Mesmo com falta de negros na mídia, cineasta diz que Brasil não quer se “branquear”

Passados 125 anos da assinatura da Lei Áurea pela então princesa Isabel, que aboliu a escravidão negra em todo o território nacional, os afrodescendentes ainda não se livraram das causas e das consequências do racismo.

Na data correspondente à alforria geral dos negros escravizados, “comemorada” nesta última segunda-feira (13), o documentário Raça foi apresentado ao público de São Paulo. A pré-estreia ocorreu no cinema da Livraria Cultura, na avenida Paulista. O lançamento nacional acontecerá na próxima sexta-feira (17) e toda a verba arrecadada será doada ao Fundo Baobá, entidade que promove ações de igualdade racial.

O filme mostra a perspectiva da igualdade racial por meio de três personagens, com vivências totalmente distintas: a quilombola Elda Maria dos Santos, a Miúda, da Comunidade Linharinho, no Espírito Santo, que luta para impedir as ações de uma empresa de celulose que quer invadir suas terras; o senador Paulo Paim (PT), durante as negociações da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial; e o cantor e político Netinho de Paula (PC do B), que tentou emplacar a TV da Gente, primeira no Brasil voltada ao telespectador negro.

Dirigido pela norte-americana Megan Mylan e pelo brasileiro Joel Zito Araújo, Raça tenta trazer ao debate os imbróglios causados pela desigualdade racial no país. Diretor do conceituado A Negação do Brasil (2001), que aborda a invisibilidade do negro nas telenovelas, Araújo se diz otimista em relação à imagem do negro atualmente e quer que a película sirva de ferramenta ideológica. 

“Queremos que as pessoas façam deste filme um instrumento de debate público. Estamos vivendo um momento especial, com as políticas afirmativas, a inserção de estudantes negros nas universidades”, conta o diretor.” Eu queria que essa luta, que é de muita gente, seja compreendida por mais pessoas, até porque não houve, nem pela mídia, nem pelo Senado, uma democratização do debate”, acrescenta.

Leia entrevista concedida pelo cineasta brasileiro ao Jornal GGN:

Jornal GGN – Treze de maio ou 20 de novembro: qual é a data que melhor representa a luta do negro?

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O 20 de Novembro [Dia Nacional da Consciência Negra], obviamente. Embora a abolição tenha sido uma conquista que foi fruto da luta dos negros, infelizmente ficou na história como uma doação de uma princesa branca. O 20 de novembro é uma conquista histórica do movimento negro, pois ressalta um herói de nossa história [o mítico Zumbi, do quilombo dos Palmares]. Ambas as datas são conquistas negras, vamos frisar isso. A abolição não foi uma medida de uma princesa boazinha que um belo dia acordou e pensou: “vou libertar esses pretinhos”. 

Sobre um dos pontos do filme, que é o negro na mídia, por que o segmento tem tanta resistência em mostrar o negro de uma forma que não seja caricata?

Olha, a mídia, especialmente a TV, mas o meio impresso também, está vendendo um produto, portanto tem o seu patrocinador, e a publicidade desse patrocinador. Ela acha que os seus patrocinadores têm uma visão retrógrada em relação ao que é o país. O Brasil não é um país que quer se branquear, não é o país que quer largar o passado africano e indígena para virar uma nação branca europeia do século 19. O Brasil é um país diverso, com  japoneses, libaneses, coreanos, chineses e por aí afora. Mas tem um setor de poder da mídia que ,na tentativa de agradar ao cliente, acaba mantendo a posição retrógrada.

E sobre a postura da mídia em relação ao estatuto da igualdade racial, uma pesquisa da UERJ, de 2001 a 2009, apontou que mais de 90% dos veículos de SP e RJ eram contrários à aprovação do documento. Você vê resistência nisso?

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Essa pesquisa a que você está se referindo, que não é só sobre o estatuto, mas de políticas afirmativas de maneira geral, mostra uma mudança de conduta. Eu, por exemplo, quando lancei A Negação do Brasil (2001), tive todo destaque na mídia e até um elogio pelo trabalho que tinha feito. Em 2005, quando lancei Filhas do Vento, senti uma mistura editorial da mídia, com uma ala que era a favor de políticas afirmativas, e outra que tentava detonar o filme por meu nome estar ligado como favorável às políticas afirmativas no Brasil. Eu continuo achando que há setores como uma visão muito conservadora. Institutos de pesquisa constataram que, pelo menos, 60% dos brasileiros eram a favor das cotas. Mas a mídia prefeririu acalantar parte de seus leitores, de classe média alta.

