2019, o ano em que brincaremos de matar?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Hannah Arendt disse que “Somente a pura violência é muda, e por este motivo a violência, por si só, jamais pode ter grandeza.” (A condição humana, Hannah Arendt, Forense, 10ª edição, São Paulo, 2008, p. 35).  Um pouco mais adiante a grande pensador afirma que “O ser político, o viver numa polis, significava que tudo era decidido mediante palavras e persuasão, e não através de força ou violência.” (A condição humana, Hannah Arendt, Forense, 10ª edição, São Paulo, 2008, p. 35).  

Durante a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro falou que ia exterminar petralhas e ensinou crianças a atirar. Depois ele disse que estava brincando.

Brincar de matar é um fato no Brasil.

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff210401.htm

https://www.revistaforum.com.br/autor-de-assassinato-homofobico-na-paulista-diz-que-estava-brincando/

Nosso país foi colonizado pela violência. Como a representação do deus Jano (não por acaso adotada como símbolo do antigo SNI), nossa cultura tem duas faces.

Uma sorridente e tolerante (a do carnaval) e outra terrível, autoritária e genocida (o autoritarismo). Quando não brincaram de matar índios que defendiam suas terras ancestrais, as tropas coloniais, imperiais e republicanas brincaram de matar mestiços pobres rebelados, negros fugidos, nordestinos supostamente monarquistas, sindicalistas, comunistas, etc…

Os juízes brincam de fazer justiça. As vezes eles fazem isso de arma em punho, depois afirmam que não lembram de nada https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1105200539.htm.

A persistência da violência e/ou sua transformação numa brincadeira explicam porque o Brasil jamais terá grandeza. Nosso país tem o tamanho de uma minúscula cela de prisão. Naquela em que o ex-presidente Lula foi confinado para morrer porque alguns juízes brincam de fazer injustiça e outros temem os militares que ameaçam brincar de matar juízes a grandeza dele se expande mundo afora. Apesar de tudo e de todos, em nenhum momento Lula exigiu ou aconselhou o uso da violência contra aqueles que violentara, o sistema constitucional para impor o neoliberalismo ao Brasil.

Desde 2016 não vivemos numa polis (termo que deve ser entendido aqui como um sinônimo de Estado de Direito). O golpe de estado “com o Supremo com tudo” substituiu o sistema constitucional negociado em 1988 por um simulacro que tem sido imposto a força pela cúpula do judiciário, por parlamentares mafiosos, banqueiros sequiosos de lucros e barões da mídia elitistas.

Leia também:  Talvez o “Novo Normal” possa ser uma pandemia a cada dois ou três anos, por Rogério Maestri

Em breve o novo governo vai liberar a compra e venda de armas de fogo. A brincadeira tem que continuar. Quantos índios, negros, gays, sem-terras, petistas, etc… terão que ser mortos para que comecemos a reagir? Quando começarem a brincar com as vidas daqueles que gostam de brincar de matar seus adversários a violência vai crescer ou diminuir? A resposta de Lula a última pergunta parece ser SIM. Eu realmente não consigo responde-la. 

 

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1 comentário

  1. A incompetência e a violência

    A incompetência e a violência da política econômica do próximo governo farão aumentar o caos social, econômico e jurídico. A aparência de sociedade vai se desmanchar e os militares tentarão reerguer o castelo de areia na base de tiros e bombas.

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