Islam Hamed e a Palestina sitiada

Jornal GGN – Um jovem palestino filho de uma brasileira está morrendo de fome em um presídio na cidade de Nablus, na Cisjordânia. Quase seis meses depois de o Tribunal de Justiça Palestino emitir um ofício afirmando que a prisão de Islam Hamed é ilegal e exigindo sua soltura, ele continua atrás das grades. Inconformado, ele está em greve de fome há 35 dias.

Visão interna do presídio em Nablus, onde Islam Hamed está detido Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

O rapaz, natural de Jerusalém, morador de Silwad, passou a vida em território palestino ocupado por Israel. Foi preso a primeira vez pela autoridade israelense quando tinha 17 anos, acusado de jogar pedras nos soldados nos postos de controle. Desde então, nunca mais gozou de plena liberdade.

Israel dispõe de um instrumento extralegal nos territórios ocupados chamado “prisão administrativa”. Na prática, com a alegação de risco à segurança, qualquer um pode ser preso sem acusação formal, sem acesso a advogado e sem julgamento, por períodos renováveis de seis meses.

De seis em seis meses, Islam já está com 30 anos de idade. Passou quase metade da vida na cadeia. No cárcere, ele se filiou ao Hamas, partido político tratado por Israel como grupo terrorista.

Islam Hamed com o filho Khattab Foto: Reprodução

Dessa vez, ele está sendo mantido aprisionado pela autoridade palestina. Mas com a justificativa de que se for solto, será preso novamente ou até morto por Israel.

“A autoridade prendeu o Islam Hamed e eles dariam a soltura dele desde que a família garantisse a sua segurança. Como é que uma pessoa comum, em um território ocupado, pode garantir a segurança de alguém se a própria autoridade não garante?”, questionou Fabio Bosco, membro da Frente em Defesa do Povo Palestino e da delegação brasileira que partiu em missão humanitária a Gaza.

Por isso, a família tenta trazê-lo para o Brasil. A mãe dele, Nadia Hamed, nasceu em Catanduva, interior de São Paulo. Ele tem passaporte brasileiro, tem cidadania. A dificuldade é conseguir sair de uma prisão palestina em um território ocupado por Israel, chegar com segurança até a Jordânia – porque palestinos não podem entrar em Tel Aviv – e pegar um avião para o Brasil.

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Nadia Hamed nasceu em Catanduva, no interior de São Paulo Foto: Reprodução

Os apelos estão com o Itamaraty, que alega estar realizando reuniões de “alto nível” para viabilizar a soltura e repatriação. Também já chegaram ao Gabinete Regional da Presidência da República, onde foi protocolado um manifesto com a assinatura de diversas entidades. Mas o tempo está se esgotando.

Desesperada, sem saber a quem mais recorrer, a delegação foi ao gabinete do secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy. Ele pediu ao grupo uma carta, relatando o fato, que ele encaminharia à Presidência da República e ao embaixador Sérgio Danese, secretário-geral das Relações Exteriores. A intenção é fazer pressão no governo e nesse ponto uma figura pública com o capital político do ex-senador pode ajudar.

A delegação brasileira em missão a Gaza buscou a ajuda do secretário de Direitos Humanos de São Paulo, Eduardo Suplicy Foto: Divulgação

Depois da decisão da Justiça, a Palestina lavou as mãos, diz que o caso agora depende de Israel. O embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, diz que as negociações estão avançando. “Em primeiro lugar, a resposta de Israel era negativa, agora Israel promete estudar o caso. Estamos tratando o máximo possível, sabendo muito bem que a solução está nas mãos de Israel”, explicou há alguns dias para a EBC.

Só que Islam já foi iludido antes pela promessa de liberdade. Em 2013, os policiais palestinos chamaram a família e disseram que autorizariam sua viagem para o Brasil. Nádia Hamed foi ao consulado e conseguiu providenciar todos os documentos para que o ele pudesse viajar com a esposa (com quem se casou em um breve período de liberdade) e o filho. Os responsáveis por ele na prisão fizeram crer que ele estaria livre em dois dias, depois três, depois uma semana. E ele está preso até hoje.

O passaporte brasileiro de Islam Hamed representa apenas um sonho de liberdade Foto: Reprodução

Com a ajuda do governo brasileiro, Khattab Islam Hamed pode ter uma vida diferente do pai Foto: Reprodução

Procurada, a família de Islam Hamed no Brasil não quis aprofundar o assunto. “Nós confiamos na capacidade do governo brasileiro negociar com Israel e com a Palestina para encontrar a melhor solução para esse caso”, disse a prima dele, Aline Baker.

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Estado de exceção

https://www.youtube.com/watch?v=s7JJv8hbfbo&feature=youtu.be width:700 height:394

Quinze brasileiros (apenas três deles de descendência árabe) se encontraram na Jordânia no dia 31 de março e desceram juntos até a fronteira com a Palestina. A intenção era entrar no país ocupado e seguir em missão humanitária até a Faixa de Gaza.

Mas ainda no início da viagem, na fronteira da Jordânia com a Palestina, eles já começaram a ser reprimidos. O checkpoint israelense estava vazio, e mesmo assim eles esperaram por mais de cinco horas até conseguirem o visto. Os que conseguiram. Três deles, aqueles de descendência árabe, tiveram mais dificuldade. Os dois com sobrenomes árabes paternos, Soraya Misleh e Mohamad Kadri, foram barrados na fronteira.

