulares, de modo  que não conseguem olhar para o lado.

    Sento ao lado de alguns deles e as variações são as mesmas:

    ! – olham fotos de si mesmo, acredito achando-se mais bonitos nas fotos que na realidade. As vezes repassam foto de familiares, namorados, filhos e amigos, sem cessar, fotos esta já vistas provavelmente uma centenas de vezes.

    2. jogam algum video game de nível baixo (os mais jovens)

    3, Mandam mensagem pelo MSN para todo os lados, com uma dificuldade enorme, pois a maioria não sabe sequer escrever. Neste caso o  ponto positivo é que pódem aprender  e treinar a escrita.

    Se o cel fone for para este fim, estamos loucos.

    E o principal, ligado ao assunto, trocam de bugiganga a cada ano no máximo, pois a anterior ficou defazada ou velha (????), sem nenhuma necessidade. E a APPLE, Microsoft, Nokia, LG, etc agradecem imensamente, pois estão ficando cada vez mais ricos e asiáticos mais doentes, devido a fabricação dos produtos..  

  4. quem compra apple tem que ser meio otário

    acha que porque pode pagar mais do que o aparelho vale, e isso o faz sentir-se superior aos demais que compram um aparelho equivalente, com assistência técnica e preço mais barato.

  5. Meu smartphone vai morrer de velho
    Concordo em tese com o comentário de Evandro Lima no sentido de que os eletrônicos de comunicação não são os únicos produtos com problemas ambientais e de saúde pública sérios em sua cadeia produtiva. Porém acho muito interessante que estes sejam escolhidos como foco na divulgação destas questões, por duas razões. Primeiro por que são ícones da sociedade de consumo cujo charme encanta uma proporção imensa das pessoas mundo afora, o que torna o efeito conscientizante potencial da discussão enorme e capaz de se desdobrar em uma visão crítica muito mais ampla – em termos setoriais e geográficos – dos hábitos de consumo. Segundo por que são produtos finais de uma longa cadeia produtiva que envolve não só numerosas e globalizadas atividades intermediárias como setores emblemáticos das distorções socioambientais do sistema econômico geradas pelo fundamentalismo mercadista, a exemplo da mineração descontrolada e das gigantescas e semi-escravistas linhas de produção industriais asiáticas.

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