Moradores querem evitar ‘militarização’ do cotidiano na Maré

Por Alfeu Esf
 
da BBC Brasil
 
 
Em meio a um clima de tensão e expectativa, os moradores do Complexo da Maré, conjunto de favelas que é ocupado pelo Exército neste sábado no Rio de Janeiro, querem evitar o que classificam como “erros e excessos” cometidos em operações semelhantes no passado. Além de denunciar abusos, eles se mostram contrários à militarização do cotidiano na região, que ficará sob controle das Forças Armadas por no mínimo quatro meses.
 
Às vésperas da chegada de 2,7 mil homens ao Complexo (entre Exército, Marinha e Polícia Militar), os líderes das 16 associações de moradores juntaram-se às diversas organizações baseadas na Maré e convidaram o secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, para uma reunião sobre o futuro da comunidade – que ao final do processo de ocupação deve passar a integrar o sistema de UPPs.
 
Em entrevista à BBC Brasil, lideranças locais relataram que apesar da expectativa de melhoras, o medo e a desconfiança dominam o clima na região e que os residentes da Maré se assustam com experiências passadas, tanto em incursões da polícia na própria comunidade como em operações militares que levaram à pacificação de outras favelas do Rio.
 
“Os moradores querem garantias de vida, eles se preocupam com o histórico de mortes e abusos, como na ocupação do Complexo do Alemão (que teve quase 20 mortos), em 2010”, explica Mário Simão, um dos diretores do Observatório das Favelas, organização baseada na Maré, criada 13 anos atrás.

 
Ele diz que a comunidade rejeita a ideia de que as regras passem a ser ditadas pelos militares e pela polícia e que os moradores querem ser tratados como cidadãos e não como inimigos de guerra.
 
“Sai a força do tráfico e chega a força do Estado, e como vamos regularizar a favela? Não cabe ao Exército ou à UPP dizer se vai ter baile funk ou não, invadir as casas das pessoas como se não tivessem direitos, mudar as regras dos mototáxis. Eles não poderão decidir essas coisas sozinhos, de cima para baixo”, complementa.
 
Preocupação
 
Alexandre Ciconello, assessor de Direitos Humanos da Anistia Internacional, que mantém longa atuação na Maré, explica que a militarização se traduz na abordagem diária aos moradores, que tende a ser truculenta; na criação de uma lógica de autorizações, em que a comunidade passa a depender da aprovação dos militares para fazer coisas que eram parte de sua rotina; e na sistematização de revistas de casas e pessoas – o que pode levar à revolta dos residentes locais.
 
“Muitos presidentes de associações de moradores são desrespeitados nesse processo, não têm seu papel reconhecido. São figuras que têm legitimidade, foram eleitas pela comunidade. A abordagem a crianças e adolescentes também tende a ser problemática e se percebidas como abusivas levam ao descrédito, revolta e até ações de vingança”, diz.
 
Para a Redes de Desenvolvimento da Maré, ONG que atua há 20 anos no Complexo e conta com moradores entre os líderes, a mobilização política atual é um forte sinal de como a comunidade quer ser incluída no processo de pacificação.
 
“As organizações vão interferir no processo, vão lutar para que os moradores sejam preservados, respeitados. O secretário de segurança aceitou nosso convite, e na semana que vem devemos ter uma audiência com o prefeito Eduardo Paes (PMDB), que também virá à Maré”, diz Edson Diniz, um dos diretores da organização.
 
Ele relembra que dada a sua localização estratégica (entre o Aeroporto Internacional Tom Jobim e o centro da cidade, e entre as avenidas Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha), a Maré já foi “cercada” pelo Exército em outras oportunidades, como a Eco-92 e a Rio+20, além de ter sido alvo de diversas operações da polícia.
 
“Isso leva ao descrédito da população. Dessa vez, se a ocupação vai, de fato, levar a mudanças duradouras, que seja feita da forma certa desde o início. É esse o sentimento dos moradores. Se não é algo só para a Copa e vieram para ficar, têm que fazer as coisas direito”, argumenta.
 
Mandado coletivo
 
“Se não é algo só para a Copa e vieram para ficar, têm que fazer as coisas direito”
Edson Diniz, diretor da Redes de Desenvolvimento da Maré
 
Um dispositivo jurídico que pode moldar este tipo de operacão e que preocupa os moradores é o mandado de busca e apreensão coletivo, medida que pode ser autorizada por um juiz e que na prática significa que as forças de segurança podem entrar na casa de qualquer pessoa para revistas – de forma semelhante a um estado de exceção em que direitos constitucionais são suspensos.
 
