Um 2016 dos mais promissores, por Rui Daher

Por Rui Daher

Andei dizendo que 2016 seria um ano maravilhoso. O risco de ser considerado uma besta nunca me assustou. Estaria com a maioria.

Vejam só as notícias do Brasil logo no primeiro dia da primeira semana do primeiro mês do ano. Notaram quantas vezes repeti a palavra primeiro? Uma besta, não? Mas como se referir à segunda-feira, 4 de janeiro? O primeiro (olha ele aí de novo) dia útil? De trabalho? Mas como e para quem um dia pode não ser útil (fez seu cocô?), ou de trabalho (recolheu o do cachorro?).

E o primeiro pregão das bolsas já me desmentiu, queda de 2,8% no Ibovespa e de 7 a 8% na China. Não me assusto. Todos ainda empanturrados e embriagados, tendo que pagar as contas das festas de fim de ano, só poderiam sair vendendo.

Por outro lado, não conheço ainda o adversativo que as folhas e telas cotidianas usarão, mas fechamos 2015 com um saldo positivo de US$ 19,7 bilhões na balança comercial apesar da queda nos preços das principais commodities. Preços mantidos, o saldo teria aumentado em US$ 37 bilhões.

Olhem, os industrializados voltaram a liderar as exportações. Sendo assim, para o maravilhoso 2016, está previsto um saldo de US$ 35 bilhões. Ah, como deveria reagir, neste momento, o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira que se esgoelou alertando que o câmbio estava fora de lugar.

Também o Bolsa Família, que forma vagabundos, mas que todos os políticos e partidos, sabendo-se mais vagabundos, não ousam nem falar em mexer, será preservado nas bases preconizadas pela Lei de Diretrizes Orçamentárias. Ótimo!

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Estão me achando um Pacheco, certo? Aquela figura que vê o Brasil tomando de 7 a 1 e espera reação. Nada disso. Estou me lixando se o ano será bom ou não para a economia brasileira. Se for do gosto dos leitores, me alinho facilmente aos Pessôa, Schwartsman, Sardenberg e certo Sérgio Vale que hoje declara, no Valor, que “a batalha pelo equilíbrio das contas e queda da inflação está perdida neste governo”.

Repito, para mim tanto faz. Meu negócio é o meu umbigo. O ano começou maravilhoso, minhas contas equilibradas e superávit milionário, em dólares.

Burkina Faso, país da África ocidental, tomou conhecimento de minhas agruras financeiras e se uniu para ajudar-me. São quase 16 milhões de pessoas de bom coração. O país faz fronteiras com Mali (conheci uma moça linda com esse nome), Níger, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Parte da delicadeza, talvez, venha da língua oficial, o francês, embora grupos étnicos falem o Dioula.

É certo que a região não concentra a maior parte da riqueza do planeta. Pelo contrário, o PIB/capita não chega a US$ 1.500/ano; vivem de mineração e baixa agricultura. Mas, meu Deus, que coração!

Algo que deveríamos esperar – especialmente eu, o escolhido pela fortuna – de Obama, Merkel, Hollande (pouco menos) e Cameron, chega-me pelos desígnios de homens e mulheres da capital Ouagadougou, em ofertas monetárias, recebidas através de candentes e-mails. Os recursos estão à minha disposição em instituições como o Bank of Africa, Barclays Tanzania e o Burkina Faso Bank.

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Basta um clique nos e-mails e a grana será minha. Muita. Num só dia, contei mais de US$ 50 milhões, graças à bondade do Dr. Abu Salam, à caridade de Mr. Owen Onumeli, Miss Uliana Christine Laboso, que me levou às lágrimas, pois sua madrasta ameaçou assassiná-la por causa de US$ 7,2 milhões. Oferece-me 30% do valor e transferi-lo para o meu nome.

Alguns, considero justíssimo, sugerem um “Rachid”: o Dr. Azizi Fadia, por exemplo, dispõe de US$ 15 milhões. Propõe um 60/40. Vou pensar. Farei o mesmo com as propostas de Mr. Boromo Williams, Dr. Kabo Uago, Mr. Abdoul Aziz Ibrahim, Bintou Sawadogo, Clifford Wells, Armel Ryan e Laaibah Justin Yak.

Quem disse que rico não tem coração e que é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus?

Sim, falo de mim. Mesmo depois de milionário (em dólares), ainda sou capaz de chorar em casos como o de Mrs. Nicole Marois, que além de me tratar como “Beloved Rui Daher”, quer transferir metade dos seus US$ 4,5 milhões e, com o saldo, tratar seu câncer de ovário.

Como essa, há coisas difíceis de aceitar. Ms. Yarinda Ibrahim me oferece a herança de seu pai que morreu durante a guerra na Costa do Marfim. Não tenho coragem. Ou Mrs. Ruth Desmond e Mousse Omar que prometeram a Allah, usar-me para ajudar órfãos da Coreia do Sul. Como facilitador, eu ganharia 10%.

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Cinquentão tá bom demais, que ano maravilhoso, para mim, este 2016!
 

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9 comentários

  1. Adoro este humor do Rui..

    mas tem doido que leva a serio…Um ex-vizinho recebeu este tipo de email e pensou que ser tratava de uma oferta real relacionada com atividades de seu pai falecido, que era do meio agricola.  Ahi ele veio me consultar e eu mostrei que nao fazia sentido. Ele ficou desolado, porque estava enfrentando serios problemas financeiros e achou a ajuda ia cair do ceu. Como diriam os gauleses da turma do Asterix: Que o ceu nao caia…nas nossas cabeças…

    • Brincadeiras à parte,

      Ricardo muita gente só não cai porque não existe. Mas que fica na dúvida, fica e até sofre. Muitos já me perguntaram se deveriam fazer o contato.

  2. Promissor

    Pois é, Rui, pena que dinheiro não da em arvore. Parece que muitos ainda não aprenderam essa lição basica e ainda caem em contos de vigarios.

    Também acho, e ai é puro instinto, que 2016 vai ser bom. Primeiro que é ano bissexto e a gente demora um dia a mais para envelhecer :), segundo, que esta dificil fazer pior que 2015.

    • Maria Luisa,

      mas que vão tentar fazê-lo pior, isto vão. O jeito é fugir das folhas e telas cotidianas e não deixar de ouvir o bloco do Executivo na “Voz do Brasil”. Não brinco não. Não é possível que todos os relatos de lá sejam mentiras, daí não sermos informados deles.

  3. não há belea maior do que

    não há belea maior do que curtir a riqueza –

     

    mesmo que seja possivelmente só de bom humor….

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