A desaceleração da economia chinesa

Do Valor

Desaceleração da China pode ser mais forte, alerta OCDE 

Assis Moreira | De Paris 

A China, principal parceiro comercial do Brasil, pode ter uma desaceleração econômica mais forte do se que esperava, e essa possibilidade é um dos principais riscos para a economia mundial, alerta o economista-chefe da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Pier Carlo Padoan.

A entidade nota que no primeiro trimestre a economia chinesa voltou à taxa de 8,7%, seu mais baixo nível desde 2008. A demanda interna diminuiu, mas a inflação continuou sua alta, de mais de 5% nos últimos meses. Mas Padoan exclui o risco de aterrissagem forçada da economia chinesa, que tem sido um fator de especulação nos mercados.

Em entrevista ao Valor, ele diz que a crise global não foi superada, o desemprego continua gigantesco no mundo desenvolvido e vê risco de estagflação em alguns países. As projeções da entidade mostram no geral uma recuperação nada espetacular, mas que começa a ser impulsionada pelo setor privado.

Em algumas economias emergentes, a OCDE aponta sintomas típicos de superaquecimento, com aumento sem precedentes de preços do setor imobiliário, credito ao consumo e lucros dos bancos.

Sobre o Brasil, Padoan acha que medidas macroprudenciais ajudam pouco a combater a inflação e sugere por isso que o Banco Central continue aumentando os juros. A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Qual a avaliação sobre o estado da economia mundial?

Pier Carlo Padoan: A retomada existe, mas em ritmos diferentes por países e regiões O desemprego continua pesando, são mais de 50 milhões de pessoas desempregadas nos países da OCDE. O motor da retomada é o setor privado, já que a demanda pública vai diminuir pois vamos entrar num período de consolidação fiscal. Mas os riscos de deterioração de nossas previsões crescem. Um deles é a China, que talvez vá desacelerar mais forte do que se espera porque há muita inflação.

Valor: Qual o risco de aterrissagem forçada na China?

Padoan: Aterrissagem forçada é resultado de ligações perigosas entre o setor financeiro e a economia real. Mas na China não há ainda essa relação tão forte, a ponto de o sistema financeiro enfraquecer para causar mais crise. Mas, como a China vai evoluir e se transformar, será necessário para a economia mundial ver um bom sistema financeiro na China.

Valor: Até que ponto irá a desaceleração na China?

Padoan: É o que vamos ver. Quanto ao impacto disso, o aumento da demanda na China é fator muito importante para explicar a dinâmica dos preços de matérias-primas e de energia e evidentemente importante para as exportações do Brasil e outros emergentes. É pela importância estratégica da China que listamos entre os riscos negativos a possibilidade de desaceleração da China, o país é importante do ponto de vista estratégico das relações internacionais, não é um país como os outros.

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Valor: ? Como a OCDE vê o Brasil nesse cenário?

Padoan: Consideramos que o crescimento brasileiro é forte, mas o país está num momento delicado com a inflação alta. É preciso evitar que a expectativa de inflação seja permanentemente mais elevada. As pressões são fortes, como o aumento da liquidez via fluxos de capitais, que contribui a pressionar os preços. É preciso evitar que essa pressão talvez temporária se traduza em pressão inflacionária duradoura. É preciso continuar aumentando as taxas de juros. O Brasil adotou diferentes instrumentos, como controle de capital e macroprudenciais. Nossa visão na OCDE é que isso é bom, mas do ponto de vista da inflação as medidas macroprudenciais têm eficácia limitada. Para colocar as expectativas da inflação num percurso sustentável, é preciso ter política monetária apertada e constante. Também é importante aumentar a poupança pública e reduzir a rigidez do orçamento. O Brasil apoia o investimento na infraestrutura, é muito bom. Mas é preciso completar isso.

Valor: Quais outros riscos? O diretor Angel Gurria fala que podemos estar na antessala da próxima recessão.

Padoan: A crise não foi superada. A possibilidade de mais aumento do preço do petróleo e das commodities pode alimentar a inflação subjacente. Há um novo acesso de fragilidade dos mercados imobiliários em países da OCDE, como nos EUA. Outro risco muito importante é a vulnerabilidade da união monetária europeia, apesar de esforços de ajustamento em vários países. Existe a possibilidade de os riscos terem uma combinação muito negativa, e aí temos a ameaça de estagflação em alguns países. Analisamos episódios de estagflação no passado, e no caso presente não apenas o crescimento é débil como temos os preços altos de commodities e de energia. Precisamos estar vigilantes. A crise não passou.