Um mandado do tipo foi expedido na semana passada, quando 1,5 mil policiais ocuparam a Maré para abrir caminho para a chegada das Forças Armadas.
 
Para a Anistia Internacional, o assunto é preocupante porque abre caminho para abusos. “É preciso deixar claro que a Maré não é um território de exceção. A segurança e a vida dessas pessoas devem ser garantidas com prioridade, e não se pode tratar uma população inteira como suspeita”, diz Alexandre Ciconello.
 
Em entrevista coletiva, o general Ronaldo Lundgren, que organiza a ação militar, disse que a segunda fase da ocupação não contará com mandados de busca e apreensão coletivos e que atividades de patrulhamento, revistas e prisões na comunidade seguirão os procedimentos legais dentro da normalidade.
 
Ele também deixou claro que o dispositivo de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), documento assinado entre a Presidência da República e o governo do Estado do Rio de Janeiro que permite a ação militar, tem validade até o dia 31 de julho, mas pode ser prolongado.

32 comentários

  1. Complexo da Maré

    Alfeu,

    Em minha opinião, neste caso o governo estadual optou por uma intervenção federal, um absurdo.

    A matéria aborda uma possível militarização naquele bairro, dando espaço para a manifestação dos líderes locais e Ong’s que atuam na região. 

    O bairro foi iniciado no início dos anos 80, quanfo teve início um sem número de obras de infra-estrutura urbana e também de construção de imóveis, que substituiram o vergonhoso  e enorme cortiço que ocupou por décadas toda a faixa entre a Av.Brasil e a Baía de Guanabara, uma calamidade social equivalente ao que existe de pior neste mundo, e então cartão de visita para todos os turistas que chegavam ao RJ.

    A partir de seu início, satisfatório, à medida que o local ia se desenvolvendo o tráfico também ganhava o seu espaço, e a partir de um determinado momento todo o local ficou comprometido, com cidadâos, tráfico e polícia convivendo no ” fio da navalha ” , sob um acordo tácito  de rotina entre as partes.

    Não pode ser percebida uma boa conduta por parte de nenhuma dos tres componentes, ou melhor, quatro quando incluídas as Ong’s, não tem anjo nesta história – se o tráfico metralha um comboio de policiais, o que já ocorreu e teve amplo destaque no noticiário, ninguém do local toma qualquer partido sob o argumento de sempre, ” quem dá conta de traficante é a polícia”.

    Não sei qual seria a solução imaginada pelas Ong’s e líderes locais, que não seja a instalação de UPP ou coisa que o valha, sem um efetivo controle efetivo durante o período noturno e, com menor intensidade, durante o dia, uma vez que o perigo por lá está presente durante as 25 horas do dia. Quanto à mobilização política das lideranças locais, tá certo.

    O principal desejo, o nirvana daqueles moradores seria conseguir sair de lá, o que não é possível $$$ para a maioria, mas ninguém, nenhuma das lideranças é capaz de tocar neste assunto. 

    Me refiro ao mundo real, sem qualquer tipo de romance.   

     

  2. Funk e moto táxis…

    “Sai a força do tráfico e chega a força do Estado, e como vamos regularizar a favela? Não cabe ao Exército ou à UPP dizer se vai ter baile funk ou não, invadir as casas das pessoas como se não tivessem direitos, mudar as regras dos mototáxis. Eles não poderão decidir essas coisas sozinhos, de cima para baixo”, complementa.

    Funk e moto táxis, contrapostos à militarização,  parece ser uma dicotomia reveladora. Como se todos os moradores da Maré estivessem presentes ao baile ou gostassem de dormir com o barulho.

    Ainda temos muito a aprender sobre liberdade.

     

     

     

    • Pois é, Gilberto, meu

      Pois é, Gilberto, meu caro.

      Mas eu não imagino que as populações vão aprender a construir seus consensos sob a escolta do fuzil das FFFAA ou da ação militar da polícia.

      Esta justificativa de ocupação é mais ou menos aquela que legitimou a invasão imperialista em cada país violado na História.

