Ex-alunos pedem afastamento de professor envolvido com ditadura

Jornal GGN – O médico-legista Roberto Blanco dos Santos, que leciona na Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, foi citado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade e agora ex-alunos estão mobilizados para pedir o seu afastamento. De acordo com o documento, Roberto Blanco dos Santos “teve participação em casos de emissão de laudo necroscópico fraudulento”. “Considero o Blanco um dos maiores canalhas da repressão. Deu uma canetada que se iguala a mandar torturar”, disse Lygia Jobim, filha do ex-embaixador José Jobim, que teve o laudo de suicídio assinado por Santos.

Professor citado em relatório causa constrangimento em universidade

Por Felipe Werneck

Do Estadão

Médico-legista que dá aulas no Rio é apontado como um dos 377 autores de violações de direitos humanos na ditadura

RIO – Ex-alunos da Universidade Candido Mendes estão mobilizados para pedir o afastamento do professor Roberto Blanco dos Santos, de 74 anos, apontado como um dos 377 autores de graves violações de direitos humanos no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). O médico-legista atuava no Instituto Médico Legal (IML) do Rio durante a ditadura militar. De acordo com o relatório, Santos “teve participação em casos de emissão de laudo necroscópico fraudulento”.

Procurada pela reportagem após a divulgação do documento, em dezembro, a instituição informou que “o Dr. Santos é professor, apenas, da disciplina eletiva de Medicina Legal” e que não tem como “precisar o que vai acontecer no próximo período”. Santos não foi localizado pelo Estado.

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Embaixador José Jobim é uma das vítimas relacionadas a professor

A CNV relaciona oito vítimas ao nome dele. Entre elas, o ex-embaixador José Jobim, encontrado morto em 1979, com o corpo pendurado pelo pescoço em uma árvore, no Rio. O laudo de exame cadavérico que apontava suicídio por enforcamento foi assinado por Santos.

“Ele não descreveu os ferimentos causados sob tortura. Ele fez parte da equipe que matou meu pai”, diz advogada Lygia Jobim, que se formou na Candido Mendes em 1988. Ela conta que evitava cruzar com o professor nos corredores da Faculdade de Direito. “Não poderia assistir a uma aula desse monstro. Por sorte, foi oferecido um curso de férias com outro legista”, diz Lygia. “Considero o Blanco um dos maiores canalhas da repressão. Deu uma canetada que se iguala a mandar torturar.” Em 1983, a então promotora Telma Musse pediu novas investigações sobre o caso de Jobim, baseando-se na “dubiedade do laudo”. Dois anos depois, a morte foi qualificada como “homicídio por autor desconhecido” e o processo foi arquivado.

Também ex-aluna da universidade, a advogada Priscila Prisco, integrante da Comissão de Direitos Humanos na Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ), se articula para pedir o afastamento do professor. “Esse era um assunto tabu internamente, mas agora a situação se tornou pública. Vamos cobrar que tomem uma atitude para que ele não seja mantido educando as novas gerações”, diz ela, que foi aluna de Santos no curso de Direito Penal e formou-se em 2006.

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Fundadora do Grupo Tortura Nunca Mais, Cecilia Coimbra era amiga de quatro das vítimas citadas no relatório. De acordo com a versão oficial, Fernando Augusto da Fonseca, Getúlio Cabral, José Bartolomeu de Souza e José Silton Pinheiro morreram em tiroteio no Rio, em 1972. “Foi uma farsa. Ficou provado que o Fernando foi preso no Recife e trazido sob tortura.” Cecilia cobrou que os IMLs sejam desvinculados das Secretarias de Segurança, como recomenda a CNV. Ela lembrou que o Tortura Nunca Mais foi fundado em ato na Candido Mendes, em 1985. “Hoje, a universidade acoberta um torturador. É inadmissível e lamentável que a universidade mantenha esse senhor em seus quadros.”

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