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Ídolos e biografias: verdades negociáveis?

 

Imagem: Viomundo por Luiz Carlos Azenha

Postado no Facebook pelo Sergio Glasberg, com a observação de que o Procure Saber é o Cansei da MPB

 

Por Dr. Marcos Luna

Médico pós-graduado na Harvard University e na UFBA

doutor.luna@gmail.com

 

Há seis anos, quando o cantor Roberto Carlos através de sua assessoria empresarial e jurídica expediu a ordem de resgate da sua biografia nas livrarias do país, eu refleti com meus botões: o “rei” da MPB está cometendo um deslize ético com seus reflexos legais e políticos a serem consumidos tempestivamente. Na ocasião os argumentos primários do afamado cancioneiro exalavam egocentrismo e narcisismo transbordantes entre os seus congêneres. Aquela personagem, que durante toda uma carreira artística comovera as multidões e suas paixões romantizadas, com canções embaladas de apelos ao imaginário coletivo idealizador, era a mesma que agora sonegava a sua biografia ao historiador, porquanto reveladora de interditos não exemplares, pertencentes ao passado dolorido a ser superado, esquecido.

 As personalidades públicas estejam elas no âmbito do poder executivo do estado, nos castelos do judiciário ou nas academias de ciências e humanidades, não raro com proeminência popular contagiante, como soe acontecer com os atores de televisão, são portadoras de símbolos antropológicos referenciais, o que não lhes assenta a privacidade de seus atos biográficos, quando cotejados com a individuação dos “mortais comuns”. A dialética imanente à convivência societária e suas intersecções multidinarias do cotidiano, reflete potencialmente os interesses daqueles submetidos às influencias dos seus ídolos. Doutro modo, o discurso do cidadão famoso através do marketing comercial ou político – salientando-se que no Brasil os ídolos musicais quando expressam opinião, o fazem conservadoramente atendendo aos reclamos capitalistas de empresas e elites associadas – não é avaliado em seu alcance sociológico ao transcender o seu oficio. “Quanto mais famoso é aquele que cai em desgraça ou desnuda a sua vida, mais inflamadas ficam as massas com o lado sombrio da admiração, pois a inveja se combinará com a insatisfação” (Yalom). Seria este o leitmotiv da autocensura das biografias não-autorizadas?

Ao provocarem o debate sobre a liberdade de expressão, com as biografias não-autorizadas na mídia hegemônica – paradoxo da licenciosidade liberal democrática e da historiografia da polis –, Caetano, Chico Buarque e outros não aquilataram o embuste sociológico da propositura, arremessando contra a verdade factual; esta, sem dúvida, construtora da personalidade pública refletora de arquétipos psico-afetivos do inconsciente coletivo. Ao angariar a notoriedade através da arte, a persona aclamada pela fama deverá assumir que no palco da sua proficiência estarão igualmente contidos os créditos dos bastidores da sua caminhadura até o estrelato.

O ser humano somente se torna completo em todas as suas circunstancias. E contradições, diria ainda o Sartre. Ao articular o seu prestigio para envergar um preceito Constitucional definidor da liberdade de expressão, amparada no Estado Democrático de Direito, onde se prevê o acesso a informação, a negação da censura previa e garantidos os direitos de proteção a honra e resposta a injuria ética e moral, o artista-idolo estará desempenhando uma arrogância diletante, contrariando a primazia da justiça com a equidade, mui bem atualizada por M. Sandel em “Justiça, o que é fazer a coisa certa?”, inspirado pelo liberalismo americano no século XX.

Ao transcender as limitações comuns e alcançar a liderança comunitária, o ídolo carrega consigo todas as intempéries do viver, seus medos e desencantos, suas feridas dolorosas e cicatrizes, com tropeços superados ou não, amoldados ao seu tempo nas estações de embarque e desembarque da vida. Retomemos a dialética da existência, contestando em Oscar Wilde a falta de solidariedade e responsabilidade sociais no aforismo: “O passado não importa. O presente não importa. O que interessa é o futuro e este é aquilo que os artistas são”. Como poderá o ídolo praticar a virtude apenas como indivíduo notável, sem assumir as suas responsabilidades sociais?

A omissão biográfica do lado privado e sombrio de sua vivência recenderá o olor fugaz da adulação egoica, tanto quanto naquelas cantilenas sacralizadoras de rituais primitivos e ilusórios, na procura vã da eternidade, onde o medo da morte inefável seria superado.  

 

         

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