      Veja bem, não se trata de renunciar a uma arbitragem internacional, ou no caso dos arranjos internos dos países, da presença do Estado como garantidor da lei, não é nada disse.

      Porém, eu não vejo como a supressão de liberdades (todas elas) vai ajudar nas pessoas a negociarem os limites de cada porção de direitos que elas têm.

      Parece que você pegou um trecho do texto, que por sua vez destacava uma parte do problema (lazer e mobilidade), para dar uma dimensão geral do problema, que neste caso, apesar de contar com exemplos reais (mototáxis e bailes) é muito mais amplo.

      Ou será que os problemas do tráfico, e de liberdade do Leblon e de Ipanema são resolvidos com UPP e FFAA?

      E não adianta nos dizer que no Leblon ou em Ipanema não tem gente andando de fuzil pela favela, já sabemos disto, porque foi o próprio Estado pela sua ação e omissão que “permitiu” ou determinou que alguns bairros fossem pacíficos e confortáveis como Beverly Hills e outros parecessem a periferia de Bangladesh.

      • Construir consensos

        Zeus,

        Nem eu considero ou defendo isto. Para mim os fuzis e metralhadoras da “segurança pública” não diferem muito do aparelhamento do tráfico. Em muitos casos se imbricam. De qualquer forma, até democrática decisão em contrário, exercito e policia são o braço armado de regimes eleitos…

        Chamo atenção sobretudo que esta “democracia” de minorias (bota minoria nisto!!!) organizadas tenta impingir falsas noções de liberdade.

        Quando o barulho desta “liberdade” for grande (parece já ser o caso), nem será necessário acordarmos…

        Quanto à repressão no Leblon e Zona Sul carioca, coloquei aqui várias vezes que o combate ao tráfico seria muito mais eficiente com o controle da grana lavada nestas áreas. Não existem bancos piratas nas “comunidades”!

        • Qual é o segredo do samba?

          Sei, então o fato de que a modalidade criminosa que alimentou o samba ser também minoritária (o bicho), e nem morar (geograficamente) mais nas favelas, retira desta manifestação sua legitimidade?

          É tudo uma questão de fisaclização de postura?

          As quadras e os ensaios são menos barulhentos, têm menos drogas, álcool, brigas, erotismo exacerbado, que os bailes funk?

          Ou será que se trata de associar a questão estética (gosto) para dar vazão a demanda ideológica da classe dominante em vincular alguma manifestação cultural a alguma forma de criminalidade.

          Qual é a trilha sonora dos crimes de colarinho branco?

          Um abraço.

          • Nã, nã, nã

            Zeus,

            Não há nenhum vies de censura ou crítica estética minha ao funk.  Se olhar meus comentários verá que já fiz a defesa do  gênero mais de uma vez aqui. 

            Como em qualquer outra categoria musical, samba incluso, há coisas boas e ruins no funk. 

            Sobre a trilha sonora dos colarinhos brancos? Não faço a menor idéia… É um mundo muito mais distante de mim que o da periferia.  Sei lá, o axé do carnaval  baiano?!? Em São Paulo tem carnaval de executivos com trios elétricos baianos…

          • Pois é, e aposto que nenhum

            Pois é, e aposto que nenhum deste barulhentos trios serviu de justificativa para ocupação das FFAA ou da polícia, que aliás, só vai para dar proteção.

            O problema, Gilberto, que já conhecemos esta lógica de associar uma manifestação cultural com determinada modalidade delitiva, e que no fim das contas, esta associação serve para justificar um monte de atrocidades.

            A trilha sonora do crime e das elites é qualquer uma, pois eles não terão suas escolhas estéticas vinculadas a seus hábitos criminais, porque nem são considerados como tais (criminosos).

            Se a favela tocasse música clássica, com certeza seria considerado um “pancadão erudito” ou apologia, a não ser que o fizesse sob a chancela e supervisão da elite branca de de olhos azuis.

    • Ah, Gil, franca/, vc pretende dar liçoes a eles sobr o q querem?

      Se eles gostam de bailes funk, nao há por que ser proibido, e eles têm o direito de saber o que querem, independentemente do julgamento de gente que nao mora lá. E moto táxi é indispensável em áreas de difícil acesso. 

