Aluno do ITA fala sobre homofobia e explica as motivações para seu protesto

 
Jornal GGN – Talles de Oliveira Faria, aluno do Instituto Tecnológica de Aeronáutica (ITA) – instituição de ensino superior ligada às Forças Armadas – realizou um protesto durante sua colação de grau, onde subiu ao palco de vestido com mensagens de protesto à violência contra a comunidade LGBT. 
 
Em postagem realizada nas redes sociais, Oliveira fala sobre a homofobia dentro do ITA e da Força Aérea. “A Aeronáutica não é homofóbica mas todos os meus amigos LGBTs morriam de medo que alguém os descobrisse e os desligasse”, afirma. 
 
“Senti como a homofobia acontece nas Forças Armadas através da invisibilidade, da chacota e da expulsão daqueles que ousam se abrir em relação a sua orientação sexual. Assim, se passam os anos e os homossexuais lá presentes precisam levar uma vida marginalizada e escondida para que não o descubram e o eliminem”, conta o aluno.

 
Tales diz que, em razão da perseguição por sua orientação sexual, teve de se desligar da carreira militar, pela qual recebia o salário de R$ 6.000, para não ser expulso da faculdade. “Tive que deixar de ser militar porque só me deram essa alternativa. Ou pedia o desligamento da Aeronáutica, ou iam me expulsar do ITA e da FAB”.
 
Leia o relato completo abaixo;
 
Por Talles de Oliveira Faria
 
 
Desde os 12 anos, eu sempre ouvi coisas maravilhosas sobre o ITA. Sobre ser a melhor universidade do país, a possibilidade de receber dinheiro durante a graduação, a quantidade de oportunidades que se abriam ao fazer essa faculdade. O ITA era meu grande sonho. Mal sabia que seria a maior decepção de minha vida. 
 
Durante o ensino médio estudei numa escola militar da Aeronáutica (EPCAR) e já fui para lá com muito medo que descobrissem sobre minha orientação sexual, expulsassem-me e que minha família, que na época não sabia, descobrisse que havia sido expulso devido a minha orientação sexual. Seria uma grande tragédia, já que na época sentia vergonha por ser LGBT.
 
Eu não conhecia nenhum regulamento da aeronáutica e não precisava para saber que era um ambiente homofóbico. Desde pequeno as pessoas nos ensinam que ser LGBT é vergonhoso e levamos muito tempo para superar essas feridas.
 
Senti como a homofobia acontece nas Forças Armadas através da invisibilidade, da chacota e da expulsão daqueles que ousam se abrir em relação a sua orientação sexual. Assim, se passam os anos e os homossexuais lá presentes precisam levar uma vida marginalizada e escondida para que não o descubram e o eliminem. Invisíveis, vivem suas vidas. 
 
Cheguei no ITA e decidi que pra mim bastava. Aceitem-me como sou ou sejam expostos pelo que vocês são. Não me aceitaram, violentaram-me, riram de mim, tentaram me tornar invisível. Que a exposição os mudem porque eu vou continuar me amando e me fazendo muito presente mundo afora. 
 
Ainda assim é muito difícil para muitas pessoas enxergarem as Forças Armadas como uma instituição homofóbica. Para elas, vamos mostrar o seguinte tutorial sobre ser LGBT nas FFAA:
 
Tópico 1.
A Aeronáutica não é homofóbica, mas não tinha nenhum LGBT assumido em toda a EPCAR quando entrei em 2009. Mais de 900 alunos, nenhum LGBT. Todos os meninos falavam apenas de garotas e se apaixonavam apenas por garotas. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas faziam piadas com os estudantes mais efeminados. Ser efeminado é ser viado e ser viado é ser piada. Ninguém quer ser piada, ninguém quer ser LBGT.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas em todas as escolas militares sabíamos do caso do aluno homossexual da escola da Marinha. Motivo de piadas por anos.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas um certo professor militar de um certo cursinho elitista aí é conhecido por todos os alunos por seus discursos de ódio contra LGBTs em suas aulas.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas seria o fim das FFAA quando fosse criado um coletivo LGBT na AFA (Academia da Força Aérea).
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas os instrutores e militares em posições de poder desejam boas férias com as namoradas, fazem piadas com puteiros e quando citam homossexuais é pra debochar e dizer que “chave com chave não abre porta”.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas existe professor que para explicar transistores é preciso falar que tem transitor macho e transistor fêmea e que não existe meio termo. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas “não existe elétron triste, não tem elétron com problemas psicológicos, não tem elétron gay”, disse certo professor. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica mas todos os meus amigos LGBTs morriam de medo que alguém os descobrisse e os desligasse.
 
A Aeronáutica não é homofóbica mas quando descobriram que dois amigos meus estavam namorando na EPCAR tiraram um deles do Código de Honra e começaram a perseguir o outro com punições. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica mas quando os alunos LGBTs foram descobertos, os discursos de ódio saíram do armário. Amigos se afastaram, viraram as costas. Esse sentimento é terrível, perder alguém que você se importa e que você achava que se importava com você por causa de sua orientação sexual.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas durante formatura militar “Vocês sabem onde está fulano (LBGT assumido)? Deve estar chupando pau por aí.” Todos riem. Denunciamos. Ninguém ouviu nada. Caso encerrado. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas faziam piadas e imitavam os trejeitos e as vozes do nosso comandante por que achavam que ele era viado. 
 
Se era, ninguém sabia, continuaria invisível e piada, mas a aeronáutica não é homofóbica. 
 
Heterossexual é exposto, é divertido, é público, é o decoro da classe, é a moral e são os bons costumes.
 
