O horror da barbárie coletiva, por Luiz Claudio Tonchis

As pessoas de bem se mostram sensibilizadas, chocadas e se solidarizam com as duas adolescentes vítimas de estupro coletivo que ocorreram recentemente: uma, no Rio de Janeiro, violada por mais de 30 homens, e outra, em Bom Jesus, no Piauí, atacada por pelo menos 4 homens. Em um dos casos, os algozes, por simples sadismo, caracterizado pela negação de suas consciências e pela satisfação pelo crime praticado exibem como troféu as imagens e vídeos de suas vítimas nas redes sociais. O caráter exibicionista do estupro revela a sua face cruel, a barbárie, o Big Brother do terror: a exposição social das vítimas do crime.

As imagens e vídeos das vítimas excitam os estupradores em potencial: esses fazem comentários maldosos e preconceituosos, violando no meio social o respeito e a dignidade das vítimas, culpando as próprias vítimas, usando julgamentos morais baseados em preconceitos e discriminações sexistas. Nestes casos, a vítima é sempre questionada pela lógica invertida do estupro, sua contradição, que não pode ser tolerada nem justificada.

Na última quinta-feira (26/5), vários jornais noticiaram que uma jovem de 16 anos foi vítima de estupro numa comunidade da zona oeste do Rio de Janeiro. A garota disse que foi dopada e violentada por 30 homens. Ela foi submetida a exames no IML (Instituto Médico Legal) e em seguida encaminhada ao Hospital Souza Aguiar, onde deve começar a tomar coquetel de medicamentos anti-HIV. A defesa da adolescente, que acompanhou o depoimento, afirmou que ela não é usuária de drogas pesadas, como crack e cocaína, mas que faz uso de entorpecentes. A vítima disse à polícia ter ido à comunidade para um baile funk na última sexta-feira (20/5) e permanecido na região até segunda (23/5), mas quando chegou em casa se deu conta que estava sem o telefone celular e retornou. O estupro coletivo ocorreu na terça-feira (24/5).

Um vídeo gravado após o crime, com a vítima nua e desacordada, foi postado em redes sociais. Ao menos dois suspeitos foram identificados e devem ser presos. Um deles, identificado apenas como Michel, postou a gravação no Twitter na terça-feira (24/5). No vídeo, ele e outro rapaz exibem a jovem e fazem comentários que indicam o estupro.

Já o estrupo coletivo no Piauí ocorreu no ano passado, quando 4 amigas que estudavam juntas foram vítimas desse crime brutal na tarde do dia 27 de maio. Elas saíram para tirar fotos e fazer um trabalho de escola no Morro do Garrote, ponto de onde se tem uma visão panorâmica da cidade. Chegando lá, elas foram dominadas, estupradas, agredidas e jogadas do alto do penhasco com cerca de 10 metros de altura. Uma delas, uma garota de 17 anos, faleceu em decorrência das agressões. Horas depois que as adolescentes foram encontradas, a Polícia de Castelo do Piauí localizou e apreendeu os quatro jovens que as estupraram.

Além de também serem mulheres jovens, tais casos bárbaros se assemelham pelo fato de as duas adolescentes terem sido atraídas pelos algozes em tramas premeditadas e terem sido atacadas num contexto de uso de drogas ilícitas. Além disso, o episódio mostra que praticar um crime dessa natureza é motivo de vaidade, algo a ser ostentado pelos criminosos com um orgulho macabro, usando as próprias redes sociais.

Os dois casos acima não são casos isolados; esse tipo de crime é muito comum aqui. O Brasil é um país de estupradores. Segundo a revista Exame, a cada 11 minutos uma pessoa é violentada no país. Em 2014, foram 47.600 vítimas. Os dados, que são do 9º Anúario Brasileiro de Segurança Pública, levam em conta apenas os casos que foram registrados em boletins de ocorrência. Contudo, somente 10% das vítimas desse tipo de crime costumam prestar queixa à polícia, de acordo com a estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Pois bem, no Brasil e em muitos outros países, como a Índia (o país onde há o maior número de estupros), tudo indica que é uma questão cultural, característica de uma sociedade violenta, machista e sexista. É um problema de gênero. Infelizmente, ainda permeia a ideia de que o “erro” é da própria vítima e não do criminoso. O estupro simbólico é tão abjeto quanto o ato consumado contra a vida dessas pessoas indefesas. Por outro lado, temos um lado positivo, milhares de pessoas se mostraram indignadas nas redes sociais, manifestando seu repúdio à veiculação das imagens e vídeos divulgados pelos criminosos. As pessoas denunciaram com a mesma velocidade com que os vídeos foram publicados.

Por tudo isso, precisamos combater esse tipo de crime, não somente com a punição dos culpados, que deveria ser exemplar, mas, também temos que fazer um trabalho de educação de gênero com urgência, de respeito ao corpo da mulher e aos direitos dela. Toda mulher tem o direito de parecer mulher, de se apresentar socialmente mulher. O estupro é a face mais cruel do mal e quando se estrupa uma mulher, toda sociedade, de certa forma, é estuprada.

 

Referências:

Brandino, Géssica, “Estupros Coletivos e Feminicídio: O Caso de Castelo do Piauí”, Edição: Marisa Sanematsu/Portal Compromisso e Atitude. http://www.compromissoeatitude.org.br/estupros-coletivos-e-feminicidio-o-caso-de-castelo-do-piaui/ (acesso em 27/05/2016)

Bretas, Valéria, “A Cada 11 Minutos, Uma Pessoa é Estuprada no Brasil”, Revista EXAME.com. http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/a-cada-11-minutos-uma-pessoa-e-estuprada-no-brasil (acesso em 27/05/2016)

Gasman, Nadine, “ONU Mulheres Lança Nota Sobre Estupros Coletivos no RJ e PI”, jornal O Estado de São Paulo. http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2016/05/26/onu-mulheres-lanca-nota-sobre-estupros-coletivos-no-rj-e-pi.htm (acesso em 27/05/2016)

 

Luiz Claudio Tonchis é Professor e Gestor Escolar, trabalha na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é bacharel e licenciado em Filosofia, com pós-graduação em Ética pela UNESP e em Gestão Escolar pela UNIARARAS e pela Universidade Federal Fluminense (MBA). Escreve regularmente para blogs, jornais e revistas, contribuindo com artigos em que discute questões ligadas à Política, Educação e Filosofia.

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4 comentários

  1. Quanto a punição.
    Bem, a lei diz que estupro a menor de 18 e maior de 14 a pena é entre 8 e 14 anos de prisão. Como cabe ao juiz, veremos o que vai rolar.as se houver algum menor que tenha participado, evidentemente que a pena é menor. Mas cá entre nós, serão alguns anos presos que eliminará a sanha destes indivíduos. Se há os que acreditam torço para que estejam certos
    De minha parte acho difícil.

  2. o horror da barbárie coletiva….

    Qual é o crime que não é comum no Brasil? Temos que abandonar esta hipocrisia de tratar criminalidade como delinquência. Bandido como vitima. Mais de 30 anos de governos de centro esquerda não minimizaram as faltas que governo e poder público tiveram sobre os fatores que levam a tanta violência. Foram extremanete incompetentes e tiveram ainda o aval de parte da opinião pública. Na mesma semana deste estupro, dois garotos foram filmados enquanto eram torturados e mortos numa favela do RJ . Alguns dias antes, uma adolescente morta num acesso ao aeroporto da cidade. Somos o país dos 100.000 assassinatos por ano com 98% de completo descaso. Parar com tanta hipocrisia já seria um bom começo.

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