      • Aceita-se sugertões

        Caríssima Ana, moro em BH no São Lucas perto relativamente de uma favela. Tem domingo, de dia, que escuta-se longe o som. Não quero nem imaginar o que é morar ao lado. Se achas que vão conseguir que sigam uma legislação que diz que após às dez da noite o som não pode extravasar 60 decibéis, vou permitir classificá-la de inocente cor de rosa.

        • Sempre a mesma coisa…

          Mas qual a diferença entre os transtornos de um baile (transtorno sonoro e outros) e uma final Atlético X Cruzeiro (com barulho, gente mijando nas calçadas, brigas entre torcidas, trânsito engarrafado, ruas emporcalhadas, etc), um mega-show, bares na Savassi, a vizinhança onde funcionam boates chiques, as calçadas cheias de mesas de bares, etc?

          Por onde vamos começar a ordenar a ocupação do espaço público e os impactos da indústria do lazer? Só pela favela? É uma questão de classe, de novo?

          • Qualquer atividade pública,

            Qualquer atividade pública, com grande frequência,  que provoque transtornos na vizinhança,  deve ser organizada e disciplinada para causar o menor impacto.

            Se não se faz no centro,  cobremos. Mas não dá para insistir na mesma velha tecla, ” por que só na periferia? “…

          • Te respondi ontem mas sabe-se

            Te respondi ontem mas sabe-se lá por que não foi a resposta. Sendo mais curto: trabalhei na SMMA que cuidava de problemas relacionados a poluição sonora. Não dávamos conta de atender as reclamações. Ia-se às igejas e bares e autuava-se. Mas vou citar somente alguns probleminhas: chegue a um bar em bairro mais afastado, com carros parados na rua com capô aberto com aquele som ligado. Como autuar pessoa física e mais, chegue sem apoio policial. Experimente entrar numa favela (o carrro às vezes não chega), dirija-se aonde ocorre a festa – antes você já foi na casa de um morador e fez a medição do ruído- e candidamente fale que vão ter que abaixar ou desligar o som. É tudo muito simples.

        • Pois q comecem proibindo os cultos evangélicos, q fazem + barulh

          Que graça. Só favelado precisa ser “tetelado”. Se nao cumprirem a lei que sejam multados, A POSTERIORi, nao antes de cometer a falta. 

      • Francamente?

        Analu,

        Francamente,  onde eu me coloquei contra o funk? Já fiz a defesa dele em outros comentários. Como qualquer gênero musical te coisas boas e muito ruins…  

        Como qualquer atividade pública, com grande público,  que provoque transtornos na vizinhança,  deve sim ser organizada e disciplinada.

        O mesmo vale para o transporte de moto táxi. Acidentes de moto são responsáveis  pelo maior número de atendimentos graves e de tratamentos de longa duração nos hospitais públicos. Que ao menos as motos sejam seguras. 

        • Mas p q a populaçao da Maré deve ser tutelada?

          Que eu saiba, nem o exército nem a PM andam por aí coibindo excesso de barulho. Cultos evangélicos infernizam os vizinhos e fica por isso mesmo. E entre as funçoes do exército nao consta a de guarda de trânsito. Donde deixem a populaçao da Maré em paz! Ela nao tem que ficar pedindo a permissao de ninguém para levar sua vida normal. 

          • Tutela?

            Analu,

            Que má vontade com meu comentário… Deviamos pedir por favor para os traficantes? 

            Aliás, pelo seu critério,  outro dia mesmo fui tutelado,  junto com todos meus vizinhos. A polícia e o exército fecharam a quadra onde moro por uma suspeita de bomba.

            Quanto ao barulho,  moro em uma região movimentada.  Já participei de várias reuniões com proprietários de bares e restaurantes da vizinhança para estabelecer regras de convivência.  E já chamei o Psiu quando os tratos foram desrespeitados. Tente fazer o mesmo com o pessoal dos pancadões aqui em São Paulo…

            As igrejas evangélicas são , além de barulhentas,  em muitos casos cúmplices. Que se coibam seus excessos também. Não dá para se justificar tudo por aquilo que não é feito e deveria ser. 

            A propósito,  qual a vida normal da Maré?

          • Quem está com má vontade?

