Uma luz sobre o preconceito contra os refugiados

Patricia Faermann
 
Vídeo e edição: Pedro Garbellini
 
Abraço Cultural, um projeto que vai na contramão do país que recebe, mas não acolhe imigrantes que precisam de asilo. Assista ao vídeo
 
Fotos: @camilazoef
 
Jornal GGN – Refugiar. Do dicionário, “(lat refugere) 1. Abrigar-se em lugar seguro; esconder-se. 2. Procurar, quando perseguido, principalmente por crime político, asilo ou acolhimento em país estranho; expatriar-se. 3. Acolher-se, resguardar-se. 4. Procurar proteção“. 
 
Apesar de explícita a descrição da palavra, aqueles que são colocados nesta situação padecem carregar um significado histórico-cultural aquém de suas próprias condições. Os refugiados estão no limite de uma denominação pejorativa, seja pelo desconhecimento da realidade, seja pela repercussão mais latente que as crises econômicas provocam na segregação das classes. Nessa conjuntura de extremos, o “diferente” é item adicional da exclusão.
 
O ano de 2015 foi precisamente um período de refúgios por todo o mundo. Populações que tiveram que deixar seus países de origem, suas profissões, culturas e por vezes a própria família, com o único objetivo de uma vida melhor. Ou, em muitas situações, a garantia restrita da sobrevivência.
 
“Mais de mil refugiados entraram na Macedônia pela fronteira com a Grécia”, “Aumenta o número de migrantes resgatados no canal da Sicília”, “ONU considera caótica situação de refugiados que chegam à Grécia”, “Crimes racistas crescem com aumento de refugiados na Alemanha”, “Mundo enfrenta pior crise de refugiados desde a 2ª Guerra, diz União Europeia”, são notícias apenas deste mês.
 
A Grécia recebeu, só em julho, 50 mil pedidos de asilo, quase dez vezes mais que os 6 mil registrados no mesmo mês do ano passado. A Alemanha acredita chegar ao recorde de 800 mil pedidos de proteção este ano. Turquia, França e Hungria são os outros três países mais procurados por refugiados da Síria e do Afeganistão. Mas as solicitações de asilo são respondidas, em sua maioria, com negativas e o mundo não está conseguindo gerir o fluxo de migrações.
 
Engana-se quem acredita que o Brasil esteja fora disso.
 
Estamos com 8,4 mil refugiados, segundo dados do Comitê Nacional de Refugiados (Conare). É o dobro do que o país acolhia quatro anos atrás. O maior contingente de populações que buscam a proteção são os sírios, com mais de 2 mil pessoas. Em seguida, 1.400 angolanos tentam asilo, 1.093 colombianos, 844 congoleses e 389 libaneses. 
 
Os haitianos que migraram, sobretudo para São Paulo, não estão nos dados, porque essas populações estão sendo analisadas pelo Conselho Nacional de Imigração para autorização da permanência por razões humanitárias.
 
Essas oito mil pessoas estão oficialmente registradas na condição de refúgio. Mais de 12,6 mil, entretanto, ainda aguardam julgamento do Conare.
 
Necessário notar que o órgão dedicado a tratar desse tema no Brasil é uma seção do Ministério da Justiça. Não da Secretaria de Direitos Humanos, tampouco do Desenvolvimento Social. Porque a regularização de estrangeiros é negociada pela Justiça e, assim, todas as implicações de vulnerabilidade social são banalizadas e os refugiados são submetidos a exigências equiparadas a qualquer estrangeiro.
 
Essa é uma das críticas do fundador do Instituto de Reintegração do Refugiado (Adus), Marcelo Haydu. Para ele, o país começou agora a entender o que é o fenômeno. Nesse meio tempo, obstáculos desde a dificuldade da prova de português para revalidar o diploma de graduação, até políticas públicas mais amplas para gerar trabalho, estudo, moradia e quebra do preconceito são outras fronteiras que os refugiados precisam passar.
 
Foi nesse cenário recente e turbulento de revés para aqueles que precisam de abrigo no Brasil que um projeto nasceu para lembrar que os refugiados têm nome, sobrenome, cultura, conhecimento e, inclusive, graduação. Podem gerar renda, podem ser úteis, podem contribuir para o crescimento da economia e do país.
 
