No dia de hoje… Piauí, presente!

Em 12 de junho de 2019, Antônio de Pádua Costa (1943 - 1974) comemoraria o seu aniversário de 76 anos. Mas ele, o Piauí, aos 30 anos, foi uma das vítimas de desaparecimento forçado na região do Araguaia.

da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

No dia de hoje… Piauí: presente!

Em 12 de junho de 2019, Antônio de Pádua Costa (1943 – 1974) comemoraria o seu aniversário de 76 anos. Mas ele, o Piauí, aos 30 anos, foi uma das vítimas de desaparecimento forçado na região do Araguaia. Das várias operações perpetradas na região, Piauí ‘caiu’… na intitulada Operação Marajoara. Era mais uma das ações planejadas e comandadas pela 8ª Região Militar (Belém) com cooperação do Centro de Inteligência do Exército (CIE), que, mais tarde, se tornaria CIEEX (Central de Integração entre Empresas e Exército – fase ‘Boilesen”) e depois, a inocente, CIEE (Central de Integração entre Empresas e Escolas). Chamamos de “inocente” pois muitas pessoas comuns – ligadas ou não a integrantes de empresas e exército – participaram, como estagiários(as), nesses programas, menos os(as) jovens com sobrenomes ligados a militantes políticos(as), que jamais eram aceitos(as).

Voltemos à Operação Marajoara. Ela foi iniciada em 7 de outubro de 1973, como uma operação “descaracterizada, repressiva e antiguerrilha”, ou seja, com uso de trajes civis e equipamentos diferenciados dos usados pelas Forças Armadas. O seu único objetivo foi destruir as forças guerrilheiras atuantes na região do rio Araguaia e sua “rede de apoio”, formada pelos camponeses que com elas mantinham ou haviam mantido algum tipo de contato.

Em 1968, Antônio de Pádua, então com 25 anos, havia sido preso durante o famoso XXX Congresso Nacional da União Nacional dos Estudantes (UNE), na cidade de Ibiúna (SP), que teve a maciça participação de quase todos/as os/as jovens estudantes daquele tempo, oriundos(as) dos estados de Minas, São Paulo e Rio. Integrantes ou não de movimentos de militância política, quase todos foram presos. Antônio também foi preso e, consequentemente, teve seu nome “fichado” naquela ocasião. Passou a ser perseguido e foi facilmente detectado quando se tornou um militante do PCdoB, em 1970. Ao saber que precisaria viver na clandestinidade, ou ainda por motivos de foro íntimo, transferiu-se para o sudeste do Pará, aderindo ao ideal de implantação de uma guerrilha na região do Araguaia. Lá ele se tornou um dos líderes, ficando conhecido como Piauí e tornou-se o vice-comandante do Destacamento A da Guerrilha, do qual assumiu, após a morte de André Grabois, o comando titular.

Segundo o Relatório Arroyo, Piauí esteve no tiroteio acontecido no dia 14 de janeiro de 1974, juntamente com Beto e Antônio “Alfaiate” quando, depois de colherem mandiocas para uma de suas escassas refeições, foram perseguidos pelos militares. Depois disso, Piauí não mais foi visto por seus companheiros. Nos relatórios da Aeronáutica e do Exército [os poucos localizados sobre as incursões dessas Forças oficiais no Araguaia] não há informações sobre a morte ou prisão de Piauí. Entretanto, no Relatório da Marinha, entregue ao então Ministro da Justiça, Maurício Corrêa, em 1993, Antônio de Pádua é listado como participante da Guerrilha do Araguaia e morto em 5/3/1974.

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Ou seja, entre 14 de janeiro e 05 de março, tudo pode ter acontecido com Antônio de Pádua Costa.

Outras informações deram conta de que Piauí teria “desaparecido” na base Bacaba, no Pará, uma das utilizadas pelo Exército para a prisão de guerrilheiros. De fato, no livro “Bacaba – memórias de um guerrilheiro de selva-“, de José Vargas Jimenez (Chico Dólar), consta que:

“- em ‘janeiro de 1974, encontrava-me [Chico Dolar] na base de operações de combate em Bacaba, quando recebemos uma informação de que o guerrilheiro Piauí (cuja prioridade para captura ou destruição era número ‘um’), juntamente com outro não identificado, foi visto nas proximidades de São Domingos das Latas, um pequeno povoado localizado no meio da selva.

‘[…] eu e um soldado invadimos a cabana, deixando o outro do lado de fora, nos dando cobertura e com ordens para atirar, se os guerrilheiros saíssem em fuga.
‘Ao entrarmos, os dois guerrilheiros estavam sentados no chão, comendo farinha. Foram pegos de surpresa e pularam em direção de suas armas que estavam próximas deles, mas foram por nós impedidos na base de coronhadas, travamos luta corporal e quando conseguimos dominá-los, colocando-os deitados de cara no chão, com as mãos na cabeça, entrou o Ten Miracis com outro soldado PM.

‘Capturamos Antônio de Pádua Costa ‘Piauí’, chefe de um grupo de guerrilheiros encarregado de manter a moral deles elevada, e ‘Zezinho’, um camponês jovem que havia sido recrutado pelos guerrilheiros, um inocente útil. Ambos estavam magros e desnutridos, com suas roupas em farrapos. ‘Piauí’ tinha um revólver cal. 38, uma espingarda cal. 44, e ‘Zezinho’ uma espingarda cal. 20 e um facão.