Valor: A Europa inquieta todo mundo, a começar pelo estado de falência da Grécia.

Padoan: Estive na Grécia há duas semanas numa missão de monitoramento, falamos com todos os ministros. O governo se esforça. Mas há um problema do ponto de vista do mercado e da população: ver o resultado das políticas estruturais. Isso precisa de tempo para dar resultado. Só que os mercados não dão esse tempo e a população mostra fadiga com reformas. Daí a lógica simples de um apoio oficial do FMI e da UE para a Grécia. Achamos que medidas adicionais podem dar tempo para que os resultados de reforma estrutural, ajuste fiscal, sejam visíveis. A Grécia precisa de mais tempo do que pensávamos, talvez um ano a mais. Mas o que se esquece é que a demanda na Europa vai ser maior do que se esperava, e ajuda no ajuste. Além disso, e dissemos isso às autoridades gregas, o ajuste vai ser exigido da população inteira. É preciso combater a desigualdade econômica, sobretudo neste momento, senão o consenso politico e social aos programas de ajuste não funciona. E, para completar, a Grécia precisava das reformas, mesmo se não houvesse o problema da dívida soberana. Sua situação era insustentável. A idade da aposentadoria dos gregos é 55 anos, e é preciso elevá-la a um nível normal.

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Valor: Restruturação suave da dívida grega é suficiente?

Padoan: Devemos considerar no futuro ampliar a responsabilidade da EFSF (European Financial Stability Facility) e depois o Mecanismo de Estabilização Europeu, dispor de mais recursos e que se tenha autorização para entrar no mercado para fazer “swaps” da dívida soberana de países da zona do euro, a exemplo do que ocorreu em alguns países em desenvolvimento nos anos 80. Era uma crise similar à de hoje.

Valor: Seria “Brady bonds” para os países europeus.

Padoan: Talvez seja útil, sim. O primeiro elemento é diminuir a tensão na situação atual. E, segundo, alongar o prazo de maturidade dos títulos públicos. Isso permite uma eficácia mais forte das políticas nacionais.

Valor: Os detentores de títulos públicos europeus perderiam quanto, qual o desconto no valor dos papéis nesse caso?

Padoan: Há várias fórmulas de “reprofile” da dívida soberana. O essencial é que outra instituição, como garantia pública, entre no mercado com horizonte temporal mais longo, e com lógica diferente daquela do mercado. No fim do dia, a dívida da Grécia será de mais longo prazo. O EFRS é um mecanismo provisório que foi estabelecido durante a crise irlandesa, com total de pacotes de socorro de € 750 bilhões (€ 250 bilhões vindos do FMI). Depois da crise de 2008-2009, os países membros do FMI multiplicaram por cinco os recursos financeiros da entidade, quando constataram que havia um problema de estabilidade sistêmica na economia mundial. É a mesma coisa agora na Europa. A Europa decidiu ter algo semelhante ao FMI, dando financiamento em troca de ajustamento econômico. Parece com a América Latina do passado? Sim. O mundo mudou.

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Valor: Os emergentes vão pagar mais pelos créditos internacionais, por causa dessa crise europeia?

Padoan: Há um problema mais geral. Haverá um período longo de grande nível da dívida pública nos países desenvolvidos. E haverá grande pressão nos mercados financeiros por financiamento. Também haverá mais demanda dos emergentes por mais financiamento privado, porque vão investir muito. Tudo isso vai aumentar o custo dos recursos. E isso se manterá por muito tempo. Por isso que dizemos que os países desenvolvidos precisam, primeiro, evitar que a dívida aumente e depois começar a reduzi-la. Na OCDE, o nível médio da dívida pública é mais de 100%. É 30% a mais que antes da crise, é enorme. O impacto negativo sobre o crescimento é enorme, pois quando a dívida é forte, o crescimento econômico é mais fraco. E ainda mais quando se leva em conta o efeito do envelhecimento demográfico nas próximas décadas.

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