Um ano sem Marielle Franco: o que dizem as investigações sobre sua morte e um pouco de seu legado

Em apenas um ano e três meses de exercício do primeiro mandato, Marielle apresentou 116 proposições na Câmara, defendeu direitos humanos de moradores de comunidades e concedeu medalha Chiquinha Gonzaga para Dona Dida.

Arquivos PSOL

Jornal GGN – Por volta das vinte e uma horas e dez minutos, do dia 14 de março de 2018, um Cobalt cor prata com placa clonada fechou um outro veículo na Rua Joaquim Palhares, bairro Estácio, zona Central do Rio de Janeiro. Do primeiro carro saíram treze disparos, atingindo Marielle na cabeça e Anderson nas costas. Ambos morreram. Uma assessora que estava acompanhando Marielle foi atingida por estilhaços e sobreviveu.

Um ano depois, ainda não se sabe quem foram os mandantes dos crimes. A 48h de se completar o aniversário de morte de Marielle a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro realizaram a Operação Lume levando à prisão o militar reformado Ronnie Lessa e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, o primeiro acusado de ter disparado os tiros e o segundo de estar dirigindo o Cobalt prata no momento das execuções.

Durante coletiva de imprensa, os investigadores disseram que ainda não tinham esclarecimentos de quem foram os mandantes da morte de Marielle e que essa questão ficará para a segunda fase das investigações.

“O caso ainda está em aberto”, resumiu o delegado Giniton Lages, chefe da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro. Ainda na terça-feira (12), a Operação Lume cumpriu 34 mandados de busca e apreensão e, no dia seguinte, outros 16 mandados.

“Se ele [Ronnie Lessa] resolveu da cabeça dele, é uma hipótese, está em aberto. Se ele recebeu para fazê-lo, está em aberto. Por isso que a segunda fase é muito difícil”, completou Lages durante coletiva de imprensa no dia das prisões.

Na quarta-feira (13), o governador do Rio Wilson Witzel convidou o delegado para fazer um intercâmbio com a polícia italiana para estudar a máfia.

Para justificar o afastamento de Lages, em um momento delicado onde se completa um ano da morte de Marielle sem a resolução do crime, Witzel argumentou que o convite aconteceu porque o delegado “está cansado”, “esgotado”.

“É uma investigação que teve um certo esgotamento da pessoa”, disse afirmando que os trabalhos não serão comprometidos com a mudança. “Aquela investigação que foi feita, o conhecimento foi compartilhado com outros delegados. Outros delegados têm o mesmo conhecimento de como foi produzida a prova”.

Leia também: Investigadores do caso Marielle decidiram pelas prisões para evitar achincalhe, por Janio de Freitas

Quem era Marielle Franco

Um dia antes de ser morta, Marielle postou em sua conta no Twitter um desabafo. “Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, questionou.

As redes sociais eram uma das ferramentas utilizadas por Marielle para lançar luz a violência de policiais contra moradores de comunidades no Rio de Janeiro. “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41º batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte”, escreveu a vereadora poucos dias antes de seu assassinato.

Marielle Franco se elegeu pela primeira vez a um cargo na política em 2016, pelo PSOL. Foi a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, com o apoio de 46 mil eleitores. Ela chegou à Câmara da capital carioca representando as bandeiras do feminismo e dos direitos humanos.

Ela nasceu e foi criada na Maré. Foi mãe aos 19 anos, de uma menina. Estudou sociologia na PUC com bolsa integral. Fez mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF) gerando o trabalho de conclusão “UPP – A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.” Marielle também foi assessora parlamentar de Marcelo Freixo (PSOL), quando deputado estadual.

Durante um ano e três meses como vereadora, ela apresentou 116 proposições (entre eles 16 projetos de lei) na Câmara. Dois projetos apresentados junto com outros parlamentares se tornaram leis: um foi a restrição de contratos da prefeitura com organizações sociais na área de saúde, o outro a autorização do serviço de mototáxi na cidade.

Marielle presidiu ainda a Comissão de Defesa da Mulher, trabalhou para ampliar o número de Casas de Parto e apresentou o projeto para a criação do Dossiê da Mulher Carioca. A proposta do trabalho era compilar dados sobre violência de gênero no município para ser entregue a prefeitura do Rio.

Poucos dias antes de sua morte, durante os eventos em comemoração ao 8 de março, Dia Internacional da Mulher, Marielle entregou a medalha Chiquinha Gonzaga para Dona Dida, numa proposta para cultivar a memória da cultura negra. Dida é criadora de um bar na Praça da Bandeira, que leva seu nome, e serve pratos africanos.

Na noite em que foi morta, a vereadora tinha ido à Casa das pretas, na Lapa, mediar um debate com jovens negras.