            Duvido que você nao tenha entendido o ponto que saliento. A questao nao é se, eventualmente, na Maré ou em qualquer lugar, havendo reclamaçao de vizinhos por causa de barulho a polícia nao possa tomar providências. A questao é ficar a populaçao da Maré sob tutela permanente de uma força de ocupaçao para as coisas mais banais, como permitir ou nao bailes funk (em geral por questoes de moralismo e “bom gosto” dos oficiais, e nao por causa de barulho) e regular moto-táxis. Essa nao é a funçao do exército lá! E barulho se coibe DEPOIS de acontecido, e nao previamente. 

            Duvido que você concordasse que um batalhao do exército “tomasse conta” do seu bairro, proibindo ou nao festas a bel prazer do comandante. Por que com a periferia pode? Arre! 

          • Explicitamente, nao defendeu.

            Mas num tópico sobre as preocupaçoes dos moradores com isso, desviou o assunto para defender regulaçao de barulho e moto táxis… A regulaçao seria por quem, hem? Ora, ora, Gil. 

          • Anomia

            Como se resolve uma situação de anomia?

            Adotando para toda a sociedade o modelo de convivência da “comunidade” da Maré? 

            Como se o tráfico não fizesse intervenção! 

            Putz, isto parece um modelo piorado da visão idílica das favelas nos  anos 50…

          • Nao foge do assunto. Vc está defendendo autoritarismo

            Nem para a Maré, nem para a cidade como um todo, devem haver “chefetes” que decidem as coisas pela própria cabeça. Nao interessa o que o tráfico faz, o tráfico é fora da lei. O que nao pode sao as forças da lei agirem com arbítrio. 

        • Máquina do tempo?

          Ué, mas é uma unidade militarizada e blindada de polícia, ou uma unidade das FFAA que vai dar a dinâmica e as regras deste conflitos, utilizando esta lógica para legitimar sua presença?

          É assim que o poder público se expressa nestas regiões?

          Uai, então por que não tem blindados no trânsito de SP, ou ocupação no entorno do Maracanã?

          É isto mesmo, misturar política (fajuta) de combate ao crime com policiamento de costumes e postura, voltando a 1808, quando a Intendência Geral de Polícia decidia também quem ia construir o quê e onde, e quais atividades econômicas seriam permitidas?

          Eu concordo contigo, toda atividade cultural ou do ramo empresarial de entrenimento deve ser regulada, mas por que começar na favela, e com fuzis?

  3. Para sua proteção.

    Infelizmente, mais um vez, as comunidades mais pobres são o palco para execução de roteiros conhecidos.

    O problema mais grave que a militarização não é apenas na Maré ou no Alemão, mas em todos os aspectos da vida em sociedade. 

    Por óbvio, a face mais ostensiva e cruel se expressa ali, onde não há clientes de boas bancas de advogados e condomínios de luxo.

    Como todos os demais aspectos de convivência, a militarização também tem um viés de classe definido: proteção aos ricos e submissão aos mais pobres.

    Neste case específico, temos a associação Estado-militar com o Estado-evento (Copas, Olimpíadas, Festivais, etc).

    Claro que tudo isto vem inundado de porções gigantescas de ideologia, ou em outras palavras, como dizia aquela velha música do Plebe Rude: “tudo isto é para a sua proteção”, como se coubesse a estas comunidades o principal ônus e culpa por serem pobres, daí terem que se conformar com toda a “atenção militar” que lhes é dada.

    E para quem ousa divergir, bradam os “libertadores”: “Porra, prefere o jugo do traficante?” ou “Quando o governo não faz nada, reclamam, quando faz, reclamam também”.

    Todas estas afirmações estão baseadas em premissas falsas.

    O cidadão, pobre ou o rico, não tem que ser levado a escolher entre o sadismo do tráfico e lamber as botas militares. 

    Por outro lado, os governos não podem esperar que se aceite que eles façam qualquer coisa como alternativa a não fazer nada.

    Ao contrário: o cidadão-contribuinte tem o direito de exigir, qualquer que seja sua classe social, uma política de segurança universalista, que trate os crimes como eventos de princípio-meio-fim, e não apenas como um instrumento de propaganda destinado a acalmar a paranoia dos que têm mais poder de pressão sobre a agenda eleitoral das autoridades.

    É uma questão de inteligência (lato sensu):

    Nenhuma experiência militar de combate ao narcotráfico no mundo prosperou, aliás, nenhuma estratégia de combate a este negócio global teve resultados merecedores de elogios.

