Sem condenação, morre o torturador da ditadura brasileira Carlos Brilhante Ustra

Em depoimento na Comissão Nacional da Verdade, o coronel reformado afirmou que os militares lutaram contra o comunismo, em favor da democracia
 
Jornal GGN – Reconhecido comandante do Destacamento de Operações de Informações do II Exército (DOI-Codi), durante a ditadura brasileira (1964-1985), o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra morreu na madrugada desta quinta-feira (15), aos 83 anos, durante internação em hospital de Brasília para realizar quimioterapia em tratamento contra um câncer. 
 
Ustra morreu sem ser condenado nas acusações de crimes da ditadura brasileira do regime militar. O coronel somava seis denúncias pelo Ministério Público Federal (MPF) por mortes e torturas cometidas quando comandou o principal centro de repressão do regime, o DOI-Codi, em São Paulo, entre 1970 e 1974. Nenhum dos minuciosos trabalhos de investigação do MPF sobre Ustra obteve resposta da justiça.
 
Carlos Nicolau DanielleA última denúncia apresentada em agosto deste ano foi a tortura e morte do dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Carlos Nicolau Danielli, assassinado nas dependências do centro de repressão, em dezembro de 1972, após ter sido sequestrado e brutalmente torturado, de acordo com relatos de ex-presos políticos. Ustra e outros dois delegados subordinados a ele responderiam a homicídio triplamente qualificado – quando a morte é causada por motivação torpe, com requintes de crueldade e sem direito de defesa à vítima.
 
Também tramitava na Justiça de São Paulo a acusação de crime de sequestro e cárcere privado, pelo desaparecimento de Edgar de Aquino Duarte, fuzileiro naval expulso das Forças Armadas em 1964, que foi mantido encarcerado no DOI-Codi e Deops-SP. A ação foi paralisada por liminar da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), por segundo ela confrontar a Lei da Anistia.
 
Hélcio Pereira FortesHomicídio doloso qualificado é outra denúncia de Ustra pela morte do militante político Hélcio Pereira Fortes, em janeiro de 1972. Integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), Hélcio morreu após intensas sessões de tortura realizadas nas dependências do DOI paulista. A testemunha Darci Toshiko Miyaki, também militante da ALN que foi presa na mesma época, ouviu de um dos agentes que a torturaram que Hélcio foi empalado.
 
Hirohaki TorigoeEm dezembro de 2014, a Justiça Federal de São Paulo deu um respiro de reconhecimento ao trabalho de investigação que o MPF desenvolvia contra os crimes da ditadura e do coronel Brilhante Ustra. Reverteu uma decisão da primeira instância e retomou o julgamento da morte do estudante de medicina Hirohaki Torigoe. O corpo do jovem da organização de esquerda Movimento de Libertação Popular não foi encontrado, e por isso o crime seria imprescritível. Hirohaki foi capturado, torturado e assassinado por Ustra e pelo delegado Alcides Singillo, no dia 5 de janeiro de 1972.
 
Luiz Eduardo da Rocha MerlinoUstra também foi acusado de matar o jornalista e militante político Luiz Eduardo da Rocha Merlino em julho de 1971. Integrante do Partido Operário Comunista (POC), o jornalista foi morto depois de intensas sessões de tortura nas dependências do DOI em Santos. O coronel reformado e mais dois militares foram denunciados por homicídio doloso qualificado. 
 
Em maio de 2013, Carlos Brilhante Ustra afirmou em depoimento na Comissão Nacional da Verdade (CNV) que os militares lutavam pela democracia e chamou a presidente Dilma Rousseff de terrorista. “Ela [a presidente] integrou quatro grupos terroristas que queriam a implantação de uma ditadura do proletariado, o comunismo, derrubar os militares”, disse, completando: “estávamos lutando contra o comunismo. Se não tivéssemos lutado, eu não estaria aqui porque eu já teria ido para o paredón. Os senhores teriam um regime comunista, como o de Fidel Castro. O Brasil teria virado um ‘Cubão'”.
 