O território palestino é ocupado por Israel, que tem postos de controle em áreas estratégicas Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Com a alegação de risco à segurança nacional eles foram impedidos de entrar em Israel durante cinco anos. Note-se, proibidos de entrar em Israel, não na Palestina.

“Eu não sou terrorista, eu não sou ameaça à segurança de ninguém. Eu tenho direito de reunificação familiar”, prostestou Soraya Misleh. “Intimidação, interrogatório, humilhação, situação vexatória, revista íntima, todo brasileiro-árabe passa por isso quando vai visitar os familiares. No caso da missão foi pior porque eles estavam avisados pelo governo brasileiro, eles tinham lista de nomes, números de passaporte, e não avisaram antes que seria negada a entrada”, disse.

Uma terceira descendente árabe que participava da missão teve o acesso liberado depois de esclarecer que não tinha mais família viva no país.

Muros cercam toda a extensão da Palestina Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Assim, a delegação foi desfalcada, mas seguiu em frente. O objetivo era Gaza. Só que a cidade mais vulnerável do Oriente Médio está a uma grande distância da entrada para palestinos da Palestina. E a missão só teve o acesso liberado à zona de confronto depois que já estava de volta ao Brasil.

“Uma vez que entramos, fizemos o que foi possível. Visitamos prisioneiros, ex-prisioneiros, visitamos o Vale do Jordão, onde constatamos o roubo da água do Rio Jordão para privilegiar somente os assentamentos dos colonos israelenses. A gente viu isso in loco. Nos reunimos com organizações palestinas da sociedade civil. Visitamos os bairros árabes de Jerusalém, onde a prefeitura está promovendo desapropriação das casas dos árabes. Situação totalmente conflituosa”, resumiu Fabio Bosco.

“Visitamos também a cidade de Hebrom, que tem assentamentos israelenses no meio da cidade palestina e até sobre as casas, de modo que uma ONG colocou uma rede para evitar que o lixo israelense atinja as cabeças dos palestinos”, lembrou. 

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Em Hebrom, ONG instalou uma rede para evitar que o lixo israelense atinja as cabeças dos palestinos Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

“Tem mais ou menos 400 famílias de israelenses colonos nessa cidade. E tem milhares de soldados para proteger essas 400 famílias, postos de controle nas colinas, você olha pra cima e vê tudo. Dentro dos bairros tem postos de controle militar. Tem catracas como de trem separando uma área da cidade da outra. A todo o momento é uma tensão”.

O direito de ir e vir de cidadãos árabes depende da autorização israelense Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Os condomínios de alto luxo dos colonos israelense são uma visão próxima, mas distante Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Bosco viu o lado feio do conflito, o lado mais fraco, mais vulnerável. “Existe uma situação que quem entra por Israel, não enxerga. É muito doloroso ir à Cisjordânia e conviver com os palestinos com o olhar dos palestinos. Se você for turista, com um pacote para a Terra Santa, você passa direto por ali, de ônibus. Mas se você é palestino, você é obrigado a descer e passar pelo posto de controle”. 

No território ocupado confrontos dos jovens árabes com os soldados israelenses são frequentes Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Eles cobrem os rostos para evitar represálias, mas o risco de serem capturados e presos é real e constante Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

Os manifestantes enfrentam os soldados israelenses com paus e pedras Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

 Os soldados israelenses respondem com bombas de efeito moral e às vezes com munição letal Foto: Delegação brasileira em missão humanitária a Gaza

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6 comentários

  1. Missão Humanitária para uma pessoa?

    Já faz 3 semanas que o assunto mais importante na Palestina na mídia brasileiro é o palestino-brasileiro que foi preso por Israel e pela Palestina. Faz desde os 17 anos que ele causou prolbemas dos dois lados e por isso foi preso. E agora há uma missão “humanitaria” para soltar alguem que deve causar problema caso venha para o Brasil. O conflito no israelense-palestino parece que foi rezumido a uma pessoa e usado para interesses políticos e individuais e um grupo pequeno de pessoas usa milhões de palestinos para interesses pessoais e partidarios. Por isso que o conflito continua e dá ibope e votos no outro lado distante do mundo.

  2. Chatice diplomática

        Estas “missões humanitárias” são um PORRE , ainda mais quando se defrontam com Israel x Palestinos, nunca dão certo, historicamente o Estado de Israel pouco ou nada se importa com elas, aliás as usa em sua politica interna, Netaniahu é um especilaista nisto, e independente da nacionalidade dos “missioneiros” , até com americanos eles já se estranharam, europeus até mataram.

        Nestes casos “pequenos” ( uma pessoa, ou uma familia ), eles até atrapalham as gestões dos diplomatas, que sempre, no caso de Israel, são realizadas na “surdina”, sem publicidade – atitude constante no OM, inclusive com os paises arabes, como no caso do jornalista saudita condenado as chibatadas, movimentos internacionais, missioneiros, intelectuais escrevendo, para eles pouco importa, só os reforça internamente.

         E o governo palestino da Cisjordania ( Fatah ), é apenas uma provincia ocupada  e dependente de Israel, negociar com Ramalah é inutil, a negociação diplomática tem que ser com Tel Aviv e Jerusalem – resumindo, com os israelenses, e missioneiros não possuem este canal.

  3. Observação.

    Fiquei impressionada com essa história.

    Apenas um detalhe: o passaporte do filho encontra-se vencido e o do pai vence em julho próximo.

    Será permitido aos dois ingressar no nosso país, caso ocorra posteriormente a essa última data?

    Esse “detalhe’ será ultrapassado, dentro das circunstâncias que cercam o caso?

     

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