Lembrar Jacques Hamel, por Daniel Afonso da Silva

Lembrar Jacques Hamel

por Daniel Afonso da Silva

Jacques Hamel era um senhor de 86 anos. Sua razão para viver era a sua fé. Ele era católico praticante profissional. Ele era padre e exercia o seu sacerdócio em Saint-Étienne-du Rouvray – interior da França, região da Normandia.

Além de cristão, ele fora recruta francês na guerra da Argélia. Na juventude, ele seguia o comunismo. Na vida adulta, ele virou um pouco socialista. Depois de tempos, ele virou um exato erudito.

Discreto. Sabedor das rugas da alma humana. Guardião de vastas culturas. Conhecedor das angústias dos povos. Mediador de todas as crenças. Contemporizador de toda fé.

26 de julho de 2016.

Ele exercia a sua função. Celebrava uma missa. Eram pouco mais ou menos 9h. O evento seguia para o fim. Ele ministrava o último sermão. Os últimos movimentos. As últimas saudações. Quando os meliantes chegaram.

Eram poucos. Dois apenas. Eram jovens. Nem vinte anos vividos direito tinham. Além de francamente medíocres, revelaram-se amplamente cretinos, sádicos, perversos, radicais. Suas qualidades desviantes eram do conhecimento da polícia. Eles se diziam seguidores de Alá. Mas exaltavam a jihad do Estado Islâmico.

Havia vários meses que eles eram monitorados. Mas não se esperava que tivessem a audácia para agir. O caráter consolidado para matar. O desapego suficiente para riscar morrer.

Pois esses bastardos invadiram a igreja do padre Jacques Hamel naquela manhã estival e a tomaram de assalto. Tudo em nome do horror. Tudo a mando do terror.

À força de querer se notabilizar, resolveram terrorizar.

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Seu intuito era barbarizar. Desmoralizar. Humilhar.

Ao velho padre desferiram o mais genuíno despudor. Um dos indigentes mirou uma faca em seu pescoço. Outro a direcionou ao seu peitoral.

Ao servo da Santa Sé restou invocar sua fé. Sem sucesso, conclamou os bandidos a alguma razão. Fora já de sua razão, rogou que eventuais demônios desabrigassem aquelas mentes imberbes em corpos juvenis. Mas nada adiantou. Os visitantes estavam imantados em ódio, raiva, ofensa, repúdio.

O alvoroço começou a ser notado fora da igreja. Um dos fiéis conseguiu escapar. Era uma freira. Mesmo chocada, chamou o povo para ajudar. Não demorou a força de ordem chegar. Mas era tarde. O padre Jacques Hamel havia sido perfurado de modo fatal. Uma lâmina mortal havia ultrapassado a sua glote. Jacques Hamel já jazia entre nós.

Em poucas horas, o macabro espetáculo ganhou dimensão nacional. O presidente da República, François Hollande, interrompeu suas férias para ganhar Saint-Étienne-du Rouvray. Diversos de seus oficiais fizeram o mesmo. Todos acompanhados da imprensa. No início, regional. Depois, a europeia. Em seguida, a mundial.

O terrorismo fizera reféns as 28 mil almas da pacata Saint-Étienne-du Rouvray. Não bastasse os contratempos do cotidiano, agora esse cancro internacional interiorizado.

O próximo desafio era voltar ao comum. Ao anonimato. Ao silêncio.

Muitos, ali, diante do corpo e da memória do velho santo padre, estavam cientes que muito disso não retomaria jamais.

Um ano depois, essa ciência ganhou ares de verdade. O trauma dessa gente virou maior que a sua própria dor.

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Um ano depois, o presidente da República, Emmanuel Macron, foi a Saint-Étienne-du Rouvray. Queria lembrar Jacques Hamel.

Uma missa especial foi celebrada.

Uma cerimônia ecumênica foi organizada.

Uma ode ao perdão foi realizada.

Faz bem lembrar Jacques Hamel. E não apenas aos franceses.

O infortúnio que levou o velho padre está longe de ser exclusivo deles. A faca que perfurou Jacques Hamel atingiu cada um de nós.

 

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1 comentário

  1. E?

    Qual é a importância disto na realidade francesa, brasileira e mundial? Dois assassinos entraram numa igreja e mataram um padre há um ano.

    Aqui nos campos brasileiros se matam religiosos e militantes da pastoral da terra nem por isto falam alguma coisa na França.

    Mais um daqueles artigos que tem vontade de trazer para a nossa realidade problemas gerados pelos conflitos entre colonizados e colonizadores e executados por meros assassinos.

    Atualmente discussões como estas na França não é o forte, a discussão é a modificação da CLT deles, a diminuição do imposto dos ricos, a fraude fiscal e outros problemas típicos de regimes neo-liberais.

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