    A maior ou menor violência dos mercados de entorpecentes ao redor do planeta têm a ver com as escolhas econômicas, e geográficas de tarefas (reproduzindo as lógicas capitalistas), onde sociedades mais ricas e organizadas detêm índices mais toleráveis de violência, enquanto as mais pobres, onde os mercados são mais “caóticos”, observam um cresimento desmesurado da criminalidade.

    Em suma: o tráfico é, como já dissemos, um fenômeno global, mas a sua violência é distribuída de acordo com a riqueza de cada “player”.

    Importar modelos mais violentos para se somarem a própria violência que já está intrínseca com o exercício deste negócio por aqui é um estultice sem tamanho, quer dizer…nem tanto, pois vem dando votos e garantindo bons negócios nas compras governamentais, que explodiram sem que os resultados fossem correspondentes.

    Mas isto não é uma característica exclusiva do mercado de drogas. Em determinados países, por exemplo, a ocupação fundiária (atividade econômica legal) pode revelar índices de conflitos letais parecidos ou superiores com outras modalidades capitalistas marginais.

    A bem da verdade, onde esta atividade de distribuição fundiária não foi minimamente organizada, a persistência dos conflitos ainda alimenta as estatísticas fatais, como é o caso brasileiro e de outros países vizinhos.

    Temos o contrabando de cigarros (atividade derivada de um negócio legal) que pode fluir inocentemente nas “charutarias” dos mercados municipais, sem o menor traço de violência, mas que se desdobra em taxas de mortalidade consideráveis nas bordas de entrada (fronteiras), onde a disputa pela hegemonia negocial é mais severa e desorganizada.

    Enfim, só resta lamentar o destino do pessoal da Maré, do Alemão, etc, que de tão desesperados, ainda repetem os mantras da ideologia dominante, dizendo que concordam com a invasão, desde que não seja tão violenta, esquecendo que o ato de invadir, ou, a presença de tropas militares durante a vigência de um suposto Estado de Direito em solo nacional, em si, já traz uma carga de brutalidade simbólica e real incomensuráveis.

    Mais ou menos assim: “Nos estuprem, mas não nos maltratem ou machuquem muito”.

    Lembrem-se: Tudo isto é para nossa proteção.

     

     

     

  4. O poder paralelo é tambem uma militarização da comunidade e aí?

     O poder paralelo é uma militarização feita na comunidade a base de mortes diárias que impõem o terror e  nenhuma associação civil local combate abertamente. Este PODER PARALELO poder ser do tráfico ou da milicia Porém, quando o Estado mostra sua mão forte, aparecem os  oposicionistas querendo fazer chicana política. Por que? A que preço este críticos aparecem? Tudo leva a crer que está tudo dominado culturalmente pelo poder paralelo do tráfico. Que tipos de ameaças este líderes sofrerão se não começarem a fazer o discurso manjado do “estado de sítio” implantado dentro das favelas. Na Rocinha, um lider comunitário foi morto quando na comunidade foi implantada as UPP’s.

     A realidade dói . Contudo, o que se vê  na  vida atual das comunidades é o seguinte: sem o poder militar do estado implantado e permanente dentro das favelas do Rio, o tráfico volta. E, o tráfico sempre que voltar vai voltar com sede de sangue reprimida, cuja compulsão por poder e por prazer sem limites farão a comunidade como objeto de seus desejos insaciáveis, em que pese o silencio de todas as associações civis que  que se dizem representante destas comunidades.

    Precisou  o sacrificio do jornalista Tim Lopes para que fosse revelado o que ocorre nos bailes funks, em termo de prostituição de menores e leilões de streap-teases de menores. A realidade é que nada mudou com a morte, com requintes de crueldade, de Tim Lopes.   

    A cultura do funk e  o non sense dos funkeiros não respeitam os trabalhadores que vão acordar de madrugada para trabalhar quando colocam aparelhos de som que ecoam sobre todo o território da comunidade. Por outro lado, todos sabem que o Funk é uma bandeira cultural do tráfico, que sempre potencializou o consumo da droga nas favelas. Por que ser hipócrita querendo tapar o sol com a peneira quando se sabe que o funk sempre foi um reduto do tráfico.

    Por isso, nada melhor do que começar o combate contra a ocupação das comunidades pelas UPP’s, usando o discurso “democrático, com fundo demagógico, em defesa do funck  geral amplo e irrestrito.

