A indústria automobilística e o sorvedouro que vem da China, por Luis Nassif

Com esse duplo movimento, de abrir seu mercado e de investir maciçamente em carros elétricos, a China se transformou em um sorvedouro dos investimentos globais do setor.

Construir baterias mais eficientes é fundamental para reduzir o preço dos carros elétricos. No Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, um protótipo está sendo desenvolvido para fabricar componentes de bateria feitos sob medida.Crédito…Felix Schmitt para The New York Times

Há um novo complicador no horizonte para a economia brasileira, especialmente no setor automobilístico.

A crise internacional, agravada pela Covide-19, afetou profundamente as cadeias globais de produção, que ajudaram na consolidação da industrialização da China. Antes disso, já havia um movimento da indústria se deslocando para o Sudeste Asiático. Com a crise, e os problemas de abastecimento, países desenvolvidos estão trazendo de volta parte da produção de componentes. Finalmente, a escassez de chips e as paralisações na cadeias de suprimentos aumentaram ainda mais as incertezas sobre a produção chinesa.

Recentemente, Liu Giuping, vice-governador do Banco Popular da China, apontou outros problemas globais que poderiam afetar o crescimento chinês. Do lado monetário, inflação crescente e políticas monetárias restritivas afetando o comércio mundial. De outro, o crescente sentimento anti globalização que cresce na maioria dos países.

A estratégia chinesa consiste no fortalecimento do mercado interno e, como peça central dessa estratégia,  a Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), um acordo de livre comércio entre os 10 membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) mais Austrália, China, Japão, Nova Zelândia e Coreia do Sul.

O acordo entrou em vigor em 1o de janeiro na Austrália, Brunei, Camboja, China, Japão, Laos, Nova Zelândia, Tailândia, Cingapura e Vietnã em 1º de janeiro.

Um dos principais benefícios do pacto é sua estrutura comum de “regras de origem”, já que os exportadores da RCEP geralmente só precisarão obter pelo menos 40% dos insumos de dentro do bloco para que seus bens finais se qualifiquem para preferências tarifárias quando exportados para outros membros , explicou Ajay Sharma, chefe regional de comércio global e finanças de recebíveis do HSBC para a Ásia-Pacífico.

Mas a medida que poderá afetar mais o Brasil é a decisão da China de abrir seu mercado para montadoras estrangeiras, sem a contrapartida de se associar a alguma empresa chinesa. Antes disso, empresas estrangeiras só poderiam se estabelecer na China em parceria com empresas locais, e sem poder deter mais que 50% das ações.

Atualmente, a maior parte da produção automotiva da China destina-se ao mercado interno. Em 2019 as vendas totais de carros na China foram de cerca de 25 milhões, 25% a mais do que Estados Unidos e Canadá juntos. 

Com a abertura, pretende-se transformar a China também em polo exportador. Atualmente, em joint venture com empresas chinesas, já estão instaladas por lá a Toyota, Honda, Nissan, Ford, Mercedes-Benz e General Motors.

O maior programa de investimentos do mundo está justamente nos veículos elétricos produzidos na China, com uma rapidez espantosa. Fundada em 2015, a WM Motor, com sede em Xangai, já tem capacidade de produção de 100.000 unidades por ano. Antes de seu IPO, conseguiu uma linha de crédito de US$ 1,78 bilhão de bancos chineses.

A Aiways, com sede em Xangai, foi fundada em 2017 e já possui uma fábrica em Shangrao com capacidade anual de 300.000 veículos, um centro de pesquisa e desenvolvimento e um centro de design em Xangai, uma fábrica de baterias em Changshu e um centro de vendas europeu em Munique.

Maior montadora da China, a Geely Automobile Holdings é proprietária da Volvo Cars e maior acionista da Daimler. E planeja de fabricar 10 modelos de carros elétricos até 2025.

A Geely e várias empresas estatais de Zhuhai se uniram para resgatar a fabricante de veículos elétricos Faraday Future.

Com esse duplo movimento, de abrir seu mercado e de investir maciçamente em carros elétricos, a China se transformou em um sorvedouro dos investimentos globais do setor.

Enquanto isso, no Brasil, a gestão Paulo Guedes destrói a capacidade de financiamento do BNDES, assiste passivamente a crise dos chips, destrói a Ceitec, único fabricante brasileiro. Com Bolsonaro, cada dia de vida, para o país, nunca é mais, é sempre menos.

3 Comentários

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antonio

- 2022-01-18 03:03:39

ok

AMBAR

- 2022-01-17 15:49:32

Esses investidores agora tão caros à China podem, a médio prazo explodir e economia chinesa de dentro pra fora. A China pode acolher montadoras estrangeiras, o que ela não pode é deixar de ter uma marca própria e forte. Talvez ela ainda se valha da velha prática de aprender primeiro, melhorar o que aprendeu e superar os mestres, como tem feito com todos os setores que se aproveitaram da sua mão de obra. O tempo dirá. Já vimos a derrocada do B(rasil), a próxima é a da R(ússia), a I(ndia) já está garantida, o C(hina) é o que mais demanda esforço e o S não preocupa. Ilações sem nexo, podemos dizer, porém na política e na economia nada é isolado.

José de Almeida Bispo

- 2022-01-17 14:33:19

Tenho cantado essa pedra desde "as manifestações de 2013": a ordem e retornar o país à década de 1920, ressalvadas as diferenças tecnológicas, obviamente.

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