No dia 17 de julho de 2018, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou a Lei Lei 8054, incluindo o dia 14 de março ao Calendário Oficial do Estado do Rio de Janeiro como o “Dia Marielle Franco – Dia de Luta contra o genocídio da Mulher Negra”.

O placa e o símbolo

No dia 30 de setembro, durante um ato de campanha em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro, o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) segurou em frente a centenas de eleitores uma placa em homenagem à vereadora Marielle Franco quebrada ao meio. Os recém eleitos deputado federal Daniel Silveira e o governador Wilson Witzel acompanhavam o ato.

Reprodução/Facebook

Amorim não parou por aí e continuou com a simbologia do ato exibindo a placa quebrada como peça de decoração em seu gabinete, segundo denúncia feita por um leitor do O Globo, que fotografou o local.

Procurado pelo jornal, Amorim confirmou que mandou emoldurar a placa quebrada. “O fragmento da falsa placa é o símbolo da restauração da ordem no Rio de Janeiro. Há alguns dias me manifestei no plenário da Alerj quanto à desordem protagonizada por alguns deputados da esquerda que pretendem transformar os corredores do Legislativo em local de doutrinação ideológica”, procurou justificar.

Esperamos que a “ordem” que Amorim deseja “restaurar” não seja em apoio ao assassinato de defensores de diretos humanos.

A placa de rua em homenagem a Marielle havia sido fixada por alidados da vereadora em frente à Câmara Municipal do Rio, no lugar de outra que indicava “praça Marechal Floriano”.

Nesta quinta-feira (14), ao completar um ano da morte da vereadora, o governador Witzer pediu desculpas aos familiares de Marielle pelo ato de quebra da placa. “Ele nos pediu desculpas porque não participou ativamente daquele ato e disse que não sabia. Era um ato individual de cada um. Ele não tem como responder por qualquer outra pessoa. Ele assumiu o compromisso [sobre uma] segunda etapa das investigações”, afirmou Marinete da Silva, mãe de Marielle.

Leia também: As conexões entre os Bolsonaro e milicianos presos pelo assassinato de Marielle Franco

2 comentários

  1. Em resumo: a) um desgovernador tão trambolhão quanto o delega que disse-que-disse e foi-se cansado pras itálias mafiosas; b) um desgovernador que não se assume nem como governador, nem como pessoa, já que humano, há sérias dúvidas; c) um desgovernador que morre de medo de a polícia, mesmo comprometidíssima com as milícias et caterva, venha a descobrir os mandantes e que os mandantes estejam muito mais próximos do que a simples vizinhança; d) um desgovernador que não tem o menor pejo em fugir da raia sempre que a verdade bate à porta; e) um desgovernador que “acolhe” bretas e brechas pra se livrar do inexorável: o assassinato político-fascista-miliciano-palaciano da vereadora; f) para piorar, um mp “diaraque” a embasar a não investigação, já que o procurador-mor-daquela-coisa-dita-institucional é nomeado pelo desgovernador. E dizer que os cariocas elegeram o coiso e seus coisosnazis.

  2. Nassif: o que eu mais gostei nesse caso foi a investigação haver sido dividia em duas fazes.

    Na primeira, como seu blog mostrou desde o começo, os VerdeSauvas desconversam nas informações até que passou a eleição, pois sabiam do envolvimento das Milícias do Tanque e a aproximação do caso com os moradores daquele conhecido condomínio do Rio de Janeiro seria inevitável. Um dos comandantes da “intervenção” chegou a dizer que tinha grandes na parada. Mas os KibeCoxinhas e as VarandasGourmets promoveram o silêncio do caso pois o interessante era manter a cana do SapoBarbudo e ganhar as eleições a qualquer preço. Conseguiram, apoiados pelos 56 milhões de semelhantes.

    Nessa agora, a segunda, que tá por vir à parada, o buraco fica mais em baixo. Dizem que o risco de “respingar” no Planalto não pode ser descartado. E disso sabiam, desde o começo. Então, não foi atoa a escolha dos ministros da Justiça, da Defesa e da CasaCivil. Do primeiro, fato notório é ser ele mestre nesse tipo de desfaçatez. De cara lavada, é capaz de condenar o Papa, só por ele ser argentino e torcer pro BocaJunior. Os outros são “reservas de mercado”, sado algo saia errado com o ex Verdugo.

    As investigações, nessa inigualável faze, vão ser uma gracinha. Acho que até o Japonês será convidado a participar. Isso sem falar do GogoboyChefe, que, com 2,5 bilhões de R$ no bolso, já deve tá bolando um outro fantástico PowerPoint. A CIA tem ajudado no que pode. Botaram uns fuzis da MarinhaNorteAmericana na parada só prá apimentar o caso. Apesar de ser verdade. Sei não se essas armar saem do carregamento da IV Armada, estacionada na boca do PreSal. Mas não vai dar em nada. O da Justiça deve garantir…

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