Tormentos do horror, por Daniel Afonso da Silva

Tormentos do horror

por Daniel Afonso da Silva

Nice-França, 14 de julho de 2016, Passeio dos Ingleses. Milhares de pessoas presenciam os fogos de artifício de homenagem à festa nacional francesa. Um caminhão de frigorífico conduzido por Mohamed Lahouaiej Bouhlel, 31 anos, muçulmano de ascendência tunisiana, adentra o passeio quando os estampidos dos fogos ainda se fazem ouvir. Sorrateiramente ele se aproxima da multidão pela retaguarda. Aumenta suavemente a velocidade. Desliga os faróis. Alcança o último primeiro. Acelera sofregamente até seu máximo. Ultrapassar rapidamente os oitenta quilômetros por hora. Começa seu macabro espetáculo. Atropela consciente, selvagem e indiscriminadamente civis inocentes. Crianças, jovens, adultos. Pessoas do comum. Dezenas morrem. Centenas ficam feridas. O horror se instaura. Ascende a incompreensão. Volta o martírio. Os policiais e a força de ordem tomam conta da situação. Fazem parar o caminhão alvejando seu condutor. Mas não apagam seus feitos sombrios. As belas possíveis memórias da bela festa nacional francesa de 2016 acabam de ser maculadas para sempre. A imagem dos fogos desaparece diante da ubiquidade do terror manifesto.

Mais uma vez na França. Mais uma vez essa dor.

O mundo inteiro voltou a ser francês.

Ainda na noite anterior, no 13/07, o presidente Hollande enaltecia as forças francesas pelo esforço extraordinário na contenção do terrorismo.1 Na costumeira entrevista presidencial do 14 de julho poucas horas antes da queima de fogos em todo o país, ele reiteraria esse reconhecimento e inclusive proporia a suspensão do “estado de urgência”, instaurado no após-13 de novembro de 20152. Dias antes, a comissão parlamentar havia apresentado relatório sobre a ameaça terrorista na França e indicava sinal verde para o retorno à normalidade.3

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Tudo parecia conforme. O sol saíra. A estação é verão.

Mas não.

Mais uma vez o Estado Islâmico teve a audácia de agir.

Sua atividade era aguardada no Eurocopa. Dezenas de milhares de espectadores desembarcaram em solo francês para seguir os jogos entre junho e julho. Todos os alertas de segurança foram levados ao nível máximo.

Mas não.

Mais os inimigos do Ocidente e da dignidade ocidental preferiram a sutileza. Estudaram com afinco a melhor data, o ótimo lugar e o estilo mais lastimável.

O 14 de julho na França representa muito mais que a comemoração da queda ou da tomada da Bastilha. É a data do reencontro do país consigo mesmo, com seus princípios e com sua história. É o momento do exame público da consciência da nação.

Nice e seu Passeio dos Ingleses correspondem ao cartão postal mais afamado da França após os endereços incontornáveis de Paris. São simplesmente – Nice e seu Passeio dos Ingleses – dos lugares mais visitados pelos europeus e dos mais significativos da cultura francesa.

Tornar um veículo utilitário em arma de guerra significa ultrapassar todas as fronteiras do brincar com o sofrimento alheio. Nem os mais sádicos do cinema hollywoodiano alimentam esse tipo de prática na representação.

Inaceitável; insuportável; revoltante… mas previsível.

O incidente de Nice participa da continuação da promessa do Estado Islâmico de desestabilizar a Europa e seus aliados.

Em janeiro de 2005, o engenheiro sírio de nome Abu Musab al-Suri publicou o documento Apelo à resistência islamista mundial onde vai anunciado o programa da organização terrorista para superar a era Osama Bin Laden e Al-Qaeda. O documento reconhece a importância do 11 de setembro de 2001 para os objetivos de semear o medo e o horror. Mas indica que esse modo de funcionamento, deveras custoso e hierarquizado, ficara anacrônico. O essencial doravante seria o recrutamento em massa de combatentes, o que o modelo anterior fora incapaz de fazer, em países-alvo. Dessa proposta surge o jihadismo de terceira geração.

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O radicalismo de primeira atuara no Afeganistão de 1979 a 1997. O de segunda fora encarnado por Osama Bin Laden e sua Al-Qaeda de 1997 a 2005. O de agora desenvolve a política de proximidade. Inocula o ódio na veia de nacionais – pessoas jovens, muçulmanas ou convertidas, que vivem nos países-alvo. Esses países-alvo são todos, por enquanto, os países da Europa. A Europa é seu alvo prioritário. E, no seu interior, as vítimas devem ser civis inocentes dispersos em vida cotidiana ordinária em lugares de culto, escolas, transportes coletivos ou aglomeração mundana.