Homossexual é vergonhoso, deve ficar escondido e só ser mencionado para ser piada. Homossexual é depravado, é nojento, é desrespeitoso. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas quando os cadetes da AFA ficaram sabendo que tinha homossexual assumindo-se, prometeram desligar todos. “Vou fazer pedir pra ir embora. Aqui não tem viado. Vai pagar flexão até pedir pra ir embora.”. E isso aconteceu.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas quando homossexuais assumidos ousaram ir para a AFA, foram perseguidos por cadetes escolhidos para serem “Líderes”. Ouviram “eu sei que você é viado e vou fazer você pedir desligamento.”
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas nosso amigo, cadete mais antigo da AFA, o qual também não era assumido, prometeu que tentaria não deixar que outros cadetes perseguissem nosso amigo LGBT assumido que ousou ir pra AFA.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas pintar cabelo é coisa de mulher. Escureça esse cabelo e se apresente amanhã. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas só vamos permitir que Aspirantes deixem de ser Aspirantes no ITA quando forem viados. Ao menos, o primeiro caso.
 
A Aeronáutica não é homofóbica, mas usar maquiagem é coisa de mulher. 
 
A Aeronáutica não é homofóbica mas quando você é viado, você tem que ser perfeito: voz grossa pra ser respeitado, sem trejeito, as maiores notas, o melhor físico, nunca falar de homem ou agir de forma descontraída. Nunca falar sobre sua sexualidade. Você pode ser viado desde que nunca aja como um. Pode ser viado mas tem que ser como se fosse hétero. O padrão militar é hétero, mas a Aeronáutica não é homofóbica. 
 
Estou farto dessa hipocrisia, dessa violência, dessa gente de bem que deita na cama e não tem consciência do ódio que propaga e das vidas que destrói. Estou farto das piadas, estou farto da invisibilidade, da violência, de tudo. 
 
Agora, se você ainda acha que não havia motivos para minha manifestação e que meus motivos não são válidos, volte ao tópico 1.

 

Redação

11 Comentários

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  1. Parabéns ao jovem pela

    Parabéns ao jovem pela coragem.

    Tem que ser muito macho para ter a atitude que teve dentro daquele ambiente hostil à causa.

    Acredito que no seu íntimo, deve ter alguns Brigadeiros felizes pela coragem, atitude, e postura do rapaz.

    Dizendo para si ” Ufa ! até que enfim, estou aliviado, não aguentava mais suportar essa pressão”

    Só os “loucos” transformam o mundo. Os pacíficos assistem e bate palmas. Ou não.

    1. Não precisa ser “macho” não,
      Não precisa ser “macho” não, pois assim vamos perpetuando a ideia que só o que é ligado ao masculino é forte. Sei que em suas palavras não houve a intenção do dano, mas acredite que também nos ofende. Não queremos ser mais mais ou menos machos, queremos ser nós mesmos.

  2. A maioria dos homofóbicos não

    A maioria dos homofóbicos não tem, verdade seja dita, ódio aos homossexuais, em geral.

    Odeiam apenas aqueles que se assumem como tais.

    E odeiam não a condição de homossexuais dos outros, mas a coragem que tiveram de assumi-la.

    Provavelmente porque, quase sempre, eles mesmos não a tem. E se os que tiveram a coragem de assumir, não o tivessem feito, eles poderiam continuar a levar sua vida escondida, sem grandes problemas de consciência.

  3. Tem que ser humano na melhor acepção da palavra

    Parabéns Tales, você não foi macho, não foi homem, foi humano, revelou o sentimento a dor de quem sofre calado tantas humilhações, enquanto a sociedade e alguns estúpidos exaltam “bolsonaros” da vida, parabéns, lavou a alma, a mente e os corações daqueles que como voce gritam no deserto, tomara que seja ouvido, tomara que alguma coisa mude, mas se não mudar, esses estúpidos com certeza hoje se envergonham de serem tratados como gente, você é especial, é humando de verdade é consciente, sensível, seja assim pra sempre humano, não deixe de acreditar na humanidade.

  4. A pessoa tem que ter muita coragem!

    Pra tomar uma atitude dessas a pessoa tem que ter muita coragem! Ir contra a maré, afrontar não só o senso comum mas também preconceitos num dos locais onde eles são mais enraizados, isso requer muita coragem. Esse tipo de atitude não é para os fracos!

  5. O caso do ITA

    Tudo tudo que esse rapaz falou é sabido nas instituições Militares, uma coisa que não entendo por que os carsa vão para essas insttuições ??? Para provar algo para alguém para eles mesmos ???

    Não pelo sentimento de agredir a sociedade, a instiuição ou para ficarem mais perto de outros homens por desejo.

    Fui ou ainda sou militar entenndo que as FAA  não é lugar para gays, sim eles podem mas acho que não devem mas o sentimento de agressão da questão mau resolvida faz com que els se joguem nessa aventura.

    Desrespeitando regras de anos e anos, criado polemicas e por um momento de fama querendo quebras paradigmas que não devem ser quebrados, e assim e pronto.

    Vaiser um estilista, um designer sei la eu o que, que use de sua maior sensibilidade, não ser milico porra, quem planta vento colhe tempestade, disse um militar quem faz a guerra conta seus mortos queres mudar o sistema vai sofrer isso é fato.

    Já trabalhei com alguns gays e invariavelmente tive problemas com suas posturas profissionais, o caras querem mudar o mundo ou mudar o chefe ou mudar uma instituição lamentavel a experiencia desse rapaz o ITA ai continuar o tempo vai passar e ele não chegou a lugar nenhum so espero que não seja Gaucho aha aha aha ah 

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