Temos pressa: cidadania doente, por Márcia Moussallem

O capitão-presidente segue com os seus poucos apoiadores cegos, entorpecidos pela droga da alienação e de barriga cheia.

do Observatório do Terceiro Setor

Temos pressa: cidadania doente

por Márcia Moussallem

“A culpa é da pandemia”, “Se não fosse a pandemia, estaríamos no paraíso do Brasil do emprego, da renda, do crescimento e desenvolvimento”.

Não esqueçam: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

O tempo passou, e o país tropical, verde e amarelo dá continuidade à guerra de narrativas ideológicas calcadas na culpabilização da pandemia e do “fantasma do comunismo” inexistente.

Não sejamos ingênuos, essa crise vai além do cenário de pandemia. Estamos diante de uma situação crônica e estrutural “à la tropical brasileira”.

Cabe aqui um pequeno recorte histórico dos últimos anos. O projeto “Ponte para o Futuro”, de Michel Temer (2016), iniciou um dos mais duros e cruéis ataques à maioria dos brasileiros. Desmonte das políticas públicas e cortes de verbas em todas as áreas: saúde, educação, habitação…

Na sua versão ultraliberal, em 2018, ganhamos de presente o “Projeto para o Mercado”. Continuidade do massacre contra o povo brasileiro: governo negacionista, ataques à ciência, desmonte total das políticas sociais, privatizações, caos administrativo, inflação, corrupção, etc.

Nesse cenário de devastação total, o Brasil volta para o Mapa da Fome.

Segundo o “Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil“, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssa), nos últimos meses do ano passado (2020), 19 milhões de brasileiros passaram fome e mais da metade dos domicílios no país enfrentou algum grau de insegurança alimentar.

São indicadores como esse que nos mostram também como estão as ruas das diversas capitais brasileiras. Famílias em situação de rua, desemprego alto, miséria, violência. Fruto do abandono e de um projeto “verde e amarelo” ultraliberal.

O capitão-presidente segue com os seus poucos apoiadores cegos, entorpecidos pela droga da alienação e de barriga cheia.

Por outro lado, a sociedade civil organizada retorna às campanhas emergenciais de combate à fome. A campanha “Tem Gente com Fome” reúne diversas organizações, institutos e atores diversos. Um socorro, um grito de cidadania ativa.

Lembro de uma frase do grande e inesquecível sociólogo Herbert José de Sousa: “Quem tem fome, tem pressa”.

É Betinho… pressa, muita pressa…

Pressa do alimento e da água para sobrevivência, pressa por saúde, pressa por trabalho, pressa por habitação, pressa por dignidade, pressa por justiça, pressa pela construção de uma democracia popular… de um Estado presente.

Nossa cidadania é doente, está doente…

Que não percamos a esperança do agir, do fazer e de lutar sempre.

Avante!

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

Márcia Moussallem – Assistente Social e Socióloga. Mestra e Doutora em Serviço Social (PUC/SP); MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora Universitária. Publicou três livros. Colunista do Observatório do Terceiro Setor.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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