Vídeo e edição: Pedro Garbellini
 
https://www.youtube.com/watch?v=I4k5SDLrrcE&feature=youtu.be width:700 height:394
 
A sobrinha de uma das vítimas de Ustra, o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, manifestou-se em sua página do Facebook:
 
Por Tatiana Merlino

 
 
Hoje é um dia triste. Morreu, aos 83 anos, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi, um dos maiores centros de tortura da ditadura civil-militar. Viveu 60 anos a mais do que meu tio, Luiz Eduardo da Rocha Merlino (foto), a quem ele impediu de seguir sua vida ao comandar as intermináveis sessões de tortura que o levaram à morte, em 19 de julho de 1971. Ustra morreu de “morte morrida” e não de “morte matada”, como suas vítimas. 
Dia triste para todos familiares de mortos e desaparecidos sob suas ordens. E para os que sobreviveram às torturas. Porque Ustra morreu num hospital. Deveria ter morrido na prisão. Dia triste porque morreu sem ser julgado e preso.
Durante décadas, familiares de mortos e desaparecidos lutaram por justiça. Apenas em 2008 foi declarado torturador pela justiça paulista em ação movida pela família Teles. Em 2012, foi condenado, em primeira instância, a pagar uma indenização à minha família, em ação por danos morais. No país em que torturador da ditadura não é punido, foi o pouco que se conseguiu. 
Hoje, a impunidade venceu a justiça.

 

30 comentários

  1. Pessoa nefasta. Gente estúpida

    Pena ser ateu. Sequer posso me consolar achando que este ser abjeto irá pagar no inferno por tudo aquilo que inflingiu aos seus semelhantes aqui na Terra.

    Detesto também em me parecer contraditório em minhas condenações ao discurso de ódio que hoje impera com tanta frequência.

    Mas espero que este traste tenha sofrido bastante em seus últimos dias. Que tenha sido acometido por horríveis pesadelos relembrando-o dos gritos de suas vítimas. Que não tenha conseguido dormir em paz tendo o peso de sua consciência acusando-o dia e noite pelos crimes por ele produzidos.

    Que todos os que o admiram saibam que admirar uma pessoa nefasta é ser uma pessoa nefasta também.

    E que, se o inferno porventura existir, vai que estou errado e ele existe, sua alma nunca mais encontre descanso por toda a eternidade.

    De Gilberto Gil:

    Tu, pessoa nefasta
    Vê se afasta teu mal
    Teu astral que se arrasta tão baixo no chão
    Tu, pessoa nefasta
    Tens a aura da besta
    Essa alma bissexta, essa cara de cão

    Reza
    Chama pelo teu guia
    Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia
    Cai aos pés do Senhor do Bonfim
    Dobra
    Teus joelhos cem vezes
    Faz as pazes com os deuses
    Carrega contigo uma figa de puro marfim
    Pede
    Que te façam propícia
    Que retirem a cobiça, a preguiça, a malícia
    A polícia de cima de ti
    Basta
    Ver-te em teu mundo interno
    Pra sacar teu inferno
    Teu inferno é aqui

    Pessoa nefasta

    Tu, pessoa nefasta
    Gasta um dia da vida
    Tratando a ferida do teu coração
    Tu, pessoa nefasta
    Faz o espírito obeso
    Correr, perder peso, curar, ficar são

    Solta
    Com a alma no espaço
    Vagarás, vagarás, te tornarás bagaço
    Pedaço de tábua no mar
    Dia
    Após dia boiando
    Acabarás perdendo a ansiedade, a saudade
    A vontade de ser e de estar
    Livre
    Das dentadas do mundo
    Já não terás, no fundo, desejo profundo
    Por nada que não seja bom
    Não mais
    Que um pedaço de tábua
    A boiar sobre as águas
    Sem destino nenhum

    Pessoa nefasta

  2. Que pena,

    morreu sem ter tido chance de pagar por seus vários e medonhos crimes. Nosso judiciário miope e lento tem culpa nisso.

  3. O câncer mata muita gente.

    O câncer mata muita gente. Muitos inocentes, e pessoas trabalhadoras e honestas. Até porque a corrupção da industria de doenças não deixa que se pesquise como deveria a cura da doença.

    Mas no caso desse torturador abjeto, a impressão que se tem é que apesar de ser um sujeito que – se cuidava muito, se sentia poderoso contra tudo e contra todos, gostava de condecorações – as lembranças das torturas que praticou, realizaram um somatização em seu físico e aí sim, pode sentir pouco a pouco que não era todo-poderoso e a medida que a doença avançava com certeza seus crimes pesavam mais e mais em sua consciência, e se somatizavam mais e mais.

    Para quem sempre ignorou esse lado da vida, com certeza o tombo dói mais. E sem recursos ao Supremo que alivia o sofrimento, nem ao supremo que não pode muita coisa.

     

  4. Há pessoas que são

    Há pessoas que são imprescindíveis, pois ao passar por essa vida deixa lições e exemplos de bondade, respeito e dignidade. Porém alguns seres jamais deveriam ter existido, esse assassino agora morto faz parte deste rol. Passou por esse mundo espalhando dor e sofrimento. Que as Trevas o tenha eternamente!

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