‘Retornamos para nossa base em Bacaba, porém quando passamos pelo povoado de São Domingos das Latas os conduzimos a pé, com uma corda amarrada no pescoço para que a população os visse.

‘Todo guerrilheiro capturado vivo pelas nossas equipes era conduzido para a base de Bacaba e ficava ali de três a cinco dias, onde era submetido a interrogatório preliminar, com a finalidade de dar sequência às missões, que se baseavam nas informações que os mesmos nos passavam. Depois, eram levados para a ‘Casa Azul’, no Amapá-PA, no Quartel-General das Operações de Comando, onde seriam interrogados por militares do CIE.

‘Dos guerrilheiros que foram interrogados, ‘Piauí’ foi o mais corajoso e valente. Não era como os outros que não aguentavam as técnicas de interrogatório que lhes eram aplicadas e gritavam pedindo pelo amor de Deus que os matássemos.

‘Piauí’ aguentava o interrogatório sem gritar ou reclamar, eram um dos poucos guerrilheiros bem preparados para a luta. Depois de alguns dias em Bacaba, ele e ‘Zezinho’ foram levados para a ‘Casa Azul’.

‘As técnicas de interrogatório a que eram submetidos os guerrilheiros em Bacaba consistiam em: choques com corrente elétrica gerada por baterias de telefones de campanha portáteis; telefone (consistia em dar tapas com força, simultaneamente nos dois ouvidos com as mãos abertas); coloca-los em pé, descalços em cima de duas latas de leite condensado se apoiando somente com um dedo na parede; socos em pontos vitais como no fígado, rins, estômago, pescoço, rosto e na cabeça, além de faze-los passar fome e sede.”

Chico Dólar, nesse mesmo livro Bacaba, conta que, após todos os tipos de sevícias, Piauí pareceu colaborar e “seu desaparecimento ocorreu em março de 1974”. (pg. 55 57).
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É importante frisar que Chico Dolar, após a publicações de duas edições do livro Bacaba, onde revelou vários crimes dele próprio e do Exército brasileiro, teria se “suicidado”, no ano de 2017, com dois tiros no peito. Nenhum perito sério afirmaria que isto foi um suicídio.

O jornalista Eduardo Reina, o mesmo autor de “Cativeiro sem fim”, pontuou que: “José Vargas Jimenez, que confessou vários crimes, morre sem nunca ter sido julgado pelas arbitrariedades cometidas no Araguaia durante a ditadura. Ao contrário, recebeu a medalha de Pacificador com Palma de Ouro por ter se distinguido, com risco de vida, por atos pessoais de abnegação, coragem e bravura. Especialmente por ter participado ativamente da guerrilha do Araguaia.”

Para nós, da CEMDP, é também assustador constatar que, em certos gabinetes de Ministros do Supremo Tribunal Federal, também são exibidos diplomas de “Pacificador”… da Pátria.

Enfim, novamente, voltemos a Antônio de Pádua – que hoje, 12 de junho, completaria 76 anos! – mas é preciso falar também das outras vítimas a repressão política na região do Araguaia – as quais, como se percebe dos relatos, se estavam cometendo crimes, poderiam simplesmente ser presas, mas as Forças Armadas as exterminaram.

Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou o Brasil pela desaparição de 62 pessoas na região do Araguaia no caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil, entre elas, Antônio. A sentença obriga o Estado brasileiro a investigar os fatos, julgar e, se for o caso, punir os responsáveis e determinar o paradeiro das vítimas.

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Em 2012, o Ministério Público Federal denunciou Sebastião de Moura Rodrigues, o Curió, por ter promovido, mediante sequestro, a privação permanente da liberdade de: Antônio de Pádua Costa, Maria Célia Corrêa, Hélio Luiz Navarro de Magalhães, Daniel Ribeiro Callado e Telma Regina Cordeiro Corrêa. Segundo o órgão ministerial, Curió atuou na condição de comandante operacional da Operação Marajoara, tendo ordenado e participado do sequestro dos guerrilheiros, aos quais impôs grave sofrimento físico ou moral por meio de maus tratos.

O caso foi trancado em HC impetrado perante o STF e assim se encontra até os dias de hoje.

Na I Caminhada do Silêncio, realizada em São Paulo neste 31 de março, uma das faixas dizia “Anistia para torturador? Só existe no Brasil.”

– Piauí?
– PRESENTE!

“Para que não se esqueça, para que não se repita.”

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INFORME
Os textos “No dia de hoje… para que não se esqueça, para não se repita.” são de responsabilidade das pessoas que administram a página da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, sob a presidência da procuradora regional da República, Eugênia Augusta Gonzaga.
Baseados em fontes como Wikipedia e Relatórios finais de Comissões da Verdade, esses textos compõem um conjunto de publicações feitas diariamente entre 10.06 e 24.06.2019, na página do evento “Vozes do Silêncio contra a Violência de Estado”, como forma de divulgação e preparação para o ato.
Neste texto de 12.06, colaborou: Juliana Amoretti.

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