“Tem gente muito boa vindo para cá. Engenheiros, médicos, contadores… E as pessoas precisam conhecer mais sobre o tema do refúgio, a falta de informação gera preconceito. Como podemos incluir essas duas coisas? Eles já têm de uma forma natural o ensino do idiomas, por que a gente não faz um projeto onde esses refugiados possam dar aulas de inglês, francês, espanhol, árabe, dialetos, para brasileiros?”, questionou Marcelo Haydu.
 
https://www.youtube.com/watch?v=yc0nHPsgp8Y&feature=youtu.be width:700 height:394
 
O Abraço Cultural surgiu assim. Uma parceria do Instituto de Reintegração do Refugiado com a plataforma social Atados, que conecta pessoas e organizações, também obteve apoio da BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul) e de outras entidades. É um curso de idiomas e de culturas.
 
A primeira experiência foi realizada em julho deste ano, com turmas para o curso intensivo de férias. A expectativa de atingir 40 alunos obteve uma procura de 500 pessoas. Nessa tentativa que deu certo, o projeto ficou e, agora, novas aulas terão início em setembro.
 
“Quando começamos o curso de línguas, as pessoas não botam fé que os refugiados podem dar aulas de língua. Só que os nossos professores são formados em medicina, formados em engenharia, em letras, formados em história. Eles têm uma capacidade muitas vezes melhor do que os professores do Brasil, sem contar a parte cultural. E eles encontram em todos os lugares dificuldades e preconceitos”, disse Daniel Assunção, coordenador do Abraço Cultural.
 
“Eu era advogado. Cheguei aqui e até agora não consegui fazer nada da minha profissão. Estou cinco anos parado”, disse um dos professores que ministrará aulas de inglês. Refugiado do Congo, vende roupas para ganhar dinheiro. Mas decidiu que começará a atuar na área lutando pelos direitos dos refugiados. 
 
“O povo brasileiro tem na mente a África do século XV, de mil e quinhentos e pouco. Só falam que a África é machista, pensam na África da fome, quando as pessoas não usavam roupa. Mas a África já mudou”, alertou. 
 
Daniel Assunção lembrou que o grande problema é a inserção no mercado de trabalho, além da própria adaptação cultural. E o maior obstáculo para se contratar um refugiado é o preconceito. “Existe preconceito até da palavra. ‘Refugiado’. De achar que é um criminoso”, apontou.
 
Do dicionário, “(lat refugere) 1. Abrigar-se em lugar seguro; esconder-se. 2. Procurar, quando perseguido, principalmente por crime político, asilo ou acolhimento em país estranho; expatriar-se. 3. Acolher-se, resguardar-se. 4. Procurar proteção“. 
 
Conheça mais sobre o projeto Abraço Cultural, aqui.
 

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3 comentários

  1. Nossas reivindicações devem

    Nossas reivindicações devem se voltar ao atendimento dos direitos sociais dessa população. Temos noticias que  eles vivem em condições precárias. A cidade de Criciúma, no estado de Santa Catarina, há tempos, tem recebido um enorme número de haitianos e, principalmente desde junho de 2014 (quando a entrada de estrangeiros aumentou em função da Copa), a presença de trabalhadores e jovens tem sido acompanhada por outros irmãos negros que também fogem da miséria: africanos de Gana, Senegal e Uganda. Além de Criciúma, centenas de refugiados passaram pelo Acre, onde o descaso das autoridades resultou em milhares vivendo em tentas, sem alimentos, roupas, condições mínimas de higiene ou quaisquer perspectivas. De onde eles vem não importa. São homens, mulheres, jovens, adolescentes e crianças que devem ter seus direitos humanos garantidos! Precisam de trabalho, de comida e de teto. Negar isso, é contribuir com suas mortes.

  2. essa é a liberdade de ir e vir

    do “mundo livre”, quando estatísticas recentes indicam que, no mundo, aumentou muito a diferença de ínfima minoria com poder econômico (e afins…) em relação à ampla maioria. (Mas creio que os visitantes do blog sabem dessas coisas, ou em parte). Válido o post-título e também o outro título sobre Cuba e o futuro.

  3. Resta saber se essas

    Resta saber se essas ‘vítimas’ não embarcaram nessas primaveras promovidas pelos USA para desestabilizar seus governos e agora pagam a burrada que ajudaram a construir. Como não são pobres mas, pelos menos, classe média, seria interessante conscientizar o brasileiro da gravidade da situação a alertar esses coxinhas para as aventuras que estão sendo empurrados e que, logo, logo, talvez, sejam eles os que terão que procurar refúgio em outros países. E lembrar ainda que aos USA só interessa refugiados altamente escolados, preparados. Coxinhas só são bem-vindos por lá para gastar em dólares e não para para buscar refúgio.

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