A desaceleração da indústria no 2º tri

Do Valor

Setores importantes perdem fôlego no 2º tri

Arícia Martins e Sergio Lamucci |De São Paulo
04/07/2011

Setores importantes da indústria, como o siderúrgico, o elétrico e eletrônico e o têxtil, perderam fôlego no segundo trimestre, refletindo o impacto da alta de juros e das medidas de contenção ao crédito adotadas pelo Banco Central, além da dura concorrência do produto importado. Na indústria química, o ritmo de produção no segundo trimestre ficou próximo do primeiro, mas o resultado dos três primeiros meses do ano tinha sido fraco. Há segmentos, porém, que relatam situação mais positiva entre abril e junho, como empresas calçadistas no Rio Grande do Sul e fabricantes de eletrodomésticos e eletroeletrônicos, indicando que a desaceleração não é generalizada.

Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores do Aço (Inda), diz que há uma inversão de tendência neste ano, já que o segundo trimestre foi pior do que o primeiro, o contrário do que costuma ocorrer. Ainda não há dados fechados de junho, mas, de acordo com estimativas para o mês passado, as vendas no segundo trimestre atingiram 1,114 milhão de toneladas de aço, número 7,8% menor do que o registrado no primeiro trimestre deste ano, 11% a mais que em igual período de 2010. De janeiro a março, a alta em relação aos três primeiros meses do ano passado tinha sido de 21%.

OdesO desempenho mais fraco no segundo trimestre provocou um aumento indesejado de estoques. Em 30 de março, os inventários eram suficientes para 3,1 meses de venda, e a previsão de Loureiro é que o mês de junho se encerre com o equivalente a 3,8 meses. “Esse aumento nos estoques mostra que realmente as medidas do governo estão fazendo efeito.” Loureiro diz que, em 2010, previu crescimento de 15% neste ano, número que já foi reduzido para 10%, com viés de baixa, dependendo do que ocorrer no terceiro trimestre.

Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), conta que também sentiu desaceleração no ritmo das encomendas no segundo trimestre. “Achávamos que no mês de maio teríamos resultado melhor. O que deduzimos é que o ambiente econômico ficou prejudicado em função das medidas macroprudenciais”, diz Barbato, para quem o controle ao crédito afetou o ânimo e as expectativas, tanto do consumidor como dos empresários do setor.

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No início do ano, a Abinee projetava crescimento de 11% para o faturamento, número que em maio foi revisado para 8%. “Da forma que a coisa está se configurando, não sei se durante o segundo semestre teremos de rever novamente esses números.”

Embora a Abinee só tenha dados fechados até maio, Barbato relata que, pelas conversas que mantém com associados, “as coisas no mês de junho não foram diferentes”. O número de empresas que registraram negócios abaixo das expectativas aumentou de 59%, em abril, para 61% em maio. Em março, essa parcela estava em 43%.

Barbato chama atenção para uma queda “sensível” na geração de empregos das empresas associadas. Em maio, foram criados apenas 250 postos de trabalho nas indústrias do setor, menor número do ano. Em fevereiro, melhor mês do ano, haviam sido criados 1,5 mil postos. Ele também ressalta a perda de competitividade das indústrias do setor na exportação. “A competitividade está abalada em função do câmbio”, avalia. “O setor elétrico é muito atingido, porque agrupa a área de bens de capital. Esse setor está passando por um momento delicado, porque vem sofrendo concorrência absurda do importado dentro do Brasil.”

A indústria química também enfrenta quadro complicado. De janeiro a maio, a produção caiu 4,7% em relação ao mesmo período de 2010. O volume médio fabricado em abril e maio foi bastante próximo ao registrado em janeiro e março, diz a diretora da área de economia e estatística da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Fátima Ferreira.

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“Esse nível de produção não é dos melhores, sendo inferior ao de 2010”, destaca. Fátima excluiu o resultado de fevereiro da comparação porque o setor sofreu muito naquele mês, devido ao impacto do apagão ocorrido no Nordeste.

A diretora da Abiquim destaca o avanço do produto estrangeiro no mercado nacional. Nos 12 meses até maio, a fatia dos importados no consumo aparente (a soma da produção e da importação, excluindo as exportações) atingiu 31,7%. Em janeiro do ano passado, esse número era de 26,7%. O consumo aparente cresceu 7,9% nos 12 meses até maio, resultado da combinação de aumento de 23% das compras externas e de queda de 0,58% da produção e de 8,7% das vendas externas. Para Fátima, esses números evidenciam a perda de competitividade da indústria química brasileira, tanto aqui como no exterior.

Há, porém, empresas dentro do setor que vivem um momento positivo, como a Lanxess. A companhia está com sua demanda aquecida por conta das obras de infraestrutura e urbanização do país. “O Brasil se tornou muito importante para o grupo. Em 2005, quando iniciamos a empresa, o país era responsável por 1% do faturamento mundial, hoje já é de 10%”, conta Marcelo Lacerda, presidente da Lanxess.

No primeiro trimestre de 2011, a empresa vendeu €181 milhões, 29,5% a mais que no mesmo período de 2010. Como a companhia tem ações negociadas em bolsa, o presidente não pode revelar dados do segundo trimestre, mas afirma que “o ano começou muito bem”. Para ele, “a demanda vai ficar alta”.

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O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Lourival Kiçula, traça um quadro favorável ao falar de seu setor. Diz que o segundo trimestre ainda foi forte, embora o desempenho tenha variado bastante de acordo com os produtos. A venda de câmeras digitais atingiu 802 mil unidades no segundo trimestre, 31% a mais que em igual período do ano passado, considerando estimativas preliminares para junho. No primeiro trimestre, as vendas foram de 724 mil, 48% a mais que no mesmo intervalo de 2010. Já a venda de televisores somou 3,094 milhões de unidades entre abril e junho, 9% a menos que no segundo trimestre de 2010. No primeiro trimestre, o número foi de 2,970 milhões de televisores, 2,9% a menos que de janeiro a março do ano passado.

“Nesse caso, a base de comparação é muito forte, por causa da Copa”, afirma ele, acrescentando que quem produz refrigeradores, lavadoras de roupas e micro-ondas vive um bom momento. Kiçula mantém a projeção, feita no começo do ano, de que as vendas do setor devem crescer 10% em 2011. (Colaborou Paola Moura, do Rio) 

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