     Paradoxalmente, cabe esclarecer que até as Olimpiadas as UPP’S terão suas funcionalidades democráticas defendidas pelo Estado a qualquer custo financeiro e político que venham ter.  Porem , depois dos jogos da Copa e das Olimpíadas  veremos outra realidade de confrontos sanguinários, que mostrarão o cenário de infiltração cruel e inconsequente do poderio bélico do tráfico.

    • Engraçado, eu poderia resumir

      Engraçado, eu poderia resumir o comentário em se o burro lhe deu um coice, abaixe e dê um coice de volta.

      Mas esta figura de linguagem não serve muito para dar conta do problema, porque só a noção de poder paralelo é frouxa, ruim mesmo.

      Um conceito estereotipado que desconhece as engrenagens do negócio do tráfico de drogas, que se alimenta em bancos oficiais, fábricas de armas (legais), indústria farmacêutica (legal, que entra com éter, e outros insumos para refino), e tantas outras.

      Não há, portanto, palalelismo, porque estes poderes se cruzam, reproduzem e dão “crias”, geram recursos legais e ilegais, e justificam raciocínios políticos como o que está defendido acima.

      O Estado se omite, ou proativamente, escolhe que áreas serão ocupadas por gente traficante rica e que usa talheres de prata, e as outras, onde tem gente traficante pobre que é reconhecida como bárbara, e “come com as mãos”, e depois, sob a justificativa de sanear estas áreas que começam a fugir do “controle”, subjugam populações inteiras, colocando seus pescoços sob as botas militares.

      Engraçado ainda é o trecho sobre o funk. As quadras das escolas devem ser a última novidade no tratamento acústico de seus ensaios para não acordar os “trabalhadores”, porque ninguém reclama do barulho das baterias das escolas.

       

      Em tempo: quem sacrificou Tim Lopes foi o patrão (globo) que apesar dos pedidos dele por segurança ou planos de contingência para proteger a equipe de produção, mandou-o a campo sem se preocupar no potencial de perigo de um X-9 infiltrado na favela.

      Tim Lopes não estava lá a serviço público, mas sim para produzir matéria para que uma empresa lucrasse com a venda do conteúdo, patrocinada por anunciantes.

      Tim Lopes também seria morto de estivesse fazendo uma matéria no meio de um grupo de policiais, ou seja, a questão não é do “poder paralelo” e seus facínoras, mas a prevenção que não ocorreu, e o julgamento de que não seria possível fazer sem obter o resultado trágico que se obteve.

      O paradoxal é que se não fosse o tal “poder paralelo”, não haveria o interesse de Tim Lopes. Eita paradoxo. Bem mais complicado que as reduções aí de cima.

  5. Se houvesse UPP, Donga viraria sucesso?

    É bem provável que as manifestação cultural que se expressava com mais força nos morros da cidade do Rio de Janeiro, o samba, tivesse sofrido rejeição e repressão de classe similar a que hoje sofre o funk.

    A política e a polícia de costumes exerceram singular pressão para dar formas a este preconceito de classes, ou melhor, a segregação cultural de classes, que no jogo da hegemonia é tão ou mais importante que as outras categorias, como econômicas, políticas e geográficas, porque a bem da verdade, todas são independentes, mas se relacionam como causa e efeito.

    No entanto, tempos históricos e conjunturas diferentes, que não cabem aprofundarmos aqui, deram um contorno diferente a ação policial do Estado contra a cultura dos pobres.

    A própria incipiência capitalista local da época dava uma dimensão diferente a repressão a estas culturas, e a estratégia da associação de culturas a crimes era também diferente.

    Os negros e as favelas (termo recente na época) eram vadios, indolentes, bêbados, promíscuos, potenciais agressões sexuais, ladrões de galinha, etc. O samba era a trilha sonora desta gente, e suas “orgias”. Os rótulos, portanto, eram outros (embora alguns fossem até parecidos), mas compartilhavam os mesmos objetivos.

    O resultado a gente sabe.

    Se os negros não organizaram uma resistência política que lhes retirasse da miséria econômica, sobrou-lhes a resistência cultural que incorporou sua manifestação (o samba) no ideário nacional.

    É claro que uma série de eventos históricos deram esta dimensão de produto cultural ao samba (e não podemos dizê-los todos aqui), mas não pode negar a ele (samba) seu compenente étnico e de contestação, ainda que esteticamente, não se desse conta disto.