Pelas contas de Gilles Kepel, dos maiores especialistas europeus na matéria e autor do esclarecedor Terreur dans l’hexagone (Gallimard, 2016), as fileiras do Estado Islâmico dispõem atualmente de aproximadamente 700 combatentes franceses, 400 ingleses, 270 alemães, 250 belgas, 120 holandeses, 100 dinamarqueses, 60 austríacos, 50 noruegueses e 30 suecos e irlandeses.

Esses radicais radicalizados são, em sua maioria, provenientes da imigração e estão frustrados com sua integração nos países europeus. Atuam em subempregos e não avistam melhora de vida no curto e no médio prazos. Açodados pelo desespero diário, eles viram prezas fáceis da retórica do Estado Islâmico. Mohamed Lahouaiej Bouhlel foi só mais uma.

Conter e superar esse drama mundial de nosso tempo internalizado na imprevisibilidade previsível do Estado Islâmico demanda decisões contundentes, inapeláveis e implacáveis como, por exemplo, decidir bombardear ou não os territórios do Estado Islâmico na Síria e no Iraque; extraditar ou não todos os radicalizados monitorados pelos serviços de inteligência; prender ou não pessoas com indícios de radicalização.

Qualquer uma dessas decisões envolve consequências. Mas precisam ser decididas com sobriedade e urgência. Aquele caminhão – como bem intuiu Clovis Rossi na Folha de S. Paulo do 17/07 – atropelou todos nós.

2 http://www.elysee.fr/videos/new-video-48/

3 http://www.assemblee-nationale.fr/14/pdf/rap-enq/r3922-t1.pdf

 

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8 comentários

  1. No dia 14, pela manhã, achei

    No dia 14, pela manhã, achei belíssima a comemoração do Dia Nacional da França, com os soldados perfilados, marchando em Paris, etc. Mas, senti, fundo, um medo, como se eu fosse francesa e estivesse lá. Por que não lembrar que ainda se sentia o cheiro dos ataques dos Islamitas na mesma França. Eu pensei, e fiquei preocupada, até depois achar que estava sendo pessimistas, e que aquele povo tinha o direito e não temer e seguir em frente em suas comemorações. Mas, aí, vem a noite em NICE, como todos sabemos.

    Sabe-se agora que o governo francês, aliás como o americano também, não pode contar com órgão de inteligência como meio de evitar essas tragédias. Não foi precavido. E não se pode dizer, a estas alturas que a vida continua, que ninguém tem que viver com medo. Acho o contrário. Enquanto houver ameaça de ataques, em qualquer país que se sinta alvo desses fundamentalistas, algo tem que ser feito, e as pessoas tem mesmo que estarem atentas a tudo. 

    A história daquele carro imenso adentrando um espaço resevado apenas para os pedestres, que comemoravam o dia em NICE também ficou meio inexplicável. Como ninguém pôde entender que podia tratar-se de mais um criminoso no evento? O cara dirigia devagar, e lentamente foi aumentando a aceleração. Tinha que um policial ter visto aquilo e matado o mal no nascedouro. Era pra se suspeitar daquele carro.

    Aí, chego ao Brasil, e vejo como estão agindo de forma errada com essas informações detalhadas de como se prepara a polícia. Uma ora mostram os soldados simulando uma defesa; na outra, que foi deportado um professor de Física da UFRJ – amplamente divulgado – e mais uma série de notícias contra o EI. 

    Volto a dizer que se nem mesmo as grandes potências tem tido capacidade de se preservar dos ataques, como o Brasil, que nunca sofreu nada desse povo, pode garantir que está rpeparado para se defender? 

    Esses fundamentalistas não brincam em serviço. Seus métodos, postos em prática, são pra matar e morrer. Eles não temem a morte, e disso já sabemos de há muito. Do mesmo modo que na França não atacaram em Paris, preferindo ir a outra cidade, quem garante que possa haver um ataque aqui durante as Olimípiadas lá no Pará, em São Paulo? O que esse povo quer é pôr medo no Ocidente. E se o Brasil andava infeliz apenas com os traficantes e miliantes do dia-a-dia, agora tem mais com que se preocupar, porque a própria imprensa parece dizer que tá querendo.

