O que o mundo distópico de Handmade’s Tale ensina hoje, por Anne Rammi

 
Por Anne Hammi*
 
 
Há duas cenas no primeiro episódio da segunda temporada de “The Handmaid’s Tale” que são mais perturbadoras do que toda a tortura que as mulheres mães enfrentam durante toda a saga. Não se preocupem, não é um grande spoiler, mas gostaria que vocês refletissem sobre elas comigo.
 
Para quem não sabe, essa é uma série norteamericana baseada no romance de mesmo nome, de Margaret Atwood. Resumindo: é sobre a ascenção máxima do patriarcado, pelas mãos do fundamentalismo religioso em controle do corpo político, jurídico e militar de um país (os EUA) que deflagra uma grande guerra e estabelece o novo estado de “Gilead”- uma nação brutal controlada pela força dos homens sob corpos, mentes, vidas e existências das mulheres: especialmente, as mães. “So os olho D’ele!”
 
Mas voltando para as cenas perturbadoras, nelas podemos ver os dias antes da “grande virada”. Como se existisse um momento preciso de divisor de águas entre a vida comum e o estado ditatorial absoluto. As cenas são tão discretas na narrativa, tanto, que nem consegui encontrar as imagens na web. Então aqui embaixo você vê a ilustração simbólica do trato que as mulheres com capacidades reprodutivas recebem no mundo distópico de “Gilead”- servas de seus senhores, cuidando de tarefas domésticas, controladas por violência, para que produzam filhos em uma sociedade que (por alguma razão que eu ainda não sei se existe) tem quedas vertiginosas de natalidade e fertilidade.
 
Cena 1: Uma família comum, em uma manhã comum, discutindo as compras do mercado. A protagonista June pede para seu companheiro assinar um formulário que pelo diálogo, podemos supor vir do sistema de saúde. O formulário, apesar de não estar explícito, trata de métodos contraceptivos para o casal. June precisa da anuência de seu marido para receber a pílula anticoncepcional. Ele surpreso indaga “jura que eles pedem isso”?
 
A naturalização de uma pequeneza como essa – a autorização do marido para o controle de natalidade da esposa – é a semente de todo desespero que está por vir. Quem assiste a série ou leu os livros sabe como uma assinatura de permissão em um formulário está diretamente relacionada aos estupros recorrentes que virão no salto do tempo depois da instalação da ditadura de Gilead. São da mesma origem: o patriarcado expressa controle sob os corpos e vidas das mulheres da forma que tem acesso, e sempre buscando mais. Nossas capacidades reprodutivas são o centro do alvo de controle do sistema patriarcal. E na linha do tempo, também serão os frutos, nossos filhos.
 
Sim, as mulheres de Gilead são escravizadas, estupradas e seus filhos viram propriedade dos detentores do poder, que são também os donos das armas e do sistema político. O tormento que essa cena causa é exatamente pela semelhança com a nossa própria realidade. É tangível. É assim que a banda toca. Não conseguimos nos relacionar como mulheres de túnicas vermelhas e antolhos na cabeça, ainda. Mas é palpável a semelhança com uma singela assinatura em um formulário. É um alerta bem claro: aqui na vida real mulher nenhuma tem absoluto direito de decidir sobre sua vida reprodutiva.
 
Primeiro que a sociedade não tem consciência nenhuma do que se trata ser mãe. Não temos um debate aprofundado (e não nos permitem) protagonizar o “ser mãe” como um estado político e identitário da mulher.
 
E oras, não temos acesso à interrupção voluntária da gravidez nem tampouco à métodos de esterilização consciente. Maternidade compulsória, é o termo técnico. Mas não a maternidade que nos promova a protagonistas da escolha, geração, nutrição, manutenção da vida. E sim, maternidade servil. Como a das mulheres de túnicas vermelhas.
 
Seja por uma assinatura de anuência em um formulário para conseguir uma laqueadura, ou pela sonegação dos nossos direitos de decidir por parte dos donos do poder, nós, como June, estamos subjugadas à autorização dos homens, indivíduos maridos, ou autárquicos fazedores e cumpridores de leis.
 
CENA 2: No mesmo dia, June recebe no trabalho uma ligação da escola da filha, relatando uma febre. Em conversa com o que deve ser a diretora, ela relata que pela manhã percebeu que a criança estava “morna” e a medicou. Entendendo que Hannah estava disposta, escolheu mandar para a escola mesmo assim. A diretora então reprime June. “O protocolo para febres é de 48h”. E informa que, seguindo “o protocolo” a criança foi enviada para o hospital.
 
June já entende a dimensão do problema de ter agido de livre consciência como mãe, e corre para o hospital. Ali acontece a cena que mais embrulhou meu estômago. Exatamente porque já acontece assim. Exatamente porque já vivemos assim, cotidianamente. Desqualificação e controle brutal da qualidade de ser mãe. Uma personagem, misto de assistente social, com agente de saúde e força do estado, ainda que aparentemente gentil com a criança, interroga June. (Lembrando que nos poucos tempos pré-Gilead, as baixas taxas de natalidade levam a um estado de “proteção” das crianças como produtos. Diferente do nosso contexto, onde crianças também são sumariamente desqualificadas enquanto gente.)
 
“Você trabalha? Seu marido trabalha? Quem cuida de sua filha quando ela fica doente?” June, incrédula e ao mesmo tempo coagida, responde variando entre firmeza e medo, que ela divide os cuidados da criança com o pai. E em caso de doenças, um dos dois perde o dia de trabalho para acolher Hannah.
 
“Você sabia da febre da sua filha e a medicou “contra o protocolo” para não perder o dia de trabalho hoje?”
 
É motivo mesmo para ficarmos atônitas, e quem sabe, nos comprometermos com essa reflexão: nós, mulheres mães e nossos filhos, somos alvo direto do patriarcado. E já está aí, sempre esteve. Promete avançar com rapidez, na atual conjuntura política militarizada e fundamentalista (mais e mais semelhanças, peçam bençãos às Deusas para assistir essa série, porque não é algo simples de digerir).
 
Não existem os dias antes da “grande virada”. Não há um momento preciso no tempo onde a vida deixa de ser digna e passa a ser radicalmente opressiva. A evolução para um estado extremo de controle é como expressa nos contos da Aia. Está nos detalhes. Nas pequenas medidas. Nos formulários, permissões, nos direitos que já não existem, e ainda caem um por um.
 
No segundo capítulo aparece ainda o retrato cabal da homofobia como estruturante para o estabelecimento da ditadura de Gilead. Deixo esse relato para depois, mas se querem uma terceira cena repugnante: certidões de casamento entre pessoas do mesmo sexo param de ter validade.
 
Um sopro de esperança: ter consciência do modus operandi do patriarcado sobre nós, mulheres mães, é metade do caminho. Organizemos o estabelecimento da sociedade de respeito máximo àquelas que dão, nutrem, cuidam, e viabilizam a vida à partir da nossa consciência. Vamos inspirar mais mulheres rumo a uma sociedade de culto divino à vida e à liberdade, ao invés de uso do divino para cultuar a morte e a opressão.
 
Anne Rammi é deputada estadual em São Paulo eleita para mandato coletivo junto à “bancada ativista”. 

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