    O samba cresce estereotipado, enlatado, limitado, “industrializado” pelo mercado de bens culturais de massa, é verdade, mas, por outro lado, ainda era capaz de revelar algum traço de identidade de classe.

    Mas vamos a uma hipótese maluca: E se o morro do samba fosse ocupado, em 1910, pela UPP, sobreviveria a ocupação?

    Pode ser, afinal, outras formas de manifestações culturais oprimidas conseguiram deixar o seu legado, sejam os plantadores de algodão do sul estadunidense, sejam os cânticos de outras populações dominadas.

    No entanto, alguns comentários por aqui (como o o Gilberto) deixam pistas sobre o futuro de determinadas manifestações caso impere a noção que as vincula com o tráfico de drogas, sob o argumento de destruir a “cultura do tráfico”.

    Novamente a questão de classe: Nossa sociedade global, de cima a baixo, de cabo a rabo, está enraizada nesta cultura, e lucra horrores com ela, desde o cinema, passando pela TV (entretenimento, jornalismo) até outras formas conhecidas.

    Então por que combater apenas uma destas formas, e em um local específico?

    Engraçado também é assistir que parece que apenas esta forma de manifestação incomoda.

    Quantas palavras foram escritas aqui dando vazão a reclamações de “postura” sobre o barulho das quadras de escolas de samba? Não me lembro?

    E não há drogas, não há brigas, álcool, etc, nestes ensaios? Por certo.

    A diferença singular que o crime ligado às escolas está, de certa forma, legitimado no imaginário social, e até legitimadas pelo poder público, como a relação Prefeitura do Rio e LIESA (bunker do jogo do bicho).

    Então fica a pergunta: As UPP têm força para sufocar o funk? O funk, para sobreviver, tem que esperar que o tráfico de drogas se legitime como fez o jogo do bicho?

    E se houvesse UPP, o samba faria escola?

  6. Uma primeira providência será

    Uma primeira providência será criar um Conselho Amplo. Neste Conselho devem ter assento todas as instituições internas com representatividade da grande favela, até mesmo times de futebol. Mais representantes de ONGs que atuam na região, mais representantes externos independentes de organismos de Direitos Humanos, mais representantes da polícia e das forças militares de ocupação, mais representantes de secretarias estadual e municipal de ação social. Deverá ser elaborado e assinado um tratado e este não poderá ser quebrado por nenhuma das partes. As decisões mais sérias e abrangentes, deverão ser submetidas antecipamente ao Conselho Amplo.

    • Se conselho fosse bom, a gente vendia, não dava.

      Intrigante é saber como forças assimétricas, comunidade e militares armados até os dentes, conseguirão estipular uma pauta mínima e um consenso que agregue a visão do ocupado com a do invasor.

      E como se estas entidades, incluídas aí as famigeradas ONG, que não são porra nenhuma, nem Estado, nem comunidade, nem empresa privada (embora ajam como terceirizadoras do Estado), reunissem alguma representatividade para dar conta de todos os aspectos culturais e sociais da comunidade.

      Por que não chamar ao conselho os “jornalistas-abutres” que trabalham para Datena, Monte e Resende, e que vivem de explorar aquela trágedia, afinal, também fazem parte do cenário.

       

    • Idéia bem abrangente

      Severino não cadastrado,

      Ótima idéia, só fica faltando “combinar com os russos”.

      Os moradores do bairro e os governos acenderiam velas pros santos, caso a reunião de todas, ou quase todas estas representações pudesse funcionar normalmente, trazer sossego praquele local tão tumultuado..

      “…Deverá ser elaborado e assinado um tratado e este não poderá ser quebrado por nenhuma das partes…” Ninguém, nem mesmo você acredita nesta possibilidade, pois é bem mais fácil acertar na mega-sena. 

  7. Controle na Mare

    Eis no que dá tentar calçar sapato em cavalo!

    Uma comunidade acostumada com o domínio do mal, quer continuar assim.

    • Cavalo dado não se olha os dentes.

      Tem razão, porque estes pobres não se espelham nos ricos da Zona Sul e se acostumam com o “bem”?

      E ainda vem o governo querendo gastar nossos impostos para tentar “salvar” este pessoal?

      Pensando bem, isto que dá falar demais, vamos acabar dando bom dia a cavalo (descalço).

  8. + comentários

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