     

    •  
      Tens carradas de razão

       

      Tens carradas de razão Maria Rodrigues. É de fato muito terrível o que estamos permitindo que se faça com a vida. Você, ao relatar a imagem daquele imenso caminhão que, inicialmente lentamente, pra logo em seguida acelerar rosnando ódio mortal, atropelando crianças, velhos, mulheres, gente, pessoas iguais aos nossos filhos pais amigos…inegavelmente foi um grande horror!

      Mas…me desculpe Maria, porém, não consigo impedir que retornem…lembranças parecidas com essas. Embora me refira àquelas ocorridas em geografia-humana distinta. Entretanto, em tudo mais, similar a esse terror que assistimos em nossos democráticos meios de informação agora. Pois lhe digo, aqueles eventos também tinham máquinas poderosas, pior, pois eram voadoras e cuspiam fogo e chumbo em brasa, e, bombas explosivas, torrando hospitais, escolas, praças, palácios, templos e casebres. Tudo conduzido por pilotos brancos, jovéns e provavelmente bons rapazes. Nem por isso, matavam menos impiedosamente, gente, pessoas, crianças e mulheres, que o piloto terrorista* do caminhão de Nice.

      Sabemos que no caso daquele povo ornado por panos e crenças não tão comuns a nós civilizados ocidentais. Mesmo se trantando de gente de carne e osso. Eles, até são parecidos com a gente. Possivelmente, antes de serem torradas em fogo, tinham também alma, desejos, alegrias e tristezas, que nem a que carregamos de nossos tão queridos irmãos da Europa.  O diabo é que, aqueles seres eram do Iraque, da Líbia, do Afeganistão. Lembro que a França adere mais recentemente a essa missão de levar a “democracia da carnificina,” ao bombardear à Líbia (teria  Kadaf recusado comprar os Rafalle?). Pelo que sei, nenhum terrorista arremessou um Boeng na torre Eiffel.

      Só não compreendo que bombas arremessadas por pilotos de aviões a quilômetros de altura, embora, causem danos mais terríveis ao ser humano e ao tão decantado meio-âmbiente. Nem por isso, tenha sido objeto de nenhum protesto de verdes nem dos roxos da fé. Por certo, a morte de seres humanos não ocidentais, não venham ao caso. Inclusive, há controvérsias acaloradas quanto a terroristas serem abrigados por tratados de defesa dos animais. Imaginem, se pelos direitos humanos.

      Orlando

      *Terrorismo. Matar em nome da “civilização ocidental”, utilizando-se para tal mister, equipamentos tecnológicos originais, pilotados presencialmente, ou, à distância, e adequados às finalidades de defesa da democracia e dos valores da civilização Ocidental, não cabe o epíteto de terrorista, ao criminoso branco. Terroristas, são os outros.

  2. quem sabe se antes de invadir os outros, eles pensassem um pouco

    evitava esse tipo de coisa. invadiram e ferraram com a vida de milhões, que agora raivosos querem vingança.

    certamente quando isso acontecia nas colônias, não davam essa atenção.

    prefiro me compadecer dos males do 3 mundo, não com os deles.

    • Atenção!

      Então fica assim: ficam liberados e justificados ataques terroristas contra todos países historicamente colonialistas e neocolonialistas.

      Que se cuidem Reino-Unido, França, Bélgica, Alemanha, Holanda, Espanha, Portugal, Itália, Estados Unidos, Rússia e Japão.

      É isso?

      Frederico, atenção: cuidado para onde você queira viajar.

  3. opa…

    “O mundo inteiro voltou a ser francês.”

    Qual mundo?

    França é um país extremamente belicoso.

    A guerra, hoje, é bem diferente daquela de 1939/45. Uns usam estilingues, outros mísseis. Uns tem uma mídia que os protege, até mesmo ampliando os fatos (Norman G. Finkelstein). E, de outro lado, essa mesma mídia sataniza costumes, religiões e pessoas.

    É a guerra.

    E seria muita ingenuidade pensar que as guerras são movidas por patriotismo, torá, bíblia, alá ou coisas desse tipo. Isso é conversinha prá boi dormir.

     

  4. Foi confirmado pela embaixada

    Foi confirmado pela embaixada brasileira, que existe uma brasileira entre os mortos. Depois da confirmação dos teste de DNA. A brasileira estava sumida há três dias.

  5. Horror

    As “razões” dos atentados terroristas são mutiplas e dispersas, incluindo a lavagem de dinheiro das drogas. Daech assumiu esse crime, mas por tudo que tem aparecido sobre o caso, parece que foi mais um ato de odio pessoal (odio ao Pais de imigração, intolerância, desagregação etc) que outra coisa. Foram 84 mortos, entre elas 10 crianças, que pais e mães ou o que sobrou dessas familias choram.

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