A “pegadinha” do movimento contra direitos das pessoas com deficiência, por Fernando Brito

Do Tijolaço

 
Fernando Brito

 

A D. Mirella Prosdócimo, presidente do Conselho Municipal de Pessoas com Deficiência de Curitiba, assumiu que o tal “Movimento pela Reforma de Direitos”, que pregava a redução dos direitos das pessoas “deficientes” era uma “pegadinha” para chamar atenção sobre o tema.

Por conta de ser uma mulher, retiro o “fdp” que destinei aos criadores deste troço.

Mas não os demais conceitos deprimentes que usei.

Não se faz propaganda desonesta, nem com uma suposta “melhor das intenções”.

Tiro o exemplo da campanha que D. Mirella conduziu, algum tempo atrás, que explorava, sem ofender ninguém, a reação de quem ocupava as vagas reservadas ao veículos de pessoas com deficiência ao verem uma cadeira de rodas em suas vagas.

O slogan era ” Esta vaga não é sua nem por um minuto!”

Pois é, D. Mirella: agressão a pessoas com deficiência não é boa nem por um minuto. Nem de “brincadeirinha”.

Muito menos iludir a boa-fé de quem, sinceramente e com emoção, as defende.

Veja como a “brilhante ideia” feriu e magoou as pessoas que são solidárias e respeitosas com seus irmãos que portam deficiências. A campanha mobilizou, sim, mas mobilizou quem já respeitava estas pessoas ao ponto de se indignarem.

Já vivi a experiência de ter um ente queridíssimo, por ter um leve transtorno de desenvolvimento, ser recusado em duas escolas. Engolir o sentimento de injustiça e desumanidade já foi duro. Ver alguém brincar com ele é além do suportável.

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Conto, se a senhora não conhece, uma historinha que se contava às crianças, antigamente, para ensinar-lhes como a mentira, feita para atrair a solidariedade alheia, acaba em desastre.

Os mais velhos se lembram: um menino, numa pequena aldeia, saía à noite e gritava: “lobo, lobo,lobo!”. E os habitantes da aldeia levantavam-se de suas camas e corriam a ajudar o menino. Não havia lobo algum e a brincadeira se repetiu algumas vezes. Uma noite, porém, os gritos não eram falsos: “lobo, lobo, lobo!”.

E como já ninguém cria no menino, ele foi devorado.

Espero que não surja, agora, um movimento de gente má, ruim, egoísta – e se não houvesse não precisaria de propaganda, não é, D. Mirella? – que ache mesmo que está demais termos  vaga, cota ou gratuidade para pessoas com deficiência.

As pessoas que lhes são solidárias, desconfiadas das “pegadinhas”, não vão mais acorrer aos gritos de “lobo, lobo, lobo!”

Quando as pessoas de bem, afinal, acham bonito ter “a ousadia dos canalhas”, acanalham-se também.

PS. Como gosto de publicidade e de publicidade de qualidade, onde se mexe para o bem com os sentimentos, coloco aí embaixo o comercial da Edeka, rede de supermercados alemã. que em três dias teve mais de 12 milhões de visualizações. O tema é pesado, a execução do filme tensa e a mensagem, comovente. Aprendam aí…

 

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3 comentários

  1. Também não gostei

    Achei uma brincadeira de muito mau gosto, ao estilo das pegadinhas de Sílvio Santos. Serviu apenas para mostrar o quanto as pessoas que a apoiaram eram estúpidas (e não faltou gente para isso).

    Ademais, não é lá muito ético “mentir com boas intenções”.

  2. O Momento Também Não Nos Parece Conveniente…

    Houve pessoas, caso de Rose, ativista e mãe de criança com necessidades especiais (especial, todas o são!), que mostrou toda a indignação, pensando tratar-se de mais um ataque dos lobotomizados direitosos; avisamo-la de ser uma propaganda viral (Sic!). O Momento, quando toda a humanidade sofre um surto de direitite aguda, patrocinada por Neo-Roma Stadunidensis, não parece ser dos mais convenientes; diria à “Dona” Prosdócimo que a ideia não foi nenhuma Brastemp!

  3. Sem contar que ainda deu

    Sem contar que ainda deu oportunidade para os canalhas que REALMENTE acham que deficientes têm “privilégios” se manifestarem (a página do movimento fictício já tinha mais de 3 mil curtidas).

    A campanha foi uma agressão aos próprios deficientes. E o seu objetivo fracassou: a discussão que está sendo levantada não se trata do desrespeito aos deficientes, mas da ÉTICA na publicidade. É quando o apresentador quer ser, ele próprio, a notícia.

    Foi de uma irresponsabilidade imensa.

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