Quanto à falta de negros na TV e na mídia em geral, você acha que um dia iremos alcançar o mesmo nível dos EUA, em que negros são normalmente âncoras de jornais, aparecem na publicidade e em filmes como pessoas comuns?

Daqui a 20 anos seremos muito bem-sucedidos, eu não tenho dúvida. Os EUA têm 13% de população negra e nós temos 51%… em duas décadas a gente muda tudo. Mesmo assim ainda é muito tempo. O Brasil de hoje é os Estados Unidos dos anos 1970. Mas eu acho que a gente tem conquistado bastante coisa.

Em 1988, Zózimo Bulbul  [morto em janeiro] fez o filme Abolição, no centésimo ano após a libertação. Hoje, 25 anos depois, o que você acha que mudou em relação à vida do negro no Brasil?

A gente tem conquistado muita coisa, vejo que o Brasil já é um país diferente em relação àquele país do final dos anos1980. Só de estar num evento como este, num filme abertamente favorável à população negra, em um cinema como este, sendo entrevistado por uma repórter negra… Isso não haveria nos anos 1980. Já existe uma geração fruto da política de ação afirmativa. Mas o Brasil não está aonde eu quero, ainda está a passo de tartaruga no que diz respeito à igualdade racial.

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Já se passaram dez anos da aprovação da lei 10.639/03, e a aplicação de história e cultura afro-brasileira no currículos dos ensinos fundamental e médio ainda não é dada em todo o país. Você vê descaso nisso?

A não aplicação da lei se deve a muitos fatores: ao despreparo, à não formação dos professores, à ignorância religiosa, que protesta contra o estudo da história da África como se estivesse estudando a história do diabo, né? Eu acho que o governo está fazendo  sua parte, mas o despreparo nacional, a mentalidade nacional é muito ruim nesse sentido.

Veja trailer do filme:

 

 

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2 comentários

  1. Muito bom o filme

    Estive na pré estreia do filme raça e gostei muito um filme de conteúdo que nos leva a reflexão ,parabens ao Joelzito e tda equipe aos poucos tudo vai se ajeitando a democracia vai se estabelecendo e o Brasil vai melhorando,esta  nossa terra tem muita gente boa que precisam aparecer mais para lançar um manto de luz sobre o mal que aqui impera.sou um homen negro sofri e sofro na pele o racismo mas nem isto consegue tirar a minha fé e enxergar as pessoas boas que são branca,japoneses,árabes etc sonho um dia de união paz e fraternidade,sonhar com um futuro melhor não é utopia.

  2. Porque há tão poucos negros na mídia no brasil

    Porque infelizmente ainda existe muito racismo e a presença de negros apresentando um programa, por exemplo, se este programa não for voltado à comunidade negra, provavelmente abaixaria o ibope! Nos comerciais, acho que as empresas teriam medo de deixar de vender por usarem negros para divulgar seus produtos. 
    Mas aposto que se você fizesse uma pesquisa de opinião, ninguém ia dizer que deixaria de assistir ao programa ou deixaria de comprar o produto, NINGUÉM admite que e racista!

    Mais sera que é só isso, nao há mais ? Faça essa pergunta para você mesmo e se veja no lugar deles !

    Porque mais branco , será que é por causa dos Europes , de oportunidade pares eles , vc vai ver são mais inteligêntes que você pensa serio !!

    Sim poço ser ujm pouco rascista mais fazer o que se todo mundo é ! Não existe alguém no mundo que nao sejá rascista nesse mundo . Tem alguns menos ,  outros mais , nunca se sabe neh maisde al oportunidade você nao vai se arrempender por que eles nao vão de decepcionar você !!!! Não só negra mais eu queria ser , nao tenho nada contra branco !!

    De uma chance com eles na midia decha eles fazer teus comerciais você vai ver pode fazer ate melhor que você pensa !